Perspectiva e Burcas

 

Julho de 2009 — um de meus amigos tira uma foto de algo atrás de mim e exclama ‘ninja’, deixando-se levar por um ataque de risos logo em seguida. Demoro para entender o que se passa; na minha primeira vez no exterior, não tenho certeza se a  Inglaterra talvez não tinha mesmo ninjas passeando nas imediações do Madame Tussaud. Obviamente não se tratava de um ninja, e sim de uma senhora de burca, cujo marido nos dava a entender, em sua expressão mais sincera de desgosto, que aquela cena o desagradava profundamente.

Cabe dizer que não havíamos estado em muitos lugares fora de Santa Catarina até então, de modo que nosso universo não continha habitualmente senhoras de burca ou imigrantes do oriente médio. Minha reação, então, foi de rir junto e pedir para ver a foto do ‘ninja’. No momento nem cheguei a pensar nisso, mas, por acidente, talvez tivéssemos juntado na mesma piada pitacos de xenofobia, hostilidade, e uma provocação quiçá racista. Sem dúvida uma gafe bastante idiota da parte de quem quer que tenha feito a piada.

Horas depois, antes que a primeira rodada de Guinness e London Pride fizesse efeito, sentamo-nos num pub e repassamos o balanço do que fora explorado naquele dia. Aí ocorreu a alguém que ‘ninja’ era uma palavra internacional, de modo que a senhora e seu marido de burca certamente haviam compreendido a piada.  A cerveja ficou um pouco sem gosto; o melhor é que a situação tivesse sido simplesmente evitada. Todos fitaram o nada sobre a mesa, viajando mentalmente por tudo o que já havíamos visto em notícias e ouvido falar sobre temas delicados envolvendo imigrantes de certos setores da tradição islâmica. Com aquela piada de mau gosto, fez-se exatamente aquilo contra o qual fomos alertados durante tanto tempo, mesmo que de longe.

A necessidade de sentir-se à vontade entre conterrâneos, somada à conveniência de ter viajado em um grupo enorme de brasileiros, acabou resultando que não havia entre nós nenhum representante de países onde o islã é mais forte. Talvez alguns colegas nascidos na Europa Central tivessem o que dizer, mas ninguém estava muito consciente s6bre o assunto ou queria discuti-lo longamente.

Fica claro agora que nos faltou esse elemento de choque cultural. Essa primeira incursão ao estrangeiro serviu apenas para nos dar um gosto da visão holística que viria depois aos poucos, toda vez que conheceríamos ainda mais tantas pessoas sensacionais de tantos outros lugares.

Berlin, 2013 — estou vendo alguma besteira nos computadores da faculdade, entre uma aula e outra. Devia ser segunda-feira, logo depois do almoço. Converso também pelo Facebook com B., um dos meus amigos feitos por aqui, cujos pais têm raízes diretas no oriente médio e mantêm seu elo original com o Islã. Ele me avisa que os bilhetes para o i,Slam estão disponíveis online, inclusive com um desconto para estudantes. Minutos depois chega no meu e-mail a confirmação e a versão digital do bilhete.

Eu definiria o i,Slam como um evento de ‘spoken word poetry’ ou como ‘poetry slam’;  isto é, um festival em que poesia ou prosa é lida de modo performático. Nesse caso especificamente, a poesia é a forma de dar a talentosos jovens muçulmanos a possibilidade de serem ouvidos ao se expressarem sobre temas políticos, religiosos ou quanto à sociedade, fazendo uso de humor negro, sátira ou drama.

Foto: i,Slam (divulgação)

Mas antes de entrar mais a fundo no i,Slam, convém descrever mais um pouco esse meu amigo, que agora figura sem nenhuma dificuldade entre o rol de pessoas que sou tão grato por ter conhecido. Nosso primeiro contato foi através da AIESEC, organização na qual nós dois trabalhamos voluntariamente, quando estávamos nos galpões do Tempelhof, aroporto agora abandonado ao sul de Berlin. Lá aconteceu em abril uma feira de oportunidades de estágios e empregos para jovens profissionais, e nossa tarefa era conversar com empresas que eventualmente quisessem contar com interns e trainees do mundo todo.

