Volátil

Volátil (adj.m e adj.f.): fig. característica do que é volúvel, inconstante; que não é sólido, fixo ou permanente. Incorpóreo ou imaterial.

No dia 17 de julho de 2007, o vôo da TAM que saiu de Porto Alegre com destino a São Paulo – TAM JJ3054 – foi protagonista de uma das maiores tragédias da aviação brasileira. O avião ultrapassou a pista de pouso do aeroporto de Congonhas e atingiu um prédio da própria companhia. Todos os 187 passageiros a bordo do avião, 11 funcionários do prédio da TAM e um motorista de táxi faleceram. Hoje, no lugar onde ocorreu o acidente encontra-se um memorial para as vítimas da tragédia, com uma árvore que “sobreviveu” em meio ao acidente e 199 pontos de luz reluzem no chão.

Na manhã de uma sexta-feira, prestes a pousar no aeroporto de Congonhas, olhava pela janela do avião o movimento de carros na Avenida Washington Luís e pensava no quão intrigante é haver um aeroporto assim, no meio da cidade. Dezenas de aviões decolam e pousam, um atrás do outro em meio aos prédios, ao movimento, à avenida lotada de carros e à agitada atmosfera paulista. E então fiz um breve comentário com o meu pai, que estava sentado ao meu lado, sobre como o pouso nesse aeroporto é sempre bastante agressivo, uma vez que o avião está em alta velocidade e considerando que a pista é relativamente pequena e ao redor dela existem somente prédios, a freada acaba sendo violenta. E ele apontou, então, para um vazio em meio aos edifícios e disse “pois é, tá vendo aquele vão ali? Certo dia essa pista ficou pequena demais e o avião acabou atingindo um prédio que ficava logo ali”. Assustada, só consegui perguntar se houve algum sobrevivente; a resposta foi uma breve negação com a cabeça.

Inevitavelmente fiquei a semana inteira com o acontecimento a rodear meus pensamentos. Pesquisei, li a respeito, procurei explicações e encontrei textos sobre o ocorrido, a razão dos erros, as consequentes fatalidades, por que o avião não parou e mesmo assim não conseguia pensar em outra coisa. Mesmo com todos esses por quês respondidos, tantas e tantas perguntas continuam – e continuarão  – sem resposta alguma. Não há como entender bem uma tragédia dessas em toda a sua imensidão. Uma fatalidade que interrompeu tantas vidas; filhos de alguém, pais, mães, irmãos, esposas, maridos, namorados, namoradas, amigos… Cento e noventa e nove vidas que se foram tão simplesmente, em questão de segundos – e isso não tem explicação.

A realidade nos exemplifica, pois, em acontecimentos como este, o quão volátil é a vida, que uma hora existe e dali a pouco pode não existir mais. Mostra que ninguém é blindado, ninguém tem corpo fechado e ninguém está a salvo de algo assim, tenha a idade que tiver. A vida não é sólida, fixa ou permanente; é inconstante, imaterial, e assim como nos é dada, pode nos ser tirada a qualquer momento. É como dizem: a única certeza da vida é a morte. Por isso digo, com todas as letras, que não temos todo o tempo do mundo, como cantou Renato Russo, e sim temos o tempo suficiente para realizar a nossa missão nesse mundo. O que nós levamos daqui é exatamente tudo o que é volátil – o amor, a felicidade, a harmonia, a plenitude, o aprendizado, o bem de uma vida inteira, dure ela o quanto durar. Portanto, que vivamos nós ao máximo, que façamos o que queremos fazer, que digamos aquilo que muitas vezes fica preso na garganta, que persigamos nossos sonhos, e sejamos as pessoas que queremos ser; que não deixemos para amanhã o que podemos fazer hoje. Que não deixemos de fazer tudo aquilo que temos vontade de fazer por medo, que superemos obstáculos e façamos da vida o nosso maior e mais bonito legado.

E nesta última sexta-feira, fui novamente a São Paulo, pousei no mesmo aeroporto, mas desta vez fui até o memorial. Havia uma espécie de fonte redonda e em volta dela estavam escritos os nomes de todas as vítimas do acidente. Em ordem alfabética, li nome por nome, sem conseguir conter as lágrimas que corriam mais a cada passo que dava. Cada ponto de luz ali no chão é também um ponto de luz no céu, sabe? E parece que somente estando ali que dá-se conta da proporção do ocorrido, ao ver ali estampado o nome de alguém que poderia ser você. E ao enxergar isso de fato, a vida fica menos concreta e, exatamente por isso, mais bonita. Como estava escrito na placa que explicava o por quê existe aquele memorial, “para homenagear aqueles que hoje brilham no céu como estrelas e de lembrar – junto desta árvore sobrevivente – que a Vida é mais importante que tudo.” Não é mesmo?

Carla Mereles

Morena de cidade alemã, tem na escrita a sua maior liberdade. Além disso, tem inquietação por tudo o que parece fora do lugar – ou num mesmo lugar há muito tempo. Crê na força das palavras, no poder catalisador da música (em especial a quem a faz) e, principalmente, na força sinérgica das pessoas. Gosta de ouvir e contar histórias, sempre que pode está na/pega a/bota o pé na estrada e deseja um dia ter a sabedoria em bem enxergar o mundo.

Experimente também

Momentos Diários

Por Uma Boa Dose

– por Celso Alves O cobrador da estação perto de casa é um tiozinho bonachão, gente boa e de riso […]

Brasileirismo

Por Murilo Igarachi

Era minha primeira viagem internacional, ainda no continente americano. Lembro-me que estávamos andando em direção à CN Tower num dia […]

Sem comentários

Degustando...