Parabéns, você merece!

 

 

Tenho 1,316 amigos no Facebook. Esse número grande não retrata minha vida social cotidiana, certamente. Ele é composto por amigos de infância, amigos de escola, de faculdade, de vida, amigos de amigos, parentes, co-workers, pessoas que conheci durante os meus intercâmbios e alguns indianos que me adicionaram de tabela durante meu tempo na AIESEC pra me oferecer uma vaga de trabalho por lá. Fato é que 70% desses 1,316 são pessoas com as quais possuo pouco ou quase nenhum contato atualmente. Mantenho dessa forma por fadiga de fazer uma “limpa” no Facebook e porque, apesar da falta de contato diário, são pessoas que conheci em algum ponto da minha vida e que, além de me lembrarem de momentos específicos, são parte do meu networking pessoal e profissional.

Com tantas conexões, é raro um dia sem aniversariante. Diariamente pipocam na minha timeline e nas atualizações recados de amigos desejando parabéns para seus respectivos amigos com as mais variadas mensagens e, entre elas, uma bastante popular e recorrente que, honestamente, nunca entendi o significado. “Parabéns, Joana, muitas felicidades! Você merece!” ou “João, você é muito querido, tudo de bom, você merece!”. “Você merece!”. Ta aí uma frase estranha.

Pode parecer uma expressão simples mas, ao escrever isso para alguém, é como se você estivesse selecionando apenas algumas pessoas – as que merecem – para ser feliz, ter tudo de bom, ser iluminada por Deus e todos os santos, ter saúde, amor dinheiro, sorte e todo o enredo de aniversário. O “parabéns, você merece!” merece (aí sim) um momento para reflexão. Merece por quê? O que faz uma pessoa ser merecedora de muitos anos de vida? Quais critérios são utilizados para tomar essa decisão? Por que só umas merecem e outras não?

O verbo “merece” implica uma meritocracia que quase nunca é respeitada pela vida, apesar de plenamente garantida pela constituição vigente no formato de direitos básicos de qualquer cidadão. Isso torna a expressão, além de excludente, um pleonasmo. Merecer não é uma cota, é um direito.

Não me entendam mal, minha implicância é restrita à essa expressão. Também tenho amigos muito especiais, pessoas de bom coração, dedicadas, inteligentes, cheias de vida e de valores pessoais brilhantes. Desejo muitas, muitas felicidades pra elas – não é difícil querer bem alguém tão querido assim. Mas acredito que, não só elas, mas todos os os 1,316 dos meus amigos do Facebook, incluindo amigos, parentes, co-workers e mesmo os indianos que não conheço tem direito ao mesmo pacote “tudo de bom, felicidades, saúde e amor”, na mesma exata quantia que todos os outros queridos que conheço. Afinal, eles merecem.

Bruna Estevanin

Bruna Estevanin

Bruna é uma jornalista inquieta que adora ouvir histórias e nunca recusa um convite para jogar baralho. Acredita mais em ações que em palavras e as pessoas que enrubescem quando estão envergonhadas são as suas favoritas. Nas horas vagas, ela inventa teorias sobre comportamento humano, rabisca uma ideia e outra e coleciona guardanapos.
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