Uma boa dose de descompasso

1993. Itabira, interior de Minas Gerais. A música tocava alto pelas manhãs na casa da família Torres, como era de hábito quando Ruth estava em casa. Era Vivaldi, ainda em fita cassete, segunda faixa de “Músicas para Alegrar o Dia”, brinde do jornal de domingo e repertório favorito da menina. Os vizinhos já sabiam de cor e salteado a ordem das músicas e Ruth já sabia também os passos, todos decorados. Queria dançar. Desde os três, quando a mãe levou uma Ruth tímida e manhosa para as primeiras aulas de balé, já sabia. Agora, aos nove, ainda teimava. Queria dançar.

Da janela do oitavo andar, a vista do Corcovado era mais próxima que as reminiscências da infância mineira, já tão distantes, em anos e quilômetros. Ruth se lembrava do dia em que deixou Itabira, aos 16 e a contragosto da família, pra estudar dança no Rio de Janeiro. Ensaiou durante um ano e meio até conseguir um teste para o Municipal. Foi entre os ensaios de grand pliés e pas de bourrées que quebrou – literalmente – a perna, uma semana antes do teste marcado, e não conseguia entender como a mesma expressão poderia, em alguma hipótese, significar “boa sorte”.

Nos meses seguintes, sessões fisioterápicas e consultas anunciaram o inevitável. “Olha, pode voltar, mas não vai ser o mesmo, sinto muito”. Ruth também sentia. Sentia demais, e sentiu tanto que decidiu, diante da impossibilidade de dançar, que queria consertar as pernas e os sonhos quebrados. Aos 18, Ruth sonhou um sonho novo pela primeira vez desde os três anos e foi ser médica, médica ortopedista.

Na faculdade, foram mais seis anos de dedicação, revezando-se fielmente entre os livros, plantões, noites em claro e visitas à casa dos pais. No último ano, foi chamada de emergência pelo professor da liga ortopédica pra acompanhar uma cirurgia de risco. Fratura exposta, muita perda de sangue e a tarefa, disse o professor, exigia a disciplina e a concentração que só quem é ou já foi bailarina pode ter.

Luiz era advogado recém-formado e músico nas horas vagas. Amava a música mais que tudo. “Me vendi ao sistema”, disse à mãe quando ingressou na faculdade de Direito, “mas só pela senhora, tá certo?”. Uma vez vendido, vendeu também o carro, comprou uma moto e, inexperiente, caiu.  Acordou atordoado na cama do hospital e foi lembrado do acidente pela dor latejante pós-cirúrgica. “Já vai passar, acabamos de colocar a medicação no soro”, foram as primeiras palavras que ouviu de Ruth. “Moça bonita, bonita demais par ser médica”, murmurou ainda sob os efeitos da anestesia.

Ruth foi despertada pelo puxão na barra da saia. “Tô pronta, mamãe”. Era Lívia, de maiô e roupão, alertando a mãe que faltavam apenas vinte minutos para começar a aula de natação. A paixão pelo balé não passou pra próxima geração – a pequena Lívia queria mesmo era nadar. Diferente dos colegas de classe, colocar Lívia no banho nunca foi o problema. Difícil era tirar a menina de lá, já que a pequena era, além de encantadora, geniosa.

Anos atrás, quando Ruth finalmente cedeu aos convites determinados de Luiz pra sair, depois de muitas visitas do rapaz ao hospital e tentativas frustradas, não imaginava que Lívia estava por vir. Foram vários encontros até Ruth aceitar o pedido de namoro oficialmente, mas não demorou nada, nadinha, pra Luiz concordar com o pedido de casamento dela. Acostumada com o trabalho duro, Ruth não queria admitir a princípio pra ele ou pra si mesma que já tinha se apaixonado desde o primeiro dia, lá no hospital. Era muito, muito amor. Um amor diferente, intenso e sincero que não havia conhecido até então. Casou-se, engravidou de Lívia que, agora com cinco anos, esperava ansiosamente pelo irmãozinho que ia nascer no final do ano.

Naquela tarde, enquanto observava com olhar e pensamento vagos a vista da janela, Ruth se perguntava se sua vida teria sido a mesma se, naquela fatídica semana, aos 16, não tivesse quebrado a perna. “Não”, pensou em resposta, sem titubear. O ritmo orquestrado da carreira de bailarina não teria permitido tanto. Não teria conhecido Luiz nem a paixão compartilhada que havia entre os dois. Não teria tido a Lívia, nem  o amor mais singelo e puro que se pode ter. Lívia não teria um irmão mais novo a caminho e ela não estaria ali, observando o Corcovado naquela manhã de terça-feira.

A vida tem certo passo descompassado, umas linhas meio tortas, caminhos duvidosos. Mas tem, ao mesmo tempo, um jeito despreocupado e paradoxalmente harmonioso de colocar as notas dentro da melodia, os pingos nos ‘i’s e as coisas no lugar. Ruth não entendia nada da vida e sua lógica, mas respeitava. Aprendeu a dançar no descompasso também e guarda com ela o segredo que, mais tarde, espera compartilhar com os filhos, de que os sonhos que a gente não sonha são, invariavelmente, os mais queridos, surpreendentes e felizes sonhos que se pode ter.

“Vamos logo, mamãe, a tia disse que quem chegar atrasado não entra na piscina!”, insistiu Lívia. Ruth deixou a janela, o Corcovado, Itabira e cirurgias de lado, com um sorriso no rosto. “Só vou se eu ganhar um beijo do peixinho Lívia”, deu a mão à filha e foram caminhando em direção à porta.

Foto: Pinterest

Bruna Estevanin é recém-formada em Jornalismo, não entende nada de medicina (por isso, pede perdão pelos possíveis erros técnicos do texto) e acredita, assim como a Ruth da história, que a vida tem um jeito próprio de colocar a gente exatamente onde deve estar.

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Bruna Estevanin

Bruna é uma jornalista inquieta que adora ouvir histórias e nunca recusa um convite para jogar baralho. Acredita mais em ações que em palavras e as pessoas que enrubescem quando estão envergonhadas são as suas favoritas. Nas horas vagas, ela inventa teorias sobre comportamento humano, rabisca uma ideia e outra e coleciona guardanapos.
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