O segredo de todos os caras muito chatos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“Uma escrita tão sensível que leva à empatia instantânea” foi a definição de uma amiga minha sobre “O Apanhador no Campo de Centeio”, livro de J. D. Salinger.  Tem muito no livro a ser tirado — ainda que o protagonista, Holden Caulfield, seja mais referenciado por seu comportamento adolescente e reclamão —, especialmente quanto às pessoas. Sei lá, pessoas, assim mesmo. (Fosse eu o Holden, também não me daria ao trabalho de dar maiores explicações.)

A capa bonita da edição em inglês. Fica aí o apelo e sugestão de leitura. (Foto: Tumblr)

Mas dou um exemplo: descobri há alguns dias que um colega meu, bastante corpulento e com a aparente sensibilidade de um gorila, tem dotes artísticos. O cara desenha, aliás. E desenha bem, ainda que nunca tenha feito nenhuma aula de desenho, artes plásticas ou qualquer coisa desse tipo. E aí, assim que uma outra colega tomou um dos desenhos (escondidos) de sua mão e os mostrou para mim, ouvi imediatamente o Holden Caulfield na minha cabeça. Mais precisamente, ouvi ele recontar este trecho:

“Eu estava muito adiantado quando cheguei lá, então só sentei num daqueles sofás de couro bem perto do relógio no saguão, e fiquei observado as garotas. Um monte de escolas já estava em casa de férias, e tinha cerca de um milhão de garotas sentadas e de pé por ali, esperando por seus namoradinhos. Garotas de penas cruzadas, garotas de pernas descruzadas, garotas com pernas sensacionais, garotas que pareciam ser legais, garoas que aparentemente seriam meio escrotas se você as conhecesse. Era bem agradável ficar curtindo a vista, se é que você sabe do que estou falando.

De certo modo, era também meio depressivo, porque você ficava imaginado o que diabos ia acabar acontecendo com todas elas. Quando elas saíssem do colégio e universidade, quero dizer. Você imaginaria que a maioria delas ia acabar casando com uns caras idiotas. Caras que sempre falam sobre quantos kilômetros por litro eles conseguem fazer na porra dos carros deles. Caras que ficam muito infantis e ressentidos se você ganha deles jogando golf. ou mesmo em algum jogo idiota como ping-pong.  Caras bem mesquinhos. Caras que nunca leem livros. Caras que são muito chatos — mas tenho que tomar cuidado com isso. Quero dizer, com chamá-los de chatos. Eu não entendo caras chatos. Realmente não entendo.

Quando eu ainda estava em Elkton Hills, eu fui por uns dois meses o colega de quarto de um garoto, o Harris Macklin. Ele era bem inteligente e tal, mas ele era um dos caras mais chatos que já conheci. Ele tinha uma voz bem rouca daquelas, e ele praticamente nunca parava de falar. Ele nunca parava de falar, e o que é pior, ele nunca dizia alguma coisa que você quisesse ouvir em primeiro lugar. Mas ele sabia fazer uma coisa. O filho da puta assobiava melhor do que qualquer um que eu conhecia. Ele ficava lá arrumando a cama dele ou pendurando alguma coisa no guarda roupa — eu ficava maluco com isto — e assobiava junto enquanto o fazia, sempre que não estava falando com a sua voz rouca. Ele conseguia até assobiar música clássica, mas a maior parte do tempo ele assobiava jazzEle pegava alguma coisa bem sincopada, tipo “Tin Roof Blues“, e ficava assobiando de um jeito bem levinho e fácil — bem quando ele estava enfiando alguma coisa no armário. Era de matar. 

Naturalmente, eu nunca disse a ele que achava ele um baita assobiador. Quer dizer, você não simplesmente chega até alguém e diz “você é um baita assobiador”. Mas eu era colega de quarto com ele por dois meses inteiros, ainda que ele tenha me enchido o saco até eu quase ficar maluco, só porque ele era um baita assobiador. O melhor que eu já ouvi.

Então, sei lá, não entendo muito de caras chatos. Talvez você não devesse se sentir com pena de ver uma garota da hora saindo ou casando com um cara chato. Eles não machucam ninguém, a maior parte deles, e talvez eles sejam secretamente todos uns baita assobiadores ou qualquer coisa assim. Quem vai saber? Eu não.”

Enfim, fica aí  toda a empatia que houver: Holden e os assobiadores, eu e meu colega meio porta-de-opala (com todo o respeito: ele desenha e provavelmente assovia bem à beça), nós e todo o resto do mundo. Mas nada de aplausos: as pessoas sempre aplaudem as coisas erradas.

(Foto: Tumblr)

João Vítor Krieger

João Vítor Krieger

Catarinense de sotaque meio vago e de 1992, gosto de cartões-postais, meios termos e de estar sempre com meu ukulele e uma gaita a tiracolo. Uso meu tempo tentando dar bom uso ao meu diploma de bacharel, voluntariando em alguma causa, e escrevendo histórias mais ou menos inventadas a cada duas terças-feiras aqui no Uma Boa Dose. Sonho em viver em um mundo onde as pessoas não achem o alemão um idioma tão feio assim, e onde Assunção esteja sempre a 15 minutos de casa.
João Vítor Krieger

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