12 pérolas e achados da famosa capa amarela

Sempre tivemos uma televisão na cozinha de casa e, por alguma razão, esse era um cenário que muito me agravada quando criança. Devia ser 1998 ou 1999 quando isto mais acontecia: meu pai sentava diante dessa televisão e inevitavelmente adormecia, mesmo com o som estrondoso do volume ligado nos níveis mais altos.

Ao invés de despertá-lo, no entanto, eu sentava do seu lado e sorvia o momento. Acho que naquela época não havia nada além de desenhos animados que fosse me interessar em toda a programação disponível, mas o canal em tais circunstâncias era inevitavelmente o Discovery Channel, e eu ficava ali mesmo assim. Não sei por quê.

Mais tarde acabei entendendo que, tal qual minha companhia dormente, me interessava de verdade pelos documentários. Fui perceber, por exemplo, que só um seleto grupo de pessoas também tinha a atenção assim tão atraída magneticamente por chamadinhas que a TV dava para programas de 1h30 sobre o fascinante mundo dos golfinhos. Ou sobre o Amyr Klink, caçadores de furacões e as mais incríveis perseguições policiais dos Estados Unidos, com aquela dublagem debochada por cima de americanos bigodudos e fardados.

Eu comecei rindo da ideia, mas acabei tomando gosto pela coisa a cada ida à cozinha em que encontrava a televisão no canal 27. Era impressionante como tratavam de absolutamente tudo: leões caçando zebras, detalhes da engenharia de megaconstruções, o funcionamento de corações artificiais, relatos de acidentes quase fatais, a vida belicosa das tribos selvagens da Amazônia, e o que mais tarde seria o Morgan Freeman narrando o nascimento do universo.

As curiosidades, apesar de criarem um repertório bom para conversar somente com eventuais afilhados e sobrinhos e não levarem de verdade a lugar nenhum, atiçavam-nos a curiosidade. Sempre que comentávamos entre nós sobre o programa do dia anterior, havíamos de concordar que era mesmo extraordinário (e sem ironia nenhuma) que eles davam uma perspectiva de como o mundo era gigantesco e infinito em suas veredas a serem exploradas. Tínhamos lá horas contadas só em documentários, entre incursões ao mais fundo imo da cabeça das pessoas e seus costumes (ou o que o valha), assim como rumo aos pontos mais inusitados do planeta.

Suficientemente nutridos desse tipo de sede por informação aparentemente inútil, nunca compramos uma National Geographic, aquela revista com a capa amarela nas bordas.

A capa de 1985 com a menina afegã, possivelmente uma das mais famosas de todas — e o primeiro resultado no Google Imagens. (Foto: Tumblr)

E aí, anos depois de ter assistido o último de um desses programas, fui descobrir há alguns dias que há uma página no Tumblr (http://natgeofound.tumblr.com/) só com as melhores fotografias dos caras. E que eles têm feito isso já há 125 anos, criando provavelmente alguns dos exemplos mais dignos de fotojornalismo de que se deve ter notícia. (Falo isso com certo receio; não entendo lhufas de fotografia.)

O ponto aqui, na verdade, é só uma rápida homenagem ao pequeno nerd que me habita (e habita todos nós, provavelmente), com sede de mundo e de coisas que sequer tinham passado pela sua cabeça. Deixando só momentaneamente de lado as terríveis dificuldades alheias e os monumentais prostrações — conflitos, guerras e problemas sociais, da Rússia do Pussy Riot ao Egito do Golpe de Estado em 2013 —, convém sempre voltar a atenção às fotos tão bonitas que ilustram esse outro pólo (quiçá também no Egito e na Rússia, para ficar nos mesmos exemplos) do mesmo mundo.

Escolhi aqui 12 delas, depois de tanto tempo passeando pelas páginas do NatGeo Found. A sensação é quase como a de viajar, mas sem sair do lugar e acompanhado de alguém dormindo diante da televisão da cozinha, em uma quinta-feira qualquer às 23h. Ou quase isso. Mas fica a dica: na ânsia por mais, recomendo fortemente a visita ao tumblr deles!

***

Links originais das imagens:

http://natgeofound.tumblr.com/post/61589774110/umbrellas-and-swimmers-dot-arpoador-beach-in-rio

http://natgeofound.tumblr.com/post/60935923319/giant-dunes-sculpted-by-the-wind-present-a

http://natgeofound.tumblr.com/post/60390782475/an-old-pearl-diver-in-la-paz-mexico-reminisces

http://natgeofound.tumblr.com/post/60070637591/folk-singers-entertain-muslims-during-ramadan-in

http://natgeofound.tumblr.com/post/60781081909/a-land-yacht-pilot-grips-one-wheel-to-steer-and

http://natgeofound.tumblr.com/post/59782856744/to-spread-political-views-soldiers-release

http://natgeofound.tumblr.com/post/59519159805/a-railway-encircles-thirty-five-blocks-of-shops

http://natgeofound.tumblr.com/post/59122263763/vacationers-are-silhouetted-by-a-small-boats-sail

http://natgeofound.tumblr.com/post/59014397416/irish-guards-remain-at-attention-after-one

http://natgeofound.tumblr.com/post/58801615339/view-of-the-interior-of-the-hagia-sophia-in

http://natgeofound.tumblr.com/post/56246191547/a-soviet-soldier-surrounded-by-colleagues

http://natgeofound.tumblr.com/post/55784145145/a-man-shows-off-his-tattoos-in-a-pub-in-boston

João Vítor Krieger

João Vítor Krieger

Catarinense de sotaque meio vago e de 1992, gosto de cartões-postais, meios termos e de estar sempre com meu ukulele e uma gaita a tiracolo. Uso meu tempo tentando dar bom uso ao meu diploma de bacharel, voluntariando em alguma causa, e escrevendo histórias mais ou menos inventadas a cada duas terças-feiras aqui no Uma Boa Dose. Sonho em viver em um mundo onde as pessoas não achem o alemão um idioma tão feio assim, e onde Assunção esteja sempre a 15 minutos de casa.
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