Reflexões blockbusterianas

“Mamãe” aparece chamando no visor do telefone celular e logo diz: “Filha, tamo chegando!”. A visita foi surpresa, mas, como de costume, junto com ela e meu pai vieram no carro casacos e cobertores extras. “É que aqui é frio, né”, explicou, usando os 19ºC daquela tarde de primavera juizforana pra justificar sua afirmação.

Depois de um almoço agradável, quem decretou a programação da noite foi o meu pai. “Faz tanto tempo que não vou ao cinema… Nunca vi um filme 3D” e escolheu logo o filme com mais ação possível dentre os que estavam em cartaz, “Elysium”. Às 20h10, defasados pela ausência do irmão caçula, lá fomos nós avaliar a estreia do Wagner Moura em Hollywood.

O enredo do filme em si não possui muitas surpresas. Nem o Wagner, sempre ótimo, trouxe muitas novidades. O que achei curioso e me chamou atenção logo após sair do cinema é que, lembrando dos filmes futuristas que tinha assistido nos últimos cinco, sete anos, constatei que a maioria dos filmes futuristas de Hollywood traça um cenário catastrófico pra Terra dentro de alguns anos.

Em “Elysium”, especificamente, o futuro nem é tão distante assim: 2154. O cenário, contudo, mostrava uma terra seca, destruída, miserável, completamente escassa em recursos naturais onde a saída para uma vida melhor é a fuga para um outro planeta ou, nesse caso, uma plataforma virtual construída nos arredores da Terra.

Troca o elenco, troca o enredo, troca a trilha sonora, mas o panorama utilizado para descrever o futuro pelos grandes blockbusters não é nada, nada bom. Sol escaldante, paisagens ora cinza, ora dominadas por dégradé de marrom e uma população devastada vivendo sob a ameaça constante de um final terrível para o planeta, tudo muito distante da visão sessentista do futuro, com robôs domésticos facilitando a vida de famílias felizes, carros voadores e demais evoluções tecnológicas que povoavam o imaginário de quem assistia “Os Jetsons”.

Nossa noite terminou no drive-thru do McDonalds e, diferente do Cheddar McMelt, as reflexões de “Elysium” ainda ficaram entaladas, me inquietando por um bom tempo antes de eu fechar os olhos e dormir. Quando foi que as previsões começaram a ficar tão ruins? Seriam retratos (ou reflexos) diferentes de duas gerações? Não sei. Só sei que deve mesmo ter alguma coisa muito errada com o mundo, mas deve ter algo ainda mais errado com a gente que anda escrevendo um futuro tão pessimista pra humanidade.

Foto: Google Imagens

Bruna Estevanin

Bruna Estevanin

Bruna Estevanin

Bruna é uma jornalista inquieta que adora ouvir histórias e nunca recusa um convite para jogar baralho. Acredita mais em ações que em palavras e as pessoas que enrubescem quando estão envergonhadas são as suas favoritas. Nas horas vagas, ela inventa teorias sobre comportamento humano, rabisca uma ideia e outra e coleciona guardanapos.
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