90 Pequenos Prazeres da Vida

Ter um ‘pen friend’, isto é, uma amizade mantida por correspondência ou por mensagens pela internet (geralmente em outros idiomas), é inegavelmente uma iniciativa excelente. Lembro de ter sido apresentado a ela ainda quando tinha uns 12 anos, em alguma aula de inglês do ensino fundamental, cuja proposta era nos acostumar à ideia de escrever cartas — algo já jurássico na nossa concepção pré-adolescente de então — e usar outras línguas de um modo que nos envolvesse emocionalmente.  Achei isso tudo uma baita ideia. Se não me falha a memória, inclusive me deixaram à disposição o endereço de um aluno americano de ensino fundamental que morava em Connecticut ou alguma coisa assim.

Ao voltar pra casa no dia em que ganhei o tal contato, pus-me a pensar por onde começaria, e tão logo notei que tinha um ‘grave’ problema: não há muito o que se dizer aos 12 anos de idade. Provavelmente só me ocorreu que minha vida era meio ‘sei lá, normal’, e assim a vontade de sentar e escrever era sempre vencida sem dificuldade pelo Nintendo 64 que tínhamos em casa.Não  suficiente, um colega de classe ainda contou que seu irmão teria escrito uma carta enorme a algum ‘pen friend’ em potencial no Egito, mas a resposta nunca veio. Por essas e outras a idea ficou finalmente na gaveta.

Anos depois, por fruto de uma seqüência de gratas coincidências, conheci uma intercambista do Canada que morava também em Santa Catarina. Ela fora visitar o mexicano gente finíssima que estudava no nosso colégio, e, de quebra, a Oktoberfest em Blumenau, onde acabamos conversando por bastante tempo. Eu só voltaria a revê-la meses depois mais duas vezes — e todo o tempo que pude conviver de fato com ela se resumiria a isso —, mas esses breves rendezvous surtiriam um efeito inusitado. Apesar da minha descrença motivada pela aparente falta de assunto e pelo egípcio que nunca deu o ar da graça, eu passaria a ser a partir dali o ‘pen friend’ dela, em cartas escritas ocasionalmente a mão, mas principalmente pela internet e hospedadas em um blog privado.

Pois bem, acho ainda questionável se ganhei tanto mais para falar de 2004 para cá, para manter essa amizade meio platônica tão  melhor do que eu teria mantido aos 12 anosde idade. A resposta esteja talvez ligada a algo que não passaria pela minha cabeça à época: o fator da convivência é praticamente inexistente. Por isso, todos os assuntos teriam que depender de interesses comuns ou coisas abstratas que poderiam ser discutidas tambem por qualquer outra pessoa no mundo. Coisas sempre comuns às nossas percepções, apesar de estarmos separados por milhares de quilômetros.

Aqui é que entram os pequenos prazeres da vida, de modo que este post quase se chamou ‘Um brinde a Neil Pasricha’.  Vamos com calma: o Neil, também canadense, é autor do blog ‘1000 awesome things‘, no qual são listadas diariamente pequenas pérolas do cotidiano, cujo valor incomensurável talvez nos passe batido. Ele conta em seu TED Talk que a ideia surgiu após perder um de seus melhores amigos e ver seu casamento deixar de existir, como instrumento para ter algum tipo de virada de percepção e vencer a melancolia forte que surgira.

Listando uma por uma dessas ‘awesome things’, o blog serviu também como uma contagem regressiva do #1000 até o #1 — levando, portanto, pouco mais de 3 anos  —, e atraiu multidões de leitores que vinham ver sempre qual era o pequeno prazer da vida do dia. Assim, de modo meio casual e improvável, atingiu-se a notoriedade descrita no seu perfil do TED, que traduzo abaixo livremente:

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Foto: TED.com

“Neil Pasricha nunca imaginou que escrever sobre o cheiro de gasolina; sobre pensar que é quinta feira quando na verdade já é sexta; ou que vestir cuecas que acabaram de sair da máquina de secar roupas levaria a algum lugar. Auto-rotulado como ‘um cara mediano’ com um trabalho típico das 9h às 17h e morando nos subúrbios, Neil começou seu blog ‘1000 Awesome Things’ como um pequeno lembrete — em um mundo com níveis crescentes do mar, conflitos internacionais e economias em crise — das pequenas e simples alegrias que fazem da vida algo mais doce. Ele certamente não antecipou que seu site ganharia audiência de milhões de pessoas, ganhando dois prêmios ‘Webby Awards’ (“the Internet’s highest honor” de acordo com oThe New York Times), elencado como um dos maiores 100 sites da internet pela PC Magazine, e ter se tornado um lugar onde pessoas do mundo todo vêm para celebrar os simples prazeres da vida cotidiana.”

 

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=ajKMkIXN1eg&w=560&h=315]

Por certo, a ideia pode parecer carregar aquele ar indefectível de auto-ajuda em uma visão excessivamente otimista do mundo, o que tornaria a coisa toda bem mais desinteressante, suscitando até eventualmente o título de ‘coxinha’. Mas acho injusto que se tire seu mérito: em uma dessas cartas mais antigas à minha amiga canadense, conversávamos sobre como tanta coisa — dos pequenos problemas pessoais e alheios, às grandes tragédias do mundo — ofuscava nosso discernimento, que foi incrível notar o quanto vinha a calhar esse alívio oferecido pelo Neil.

