Te iubesc

 

 

Zafón escreveu uma vez que poucas coisas marcam tanto um ser humano quanto o primeiro livro que encontra o caminho até seu coração. Li essas palavras em 2007 e, desde então, “A sombra do vento” tem sido meu livro preferido. Alguns anos depois, uma analogia aos lugares que conhecemos se faz igualmente verossímil. Sibiu foi a primeira cidade que me tocou a alma. É, ainda hoje, o meu lugar predileto no mundo inteiro – e essa é a história de como fui parar lá.

 

Em 2011, sem nunca antes ter tirado meus pés de terras brasileiras ou sequer saído mais que duas vezes da região sudeste, arrumei minhas malas pra passar dois meses fazendo trabalho voluntário na região da Transilvânia, na Romênia. Em um breve resumo, o projeto educacional no qual trabalhei era um curso de verão oferecido a estudantes de escolas públicas do país e nós, intercambistas, éramos responsáveis por organizar workshops que ensinavam basicamente todo o tipo de coisa que não se aprende na escola: como gerenciar pessoas, talentos e seu tempo para colocar um sonho em prática, como ter boas ideias e aprender a melhorar elas ainda mais, como trabalhar e, ao mesmo tempo, impactar a sociedade em que você vive positivamente. Lá no projeto, chamávamos isso de “educação de valores” e posso garantir que aprendi tanto quanto cada um dos alunos (que hoje chamo de amigos) para os quais dei aula naquele verão, ou mesmo mais.

 

Durante esse período, era bastante comum que os intercambistas espalhados pelo país se visitassem periodicamente. Apesar das diferenças culturais, todos compartilhávamos um fator em comum: nossas economias parcas eram coincidentemente (e excessivamente) parecidas com a realidade financeira do leste europeu e da Romênia, o que fez de mim e da maioria dos meus colegas internacionais professional hitchhikers. Basicamente escrevíamos o nome da cidade para a qual gostaríamos de ir em uma cartolina e pegávamos carona com algum carro que parecesse minimamente seguro e estivesse indo para a mesma direção.

 

Claro que “minimamente seguro” era apenas uma pequena ilusão que alimentávamos, uma vez que sabemos, por senso comum, que julgar pela aparência raramente dá certo e, claro, meus pais ficaram furiosos quando souberam da nossa decisão. Viajávamos sempre em grupo e, nessas viagens, tive sorte de conhecer pessoas incríveis, de famílias que não falavam nenhuma palavra em inglês e, ainda assim, conseguiam ser absolutamente amáveis e educadas e também pessoas com histórias de vida inacreditáveis. Algumas dessas conversas aconteceram somente através de gestos, desenhos, palavras em romeno soltas ou  verbos mal conjugados. Elas só me fizeram aumentar a crença no poder da comunicação humana e no quanto barreiras linguísticas são facilmente vencidas quanto existe um interesse mútuo de trocar informações.

 

Estávamos eu, Gilberto, Dyvia e Emi em Brasov, visitando alguns intercambistas que moravam na cidade do Drácula. Tínhamos outros três dias livres antes de voltar com as atividades do projeto e decidimos ir para Sibiu, que ficava a uma hora de distância de carro. O ônibus era barato, mas no calor da aventura e diante de tantas experiências positivas, resolvemos arriscar mais caronas. Em Brasov, ficamos hospedados em um dormitório da universidade e uma intercambista que estava vinculada a outro projeto resolveu se juntar a nós e seguir viagem.

 

Na estrada, nosso grupo, agora formado de cinco pessoas, percebeu que precisaria se dividir. Eu, Divya e Emi ficamos em um grupo e Gilberto, o único homem e nosso protetor, com a outra intercambista, para que duas meninas não ficassem sozinhas pegando carona. O primeiro carro parou, um romeno jovem de aproximadamente 30 anos e disse que estava indo para Sibiu. Meu grupo era o primeiro, também pra não deixar meninas sozinhas na estrada. Posso descrever as horas seguintes como a viagem mais estranha da minha vida. O homem declarava frases soltas que, colocadas juntas em um contexto, mesmo sob a luz do sol de meio dia, pareciam fazer parte do script de um filme de terror.

 

“Vocês não deveriam pegar caronas, mocinhas. Existem muitos estupros por aí. Não gosto de romenos. Eles não são confiáveis.”

 

“Mas você é romeno.”

 

“Sim, eu sei.”

 

Algumas horas de silêncio.

 

“É ali que os homens levam as meninas que pedem carona”, apontou o estranho para um hotel abandonado ao longo da estrada.

 

Engoli seco.

 

No meio da viagem, eu estava quase em pânico, principalmente porque minhas amigas não percebiam nenhum comportamento anormal no nosso motorista. “Não confie em estranhos” foi a primeira grande lição da minha infância, seguida de derivados como “não aceite bebida de estranhos”, “não fale com estranhos” e, ironicamente, “não aceite carona de estranhos”. No meio do trajeto, de repente, o homem parou o carro em um vilarejo ermo e disse “Já volto”. Naquele momento, tive certeza que não sairíamos vivas de lá. Tomada pelo medo, já não sabia mais o que era fato, o que era real e o que era fruto de uma imaginação infestada de adrenalina. Alguns minutos depois, ele voltou com algumas frutas e ofereceu pra gente. Não aceitei.

 

Meu desespero aumentou quando o estranho sugeriu desviar do caminho e mostrar uma colina por perto. E, claro, minhas companheiras de viagem aceitaram. Surtei. Usei todos os truques que sabia sobre situações de risco. Liguei para conhecidos, disse que pessoas estavam esperando a gente na cidade de destino em trinta minutos, falei que conhecia várias pessoas, e tentei ao máximo não demonstrar pânico. Em algum momento, a Divya, que estava do meu lado no banco de trás, percebeu que nossa viagem de uma hora já durava quase duas e me ajudou, com indiretas, a colocar o carro na direção novamente.

