As Veias Abertas de Outros Lugares

Um rápido prelúdio: “brasileiros, para este lado!”, gritava como orientação alguma funcionária de Guarulhos. “Non-Brazilian citizens to this side, please!” era a orientação em seguida, que vinha da mesma pessoa. Munido de meu passaporte azul, respiro fundo com orgulho de enfim retornar ao Brasil sem precisar enfrentar questionamentos do porquê da minha visita a algum novo país em incursão: encarno todas as canções de exílio na parte em que as letras comemoram o retorno. Ordinários sabiás, aguardando setembro para um canto mais triste, agora voam em contente alvoroço.

Outro momento similar: à época em que estouraram as manifestações contra o aumento da tarifa de ônibus em São Paulo, por estar tão longe, apenas pude ler incrédulo na internet notícias a respeito, algumas recheadas por todos aqueles relatos de violência e estardalhaço nas capitais. Eventualmente surgiu a oportunidade de participar de algo assim, e o fiz. Até imagino que tenha se passado o mesmo com mais tanta gente, considerando o consenso tão imediato de tantos brasileiros se manifestando, como se convocados por algum sentimento de luta pelo bem comum no país. Minha presença, na verdade, foi bem distante da realidade, em uma passeata por Kreuzberg, o ‘bairro turco’ da capital alemã, onde senti pulsar um quase bizarro senso de pertencimento por fazer o que parecia ser minha parte. Cantar o hino nacional foi bem emocionante, tanto quanto talvez foi ser brasileiro naquele momento.

 

Não sei bem se essa sensação se expirou; se faltou uma causa mais consistente para sustentar os coros entoados naqueles termos; ou se, diante de algumas mudanças provocadas pela roda-viva tão rápida e intensa desse último mês de julho, dispersou-se o senso de revolta geral. Também não sei se preciso tornar a folhear meu passaporte para sentir a excitação de pisar no solo pátrio. De todo modo, já distante dessas situações, esqueço-me às vezes da diferença entre ser de fato tupiniquim de sangue verde-amarelo — ou um mero brasileiro.

O sentimento meio claudicante não é novo: em dada ocasião, já fui até folhear uma edição batida de um livro do Darcy Ribeiro para entender algumas coisas pontuais sobre identidade nacional e tal. O sul do Brasil, no que me diz respeito, é marcado pela heterogeneidade cultural dos imigrantes europeus, com enclaves gringo-brasileiros, como diria o autor. Importante aqui, na verdade, é sublinhar que a composição da região sempre foi de uma mistura de fatores tão numerosos que se deve começar por um livro de 400 e tantas páginas para ter uma ideia introdutória. O que faz de nós brasileiros, afinal?

***

“Pouco importa por agora”, sempre foi a resposta interna, bastante confortável para tantos propósitos. Mas aí, mensageiro não intencional de produto de quinhentos anos de história, nos últimos meses lá estava eu em território estrangeiro — esses temas não se esgotarão tão cedo — e sem saber responder decentemente a mesma pergunta quando meus colegas gringos a faziam.

Por outro lado, meu amigo polaco (que ensejou todo essa longa introdução) entendia bem sobre a Polônia. Suas opiniões fortes e os brindes com cara de pós-guerra — ‘aos nossos homens no mar!’ — sempre mostravam o quanto ele sabia ser polonês, e em igual constância deixavam a mim e ao Darwin, seus vizinhos de porta, meio sem saber o que dizer. Poland is not yet lost.

Não sei qual primeira impressão causei nele. Quando ele me disse que era polonês, na cantina da universidade, soltei tão logo foi oportuno a única frase que eu sabia dizer no seu idioma: “potrzebuje kurwa piwo” (ou ‘preciso de uma porra de uma cerveja’, em português). Acho que a expressão é meio vulgar, mas ele estava rindo e o gelo fora quebrado de qualquer forma; eis ali o princípio da nossa amizade.

O polaco, no entanto, não era dado a vulgaridades e tampouco a grandes volumes de cerveja. Mesmo em seu pensamento sempre tão hiperbolicamente conservador, era um cara divertido, e até nos entretinha com algumas de suas idéias quase antiquadas. “Um cavalheiro”, como explicou quando íamos a pé para casa um dia, “deve sempre andar com a cabeça erguida e o olhar fixo no horizonte”. E assim mesmo de cabeça erguida, como quem espera matar a realidade no peito, nos falava sobre o quão melhores eram tantas coisas na Polônia.