Não sei quem teve a ideia seguinte, mas foi uma boa sacada em seu contexto: seria bom se fizéssemos nossa própria lista. Não parecia uma tarefa complicada, então passamos a dar continuidade a ela desde em um ritmo mais lento, com um pequeno prazer, por assim dizer, a cada 20 dias ou por aí. Desde que isso nos ocorreu, compilamos nossas próprias ‘awesome things’ (90 até agora), as quais transcrevo ainda em inglês para favorecer as sutilezas lá deixadas por ela.

Little Pleasures of Life

(Última atualização: julho de 2013)

1. The smell of new clothes.
2. Holding the hand of a child.
3. Reading a book you love.
4. Hearing your favourite song on the radio.
5. The first cold breeze of the year.
6. Sleeping in late.
7. Finding what you thought you lost.
8. The first rays of sun after many days of rain.
9. Eating chocolate.
10. Opening a letter that just arrived.
11. Going for a bike ride on a sunny morning.
12. Showers at the perfect temperature.
13. Having a hamburger with fries and lots of ketchup.
14. Making a new friend.
15. Sending a postcard to someone far away.
16. Hugging a friend.
17. The comfort of home.
18. Sleeping in your own bed.
19. Doing well on a test.
20. Arriving late without anyone noticing.
21. Making a wish on your birthday’s cakes candles.
22. Listening to music recorded in vinyl.
23. Getting a strike in bowling.
24. Finishing a crossword puzzle without having to check the answers.
25. Passionate philosophical debates
26. Sleeping through a whole morning
27. Winning a contest
28. Reencontrar alguém que você não vê há muitos anos
29. High fives
30. Putting a personal letter in the mailbox.
31. Meaningful birthday wishes from friends
32. Creative impulses
33. Dressing up in costumes
34. Being praised
35. First snowfall of winter
36. Road trips
37. Being accepted to a program
38. Panetones (and Christmas sweets in general)
39. Childhood nostalgia (originally: “That nostalgic feeling that strikes you when you find something from your childhood that you hadn’t seen for many years”)
40. Drinking hot chocolate
41. Singing
42. Seeing an old couple still in love
43. Butterflies in the stomach
44. Being alone at home
45. Fixing what was broken
46. Those small bits of procrastination when there’s something really important to do
47. Getting e-mails
48. Pleasant surprises
49. Crossing every item off a “to-do list”
50. Baking
51. Old clothes that still fit and look great
52. Scholarships
53. Kissing
54. Graduation
55. Driving!
56. Friend’s family who treat you as if you were a part of their family too
57. Filling up your calendar
58. Living without your parents
59. A phone call from your friends or family letting you know they’re fine
60. Puns
61. Poutine (iguaria de Quebec, que consiste em batatas fritas com queijo e molho; v. http://en.wikipedia.org/wiki/Poutine)
62. Pub crawls
63. Drinking and going to parties for free
64. Cinnamon bagels, toasted and buttered (http://pt.wikipedia.org/wiki/Bagel)
65. First dates
66. Quick responses to your texts
67. Writing a dedicatory on the first page of a book you’re about to give away as a gift 🙂
68. Correctly guessing what someone wanted as Christmas gift
69. Finishing a big post here on our blog
70: Closure (‘introspecção’)
71. Sharing a hobby with someone as passionate about it as you
72. Drinking water
73. Shoulders to cry on
74. Playing (or listening to) songs played with an Ukulele
75. Going to several partys in a row at the same night
76. Gelato (sorvete italiano)
77. Live music
78. Travel stories
79. When the band plays a song whose lyrics you (finally) know
80: Drinking tea
81. Platonic friendships
82. Photo albums
83. Conversations in other languages
84. Finishing your last exam
85. Making to-do lists
86. Planning trips
87. Playing N64
88. Playing with snow!
89. Hearing someone’s voice after years of absence
90. Fresh glass of orange juice

A lista obviamente há de continuar, até que algum dia atinjamos o #1000 de Neil Pasricha. Quanto ao post, não sei bem como concluir; fico na expectativa de que a nossa pequena compilação seja o principio da lista de outras pessoas, e que se compartilhe isso em algum lugar também, fazendo-se algum bom uso da ideia. Ou também mande-me sua sugestão — e um brinde ao Neil!

João Vítor Krieger

João Vítor Krieger

Catarinense de sotaque meio vago e de 1992, gosto de cartões-postais, meios termos e de estar sempre com meu ukulele e uma gaita a tiracolo. Uso meu tempo tentando dar bom uso ao meu diploma de bacharel, voluntariando em alguma causa, e escrevendo histórias mais ou menos inventadas a cada duas terças-feiras aqui no Uma Boa Dose. Sonho em viver em um mundo onde as pessoas não achem o alemão um idioma tão feio assim, e onde Assunção esteja sempre a 15 minutos de casa.
João Vítor Krieger

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