 

Quando conto essa história é comum associarem a imagem ruim que o motorista me passou a todos os romenos. Por favor, não façam isso. Pessoas estranhas existem em qualquer lugar do mundo e essa foi a única exceção dentro dos dois meses em que estive por lá. Os romenos, tão calorosos, receptivos, batalhadores e orgulhosos da sua nação, foram, na verdade, grande parte do motivo pelo qual me apaixonei por esse país.

 

Quando chegamos em Sibiu, mal pude acreditar. Estávamos vivas e sem nenhum tipo de lesão. Nos despedimos do motorista, agradecemos e meus joelhos bambeavam tanto que ainda hoje não descobri com que forças saí do lugar. Chegamos em uma parte bem moderna da cidade, com prédios altos e construções contemporâneas que em nada se assemelhavam a Romênia que eu conhecia até então. Andamos uns 15 minutos até o dormitório da universidade local onde ficaríamos hospedados para deixar as mochilas e mais 10 para chegar ao centro.

 

O que encontramos, quando chegamos lá, fez meus pés igualmente pararem de andar. O centro histórico da cidade era formado por um grande calçadão e uma praça enorme, com ruas de paralelepípedo antigo que se estendiam até onde os olhos, embasbacados, podiam ver. Os telhados de Sibiu são uma particularidade do local. Diferente dos tradicionais brasileiros, as partes inclinadas das telhas se encontravam na parte da frente das casas, viradas para a rua, e as janelas do sótão, pequeninas, pareciam pequenos olhos adormecidos vigiando a cidade. Andando por lá, cada parede parecia contar uma história, a história dos que viveram ali, das batalhas, das lendas, dos que estiveram só de passagem e me senti , de certa forma, lisonjeada de poder ter a minha pequena aventura do dia incluída também naquelas ruas.

 

Foto: Bruna Estevanin

Foto: Bruna Estevanin

Enquanto passeávamos, nosso coração se encheu de alegria, de vivacidade, de uma paz de espírito como poucas vezes senti na vida. O sentimento foi tão mútuo que resolvemos mudar todo o nosso roteiro e parar nossa viagem por ali mesmo. Ficamos na cidade até nossos dias de férias terminarem, evitando as rotas turísticas, conhecendo moradores e tradições locais, conversando com pedestres e, enquanto caminhávamos, lá do alto, Sibiu nos olhava com seus telhados vigilantes e acolhedores. A lembrança mais viva que tenho da nossa estadia lá, essa que, quando perguntam, é a primeira imagem que vem à cabeça, somos nós quatro (a outra intercambista encontrou com outros amigos e se separou de nós), Emi, Divya, Gilberto e eu, sentados na praça central por volta das 20h30, observando o pôr-do-sol enquanto um menininho e um cachorro se banhavam na fonte pública na nossa frente.

 

De lá pra cá, tive oportunidade de visitar outros países na Europa, sempre em situação econômica parecida, mas dessas outras vezes, preferi pegar caronas de um jeito muito mais seguro, através do CouchSurfing, pelo qual conheci pessoas tão incríveis quanto as que conheci na Romênia e, felizmente, não tenho nenhuma história ruim pra contar.  Durante essas viagens, em diversos momentos, sentia necessidade de me afastar um pouco, de estar sozinha com meus pensamentos, de sentir um pouco cada lugar pra tentar absorver a imensidão que era o mundo e a sorte grande que eu tinha de participar dele.

 

Fico muito feliz de, doze países depois e amigos ao redor do mundo inteiro, carregar sempre comigo o profundo respeito pela cultura alheia e os olhos curiosos, por vezes pueris, ao conhecer uma nova cidade, terra ou pessoa pela primeira vez.

É como se, cada vez que conhecesse um cantinho do mundo, me conhecesse mais e me sentisse mais próxima de mim mesma. Até hoje, poucas sensações se compararam à que vivi em Sibiu. Era felicidade, na sua forma mais pura e simples. Pelos breves três dias em que fiquei por aquelas terras, fui feliz por nada e, por isso, encorajo muito a conhecerem esse encantador pais que é a Romênia e, em especial, essa cidade que até ganhou de mim um neologismo romeno: Te Sibiubesc*.

 

*Te iubesc signifca “Eu te amo”, em romeno

Bruna Estevanin

Bruna Estevanin

Bruna é uma jornalista inquieta que adora ouvir histórias e nunca recusa um convite para jogar baralho. Acredita mais em ações que em palavras e as pessoas que enrubescem quando estão envergonhadas são as suas favoritas. Nas horas vagas, ela inventa teorias sobre comportamento humano, rabisca uma ideia e outra e coleciona guardanapos.
Bruna Estevanin

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  • Natália Corrêa 03/11/2013   Reply →

    Seus textos me deixam sentir um pouco do que você sentiu. E que delícia que é isto.

  • Ester Recla 11/07/2014   Reply →

    Olaaa.. você pode dizer o nome desse projeto?

  • Salvador Neto 17/07/2014   Reply →

    Texto sensacional! Seu blog apareceu na timeline do meu feed de notícias do Facebook, comecei a ler e simplesmente fiquei encantado com seus textos, principalmente com esse já que também nutro uma grande paixão pelos países do Leste Europeu (história, cultura, pessoas etc). Escrita suave, harmoniosa, leve e capaz de transferir o leitor para uma atmosfera muito boa, ou seja, uma imersão completa na história relatada. Me senti na Romênia vendo aquele pôr-do-sol. Parabéns! Vou virar leitor de todo post agora 😉

Degustando...