Tikkun Olam

 

por Carla Mereles

 

Tikkun Olam (exp.); em hebraico: “reparar o mundo”(ou “curar o mundo”), que sugere responsabilidade compartilhada da humanidade para curar, reparar e transformar o mundo.

Desde que aprendi a escrever, com apenas cinco anos de idade, retive uma grande paixão pelas palavras. Fascinava-me principalmente o significado destas e como um conjunto delas podia, como num passe de mágica, formar frases, textos e até livros inteiros; era um mundo inteiro a ser descoberto. E então, ao passar por outdoors, placas, avisos e pegar folhetos nas ruas, eu procurava incessantemente por mais palavras, mais significados, mais pequenos pedaços deste mundo que estava a descobrir. Às vezes com o auxílio de um dicionário, às vezes com a ajuda de pessoas, eu buscava definir essas palavras que encontrava, colocando lugar a um gigante glossário na cabeça da pequena menina.

(Primeiro fato: se o poder das palavras já era imenso dentro da minha cabeça enquanto criança, agora as proporções triplicaram.) Dessa forma e de tantas outras, durante a vida, as palavras sempre estiveram comigo. Fosse no ressonante inglês de uma música dos Beatles ou no belo português das músicas de Chico, de Jobim ou de Camelo; fosse na intensa narrativa de Érico Veríssimo ou somente acompanhando os dilemas de Lispector em uma de suas crônicas de jornal, as palavras destas e de tantas outras pessoas continuamente me resgatavam de momentos de dor, de angústia e de tristeza. O que pode parecer minúsculo a alguns, como “apenas uma música” ou “um bom dia no elevador” pode ser capaz de mudar completamente o dia de alguém… Foi graças às palavras escritas ou proferidas por outrém que eu mesma fui capaz de me redefinir, redesenhar e transformar completamente; quantas pessoas já se sentiram assim? Como se encontrassem um novo olhar sobre a vida, uma nova perspectiva, um ângulo diferente? Foi ao pensar nisso, nessas belas consequências da escrita para as pessoas que, pois, passei a dar asas à minha própria imaginação, a juntar as minhas próprias palavras, a formar meus próprios contos e crônicas no fim dos meus cadernos. Assim, fui encontrando um universo, não paralelo, mas bastante distante daquele que eu já conhecia. Agora não lia somente as palavras de outras pessoas: queria escrever as minhas próprias. Do legado de outrém que senti inspiração para tentar criar o meu próprio. E a vida foi cada vez ficando mais bonita…

“A responsabilidade compartilhada da humanidade para curar, reparar e transformar o mundo” poderia, além de ser a palavra que entitula este texto, ser o meu objetivo maior cada vez que escrevo algo. A partir disto, digo que tenho a ambição – talvez até o objetivo – de conseguir atingir, quiçá uma só pessoa, na intensidade em que eu mesma fui atingida pelas palavras de tanta gente. Poderia ser ainda mais feliz por todos os dias que ainda tenho se soubesse que, de alguma forma, algo que escrevi fosse de fato mudar o mundo de uma pessoa para melhor… Poderia fazer isto pelo resto da vida, também, sem sombra de dúvidas. O que escrevo faz parte de mim, e a cada vez que tenho a oportunidade de espalhar estes pequenos pedaços de mim por aí, cresce uma felicidade inabalável no peito. Do mesmo jeito que escrever traz cor a este mundo no qual vivo, ao mundo que enxergo, ao mundo ao qual pertenço, eu gostaria que este gesto pudesse, da mesma forma, fazer isso por alguém. (Não custa sonhar, não é?)

Escrever anything foi a forma que eu encontrei de mudar o meu mundo de alguma forma.. De salvar o meu dia, minha semana ou o meu mês; de eu mesma salvar a minha alma, dia após dia. E talvez tenha sido por isso que comecei a escrever tão cedo na vida: para me salvar, me reencontrar, me refazer. Para, de alguma forma, sentir que estava fazendo algo por mim e também por mais um alguém qualquer; e assim, ao escrever, sinto que pertenço um pouco mais a mim mesma e, ao mesmo tempo, desprendo de mim aquilo que acho que vale a pena dividir. Agora, de quinta a quinta, deixarei pedacinhos de mim por aqui e sinceramente espero que isto seja tão satisfatório a quem ler estes textos quanto será – e já está sendo – para mim. Reparando o meu mundo espero poder curar o de alguém, também; “a cada dia um mundo novo”.

 

Carla Mereles

Morena de cidade alemã, tem na escrita a sua maior liberdade. Além disso, tem inquietação por tudo o que parece fora do lugar – ou num mesmo lugar há muito tempo. Crê na força das palavras, no poder catalisador da música (em especial a quem a faz) e, principalmente, na força sinérgica das pessoas. Gosta de ouvir e contar histórias, sempre que pode está na/pega a/bota o pé na estrada e deseja um dia ter a sabedoria em bem enxergar o mundo.

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