Eu, na verdade, não tinha muitos motivos para estar nessa feira. Descobrir um estágio ou um trabalho na Alemanha não era uma prioridade naquele momento, e também não tenho responsabilidade direta, digamos assim, de descobrir empresas interessadas para nossa organização. Mas a oportunidade pareceu ser bem ímpar, então acabei indo de um jeito ou de outro. Encontrei-o lá ocupado, já tendo conversado com um monte de gente, mas sozinho., porque ninguém pudera o acompanhar (era uma quarta-feira difícil para o resto do time, pelo que ele explicou depois). Fui então seu wingman entre estandes de start-ups e grandes empresas, pondo a prova meu alemão que dava para o gasto a duras penas.

Influenciado pela atmosfera, não consegui deixar de questioná-lo, entre uma empresa e outra, sobre o que ele achava das oportunidades todas lá disponiveis. Os gigantes financeiros, as multinacionais, as mega-corporações e tal. “Parece um futuro interessante”, talvez eu tenha dito. Eu comia um muffin distribuído por uma dessas empresas, e ele tomava um Club Mate, chá mate com gás que se toma por aqui, do qual B. tomou um gole e hesitou. “Well…”, ele disse, começando um pensamento em voz alta como ele normalmente faz.

“Não é bem meu negócio”, disse, referindo-se vagamente a tudo o que os cursos de Economia e Administração normalmente ensinam. Como estudante de ciências políticas, esperava de B. que fosse seguir por algum caminho por aí, não sei. Mas ele acabou me explicando bem reservadamente que seu verdadeiro interesse tem fundo criativo. “Ah, sim!”, respondi. Presumi ter uma pista e quis perguntar alguma coisa inteligente, mas não me veio nada. Ao invés disso, contei que achava extremamente interessante que ele tivesse um lado criativo, falando também sobre as coisas que escrevo de vez em quando e tudo o que eu já havia criado como jovem diletante.

Acho que serviu para despertar-lhe alguma simpatia, porque nesse momento ele me explicou sobre os projetos que desenvolve paralelamente à sua vida acadêmica, envolvendo exatamente a escrita e cinema. Essa conversa evoluiria mais tarde, em meio à gummy bears com Vodka e shots de qualquer coisa em uma festa de despedida de uma colega nossa, a longas discussões sobre o que significa o ‘boa’ quando se fala em uma ‘boa história’.

Ainda na feira, não conseguia deixar de fazer sempre mais perguntas sobre sua veia criativa entre um estande e outro, o que nos levou finalmente à ‘spoken word poetry’. Digo, eu havia visto uma foto dele segurando um microfone diante de uma grande plateia. “Participo da organização de um ‘poetry slam’ chamado i,Slam”, ele explicou. “A final em Berlin será em junho, e posso ver para você onde se vende os ingressos”. Empolgado, concordei na hora.

Demoraria algum tempo até que eu voltasse a conversar com ele. Mas maiores reflexões ainda viriam; de algum modo muito didático (se é que posso colocar dessa maneira), o desenrolar dos meus dias fora do Brasil me serviu para fazer ter mais formas de entender talvez um pouco da perspectiva daquela senhora de burca quatro anos antes. Isto é, a imersão em um festival de poesia falada por jovens poetas e escritores muçulmanos enfim me permitiria ouvi-la por outras vozes.

Depois de algum tempo, efetivamente estava eu lá no evento, na “Akademie der Künste”, em companhia meu amigo francês que, para seu desapontamento, supusera se tratar de um festival em inglês. De todo modo, B. explicaria mais tarde que a organização do evento esperava outros grupos de pessoas, mas a audiência era composta em maioria por jovens de origem muçulmana que tinham a nossa idade, mais ou menos, algo que notamos ao chegar lá. Várias garotas trajavam véus, e meu amigo francês lentamente entendia o que eu quis dizer com aquela história de que assistiríamos talentosos jovens muçulmanos se expressando sobre temas políticos, religiosos ou sociais.

