um ano em 5 minutos: 1 segundo por dia e a grande sacada de Cesar Kuriyama

A manhã é anormal: ao fim de algumas horas diante do computador, sentado na biblioteca perto da sessão de literatura estrangeira — onde dificilmente há mais alguém — e com os olhos cansados pelo brilho infértil da tela de LCD, passa-me diante dos olhos a minha vida em flashes. Não morri; é a fome que antecipa o almoço e o torpor do meu breve ofício até então que confundem minha cabeça.

As cenas da biblioteca, que de fato vejo, se desfazem da lógica temporal de um momento sucedendo o outro. Tenho a sensação de que outra cena, bem longe das prateleiras de livros traduzidos, rapidamente tomará minha próxima visão, como o corte precipitado de câmera de algum filme. E o set da próxima imagem é imprevisível e aleatório: não sei se virá o auê barulhento e pulsante de algum festival Holi, ou se virá mais um dia de rotina e idílio pacato. Espero chuva de granizo, uma festa a céu aberto, um avião partindo, visitas a deficientes visuais, reuniões de comitê local, e um dia de expediente normal, diante de café e planilhas coloridas. Crio expectativas de dar rolê por algum parque distante com um amigo gringo e bissexto, de rir dos trocadilhos de um colega de trabalho, e de reencontrar minha bonita, depois de longa ausência. Na brevidade de segundos que conterão dias inteiros, assisto ansioso pela vida passando, banal de tão rápida.

A compressão de tanto em tão pouco me deixa pasmo — e eu ali, na biblioteca, com cara de nada e meio perdido.

Explico: o hábito de gravar dois segundos por dia todos os dias é algo que realmente altera minha percepção; não perdi o cacoete de viver cada momento como se fosse um fragmento de vídeo esperando ser gravado, editado, datado e colado a outros. E depois de efetivamente editar tudo, recortando e juntando mais algumas centenas de pequenos vídeos (resultado de um ano inteiro de cotidiano), já assisti aos 12 meses passados tantas vezes que quase não consigo mais me lembrar deles sem que seja nesse formato.

Ei-los:

***

A culpa é do Cesar Kuriyama. Minto, a culpa é da Lauren, minha amiga por correspondência do Canadá que me mostrou o vídeo do Cesar Kuriyama pela primeira vez. Bom, repeti essa história talvez umas mil vezes entre agosto de 2012 e agosto de 2013, mas vale a pena fazê-lo de novo. Esse cara, o Cesar, é um peruano radicado nos Estados Unidos — e eu dizendo esse tempo todo que ele era canadense! — que teve uma baita ideia: em seu trigésimo ano de vida, exausto depois de anos como publicitário workaholic em tempo integral, saiu para passar 12 meses sábaticos, por assim dizer. E para que nenhum desse dia passe batido — ‘so I’d never forget a day ever again’, como ele diria —, Mr. Kuriyama decide gravar um segundo qualquer do seu dia todos os dias. Sempre.

Mr. Kuriyama e sua ‘idea worth spreading’. Awesome. (Foto: www.1secondeveryday.com/my-story/)

Essa é a premissa, mas o desenrolar é o que me pegou. “Você sabe quando você tem um dia meio sem graça e não faz nada de interessante?”, diz ele chamando a atenção da plateia do TED Talk para si. “Um dia assim teria passado totalmente despercebido.” É como olhar para algum ’28 de setembro’ qualquer e não conseguir se lembrar de nada marcante.

Por outro lado, quando há a necessidade de registrar o hipotético ’28 de setembro’ (como em seu caso), há também a necessidade de fazer algo interessante. Gravar os dias, portanto, é notá-los e (ter que) fazer deles algo memorável.

Eu lembrava muito disso quando essa mesma ideia ia sendo executada aos poucos também por minhas mãos. Ocasionalmente o dia não pedia mesmo nada de especial; no entanto, o peso da câmera no bolso do casaco era suficiente para lembrar a obrigação de que alguma coisa — qualquer coisa — provavelmente seria digna dos segundos gravados antes que a data virasse no relógio. E aí, quando me dava conta, já estava na rua. Tinha me convencido de sair de casa e ir ver se o acaso me presenteava. Às vezes a busca era em vão; às vezes eu acabava encontrando quinze caras vestidos de Super Mário — e mais um décimo sexto vestido de Princesa Peach — andando em fila indiana e entoando a música tema do videogame por Alexanderplatz, centro de Berlin.

A principal regra é sempre ter uma câmera consigo, daquelas normais que fazem vídeo, no celular ou com uma gravadorazinha, não importa o quê. (Foto: Pinterest)

Mas voltando ao Cesar:

“A ideia do ‘cotidiano de um segundo’/‘um segundo todos os dias’ começou como uma forma divertida para mim de registrar meu ano de folga, mas rapidamente cresceu, tornando-se algo mais importante. Ela permitiu refletir com facilidade sobre minha vida e de rever minhas decisões passadas. Comecei a reavaliar como eu abordava cada dia. Depois de apenas algunas semanas compilando clipes, pude olhar o vídeo e identificar momentos com diversos dias passando sem nada remotamente interessante ou fora da minha rotina típica que fosse acontecer. Foi o que começou a me encorajar a acordar e aproveitar o dia. Decidi continuar a fazer isso pro resto da minha vida.” (http://1secondeveryday.com/my-story/)

Acho que há um padrão aí. Do ‘Projeto Amélie’ aos ‘Pequenos Prazeres da Vida’, se é que há algo que valha a crença nesse vidão de meu deus, deve ser então as coisas belas e pequenas. Não é que sejamos todos personagens coadjuvantes do Fabuloso Destino de alguma Amélie Poulain; mas se não for pelos pequenas vitórias e as derrotas honrosas do cotidiano, — pela poesia do nada e do tudo, permito-me dizer pretensioso — não nos resta mais nada.

Que sirva de inspiração o vídeo do Mr. Kuriyama do cotidiano de um segundo, bem como a minha compilação (com algumas falhas e dias perdidos no calendário) de dois segundos diários: você, ocasional leitor ou leitora, grave seus dias e faça jus aos cliques do relógio que são cada vez mais rarefeitos.

(E se servir de incentivo, há um app pra isso agora também. Ficou mais fácil, e ninguém mais vai ter que penar no Sony Vegas e afins!)

— Make it count 😉

João Vítor Krieger

João Vítor Krieger

Catarinense de sotaque meio vago e de 1992, gosto de cartões-postais, meios termos e de estar sempre com meu ukulele e uma gaita a tiracolo. Uso meu tempo tentando dar bom uso ao meu diploma de bacharel, voluntariando em alguma causa, e escrevendo histórias mais ou menos inventadas a cada duas terças-feiras aqui no Uma Boa Dose. Sonho em viver em um mundo onde as pessoas não achem o alemão um idioma tão feio assim, e onde Assunção esteja sempre a 15 minutos de casa.
João Vítor Krieger

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