Não era o que eu esperaria. Ouvi de intercambistas brasileiros de outros anos que os poloneses tinham uma tendência a ver a vida de modo meio melancólico ou alguma coisa assim. Talvez fosse algo que se devia às guerras e batalhas perdidas em outros tempos, juntamente com as seguidas ocupações e a opressão da pátria alheia. Meu caro amigo polaco, no entanto, era orgulhosíssimo de suas raízes, e via defeito em ideias modernas ou liberais que o contrariassem nesse sentido. Até citava, entre outras coisas, ensaios sobre a Polônia por escritores ingleses para sustentar suas teses tão firmes: “Hope of the Half-Defeated; house of gold / Shrine of the sword and tower of ivory.” (Eu raramente conseguia pensar em uma boa resposta.)

Depois de várias semanas de convivência, passei a aceitar com facilidade que ele dispensava qualquer evento ou acessório para compreender seu papel no mundo como cidadão polonês. Ele não precisava sentir a polvorosa de uma manifestação nacional ou conferir de novo o passaporte, digamos. Algum tempo se transcorreu antes que eu fosse à Varsóvia, capital da Polônia, para ver com meus próprios olhos o que ele queria dizer. E no começo de maio enfim tomei um trem rumo ao coração de seu país para visitá-lo.

Foto: João Vítor Krieger

É possível que minha estadia lá tenha sido breve demais para que eu pudesse entender qualquer coisa com propriedade. Há até quem diga que é necessário ficar mais de seis semanas em qualquer lugar para dizer que já esteve lá de verdade, mas não sei se concordo. O ponto é que a Polônia, pelo que sua capital deu a entender, me pareceu triste em todos os momentos que caminhei por suas ruas e ouvi meus anfitriões, e é assim que dela lembrarei.

Por exemplo: aquilo que eu conhecia por ‘Plattenbau’, isto é, prédios de concreto armado, cinzentos e quadrados, eram muito presentes no panorama da cidade, assim como no lado oriental de Berlin. Suponho que eram essas as marcas mais evidentes dos tempos da União Soviética. A arquitetura, quando diferente, era feita de reconstruções pós-Segunda Guerra Mundial, e esta parecia ser a cicatriz polonesa mais tangível. Varsóvia, outrora completamente destruída, agora parecia respirar com calma, mas cautela. O céu nublado que me recepcionava era quase tão desanimado quanto o David Bowie e o Joy Division em suas músicas em homenagem a cidade.

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Há também as histórias do holocausto e atrocidades cometidas contra judeus: o Gueto de Varsóvia, por exemplo, é o maior de todos os guetos na Europa ocupada pelo regime nazi. Além disso, alguns dos melhores filmes sobre essa parte da história, como “O Pianista”, têm o desenrolar de suas tramas na capital polonesa, e até referências aparentemente mais inocentes na cultura deles — como a música de pop rock Warszawa”, da banda T.Love — fazem menção aos anos de ocupação fascista. A atmosfera densa das histórias vivas que pareciam vagar por lá me amuava com facilidade.

Não creio que o presente lhes seja complicado, algo claro na sua despreocupação quando passeamos pelas ruas da capital a pé, ou em seu carro ao som de “Kaliber 44”, hip-hop polonês. Mas persistia a dúvida, não aquietada por eventual café com torta de ruibarbo: por que o polaco, que não vinha da terra ensolarada e feliz onde nasci, sentia tanto orgulho dessas ruas que mais eram veias abertas desse passado difícil? A resposta viria não dele, mas de uma colega sua também de Varsóvia, com quem conversei bastante e a quem perguntei várias coisas: de onde vinha, o que fazia, e o que achava de Varsóvia ou da Polônia, especialmente dos tempos de regime soviético.

***

“Bom, meus pais têm lembranças boas, porque eram jovens naquele tempo, e tudo é meio deslumbrante nessa época da vida”, ela disse. “Mas têm também várias lembranças ruins. Você sabe, era tudo racionado e muita coisa faltava, tipo carne e tal. E havia mais um tanto de serviços públicos deficitários, o que não nos facilitava muito a vida. Não sei dizer se o regime comunista nos fez tanto bem assim, apesar das intenções.”

O polaco de Berlin, que chamaria Marx de um criminoso, já não estava conosco, o que nos permitiu continuar a conversa sem alguma interrupção para desaforos. Naquele momento estávamos longe do centro, em algum parque favorito de sua amiga, e pareceu mais conveniente mudar de assunto. Passei a contá-la sobre o que eu fazia por lá, explicando o mais resumidamente que consegui sobre o intercâmbio e tudo o que eu tinha em mente sobre a Alemanha e as viagens todas.