Sentamo-nos na terceira fileira, o que fiz meio a contragosto, receoso de que talvez tivéssemos que interagir. Talvez não saberíamos o que dizer ou fazer porque éramos um pouco leigos demais em se tratando de cultura islâmica. Com efeito, após o começo, as apresentações iniciais e a vinheta de abertura, um dos hosts do evento cumprimentou a plateia com um alto “salaam aleikum!”, sendo respondido com entusiasmo: “wa aleikumu s-salam!”. (“São cumprimentos normais”, me seria explicado depois, mas também significam ‘peace be upon you’ e ‘and unto you peace’, respectivamente.)

O francês me olha meio sem saber o que fazer, mas a energia da coisa toda faz uma onda de arrepio subir minha espinha, e voltamos a nossa atenção para o palco. Ali a tarde se desenrolaria através de uma competição entre os poetas participantes, cuja maioria era composta por garotas não mais velhas que nós, uma delas até com 15 anos de idade. Sua eloquência e poder de narrativa nos transportaram então intensamente para, por exemplo, a prisão na Baía de Guantánamo, com as rimas, gritos e textos justificadamente revoltados. Tudo bem que não consegui sacar a referência a Guantánamo até o fim desse ato, mas me impressionava de todo modo a garota tão jovem ter tal capacidade. (Foi difícil não lembrar que aquele episódio do ‘ninja’ me ocorreu quando eu tinha sua idade.)

Um outro poema, por sinal, causou-me grande estranhamento ao não ter vencido a competição. De título “Was ist los, Deutschland?” (traduzível para: ‘o que passa, Alemanha?’ ou ‘o que tá rolando, Alemanha’?), essa performance de ‘spoken word poetry’ por uma garota alemã negra começava com ela narrando sua ida à farmácia para adquirir um creme específico, somente disponível em ‘cor da pele’, infeliz ideia de nome dado fabricante para o tom bege do creme. Sentamos por toda a sua apresentação impressionados por ela ironizar um tema tão difícil como o racismo que estaria contido no creme, logo da maneira quase leve que foi.

Acho que devemos ter chegado lá às 13h do sábado, indo embora só às 18h ou por aí. Após o i,Slam comecei a passar mal, de modo que tive que tomar o trem de volta para casa tão logo fosse possível. Eu estava doente de qualquer forma, mas suspeito que aquela animosidade repentina foi causada em boa parte pela minha cabeça meio provincial do interior de Santa Catarina tendo que digerir tanta informação nova de um mundo que eu tanto desconhecia.

Por certo, a questão toda da imigração e do islamismo no ocidente envolve discussões muito mais longas, pensadas bem a fundo. Mas de todo modo, depois de melhorar do mal-estar do sábado, acordei grato ao notar que as referências suscitadas por uma burca ou um véu agora não mais teriam aquele fundo infeliz e inapropriado que tinham em 2009 — sem ninjas, sem nada.

Não sei quantas outras pessoas também teriam aproveitado algo do festival, mas só tive a desejar que a ideia continue sempre a espalhar seus bons ares de choque de perspectiva por aí. Enfim, bom seria que houvesse mais edições de outros i,Slam por aí, me parece. “Peace be upon you!”

 

João Vítor Krieger

João Vítor Krieger

Catarinense de sotaque meio vago e de 1992, gosto de cartões-postais, meios termos e de estar sempre com meu ukulele e uma gaita a tiracolo. Uso meu tempo tentando dar bom uso ao meu diploma de bacharel, voluntariando em alguma causa, e escrevendo histórias mais ou menos inventadas a cada duas terças-feiras aqui no Uma Boa Dose. Sonho em viver em um mundo onde as pessoas não achem o alemão um idioma tão feio assim, e onde Assunção esteja sempre a 15 minutos de casa.
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