Ela achava um tanto estranho esse meu interesse em ir ao exterior e dedicar tanto tempo a culturas e países distantes, algo que sempre tomei por importante. Sua amiga, por outro lado, tinha planos de não sair nunca da cidade e, sei lá, talvez abrir um restaurante. Confrontei a sua perspectiva menos ambiciosa: “mas você não acha que há muito mais no mundo que só a Varsóvia ou seus subúrbios? A Krakowskie Przedmiescie e as ruas da cidade velha?”

“Você não entende”, ela começou. E após fitar longe o fim do parque como se buscasse o que queria me explicar, voltou-se para mim: “deixa eu te contar sobre o Warsaw Uprising.” 

No dia 01.08.1945, praticamente há 68 anos, iniciou-se lá uma enorme operação militar sustentada por grupos de resistência e oposição às forças invasoras. “E meus avós participaram disso, passando por um sofrimento impossível de medir e entender”, ela contava solenemente. “Mesmo depois que o Eixo decidiu por destruir Varsóvia completamente e varrê-la do mapa, os poloneses todos estavam lá lutando contra as invasões… E se estamos aqui agora, acho que meio que devo isso a eles. Não posso simplesmente me mudar daqui: Varsóvia, apesar de tão destruída, foi depois um presente dado pelos meus avós e por todas as pessoas de sua geração que lutaram por mantê-la de pé tanto quanto fosse possível.”

Monumento aos insurgenets do levante na Praça Krasiński em Varsóvia.

Monumento aos insurgenets do levante na Praça Krasiński em Varsóvia. (Foto: João Vítor Krieger)

 

Eu já sabia disso em parte, tendo já conversado com outros poloneses que contavam sobre invasões, ocupações e batalhas sofridas por eles, contra o que hoje seria a Suécia, a Alemanha e a Rússia, por exemplo. Era uma questão que ia muito mais a fundo, de modo que a nacionalidade deles era quase uma honra a ser defendida.

Essa conversa demorou a assentar-se em minhas ideias meio sem convicção sobre senso de identidade nacional e assuntos dessa natureza. Certamente, adaptando-se para o nosso contexto, já se lutou por aqui também contra invasores para dar o país como presente às futuras gerações. Não tenho dúvida também que algum brasileiro também tem a nacionalidade como motivo de honra a ser defendida, como sugere nosso hino. Mas não consegui deixar de achar que entendo minha identidade nacional de forma dispersa — e quase lamentei não ter tido uma herança maldita dessas para poder falar do meu país com uma convicção teimosa como eles.

***

De um jeito ou de outro, depois de já ter voltado dessa trip, o Polaco e eu fomos dar alguma volta por Berlin em companhia de um grupo mais numeroso de brasileiros. Meus conterrâneos pareciam estar inspirados na ocasião, já que estava intenso demais o jeitão meio barulhento e feliz que o grupo tinha normalmente de modo tão particular.

Por que vocês são tão felizes o tempo todo?”, talvez meu amigo estrangeiro tenha perguntado. Pensei em alguns problemas que o país sempre teve, como quem procura motivos para realmente não ser assim tão saltitante e alegre. Fiquei até na vontade de dizer um ‘pois é’ bem suspirado, para depois concordar mesmo assim e encerrar o assunto. Mas acabei respondendo que não sabia; quem sabe ele teria que ir a Florianópolis ou algum lugar assim para entender.

***

Com mais ou menos cicatrizes, as dúvidas quanto à nossa identidade permaneceram. Ainda assim, não acho que teria trocado por nada meu lugar na fila em Guarulhos só para brasileiros.

É bom estar de volta.

João Vítor Krieger

João Vítor Krieger

Catarinense de sotaque meio vago e de 1992, gosto de cartões-postais, meios termos e de estar sempre com meu ukulele e uma gaita a tiracolo. Uso meu tempo tentando dar bom uso ao meu diploma de bacharel, voluntariando em alguma causa, e escrevendo histórias mais ou menos inventadas a cada duas terças-feiras aqui no Uma Boa Dose. Sonho em viver em um mundo onde as pessoas não achem o alemão um idioma tão feio assim, e onde Assunção esteja sempre a 15 minutos de casa.
João Vítor Krieger

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