Zadie Smith: 10 dicas de ouro da escritora inglesa e o valor intrínseco do barulho na internet

O mar de ruído da internet é um câncer. Qualquer blog que tenha que recorrer a listas e títulos obviamente chamativos ilustra que, entre o infinito de informações aparentemente inúteis, poucas coisas intrinsecamente interessante na primeira olhada. Digno da sua atenção, leitor, são ‘os 40 mapas que mudarão sua visão de mundo’, ‘13 inventores que você nunca ouviu falar (e as coisas que eles criaram e você usa)’, ’90 pequenos prazeres da vida’ e assim por diante.

Mas não culpo ninguém, na verdade. Ler é algo cansativo, e os feeds de notícia só nos servem na medida em que comprimem a vida narrada em um par de tweets. Mentes ausentes, smartphones carregados e os dedões inquietos deslizando a tela de foto em foto: difícil mesmo é encontrar algo realmente precioso entre todo o conteúdo produzido em sites que vivem de conteúdo original.

Há, no entanto, uma exceção digna de sua atenção, leitor hipotético. O site americano “brainpickings.org”, que traz resumos e excelentes artigos breves sobre bons livros — mais de um por dia, inclusive — tem verdadeiras ‘food for thought’, isto é, textos que valham a atenção e a leitura por um cérebro saciado depois dos 5 minutos gastos em cada artigo.

Contar histórias é carvar nossas iniciais no cimento fresco desse momento”, como diria Phil Kaye, poeta americano. Contar histórias, portanto, é perpetuar nossa existência através da palavra escrita. Na posição de aspirante a futuro escritor diletante, então, meus favoritos do brain pickings definitivamente são as coletâneas de conselhos — regras, compêndios, insights e pointers, sugestões etc. — dados por nomes famosos da literatura americana e inglesa, a exemplo do Fitzgerald e do Hemingway, ou do Bukowski, Lovecraft e Stephen King.

Escolhi para este post as 10 regras de romancista britânica Zadie Smith, de quem nunca li nada, mas que sugere a ponta do iceberg dessa sensacional e inspiradora fonte de referências que são os escritores consagrados. Ou como diria a chamadinha desse artigo em questão, sobre escrever: “renda-se à tristeza vitalícia que vem da constante insatisfação”.

No verão de 2010, inspirada pelo artigo ‘10 rules of writing’ publicado no The New York Times no começo dos anos 2000, o jornal “The Guardian” entrou em contato com alguns dos autores mais celebrados de hoje e pediu a eles que revelassem suas regras pessoais para escrever. Eis, então, a lista de Zadie Smith — um belo equilíbrio do que é prático, filosófico e poético:

Foto: Wikipedia

1. Enquanto ainda for uma criança, leia muitos livros. Passe mais tempo o fazendo do que qualquer outra coisa.

2. Quando adulto, tente ler seu próprio trabalho escrito como leria um estranho, ou melhor ainda, como leria um inimigo.

3. Não romantize sua ‘vocação’. Você pode conseguir escrever boas frases ou não. Não há um ‘estilo de vida de escritor’. Tudo o que importa é aquilo que você for deixar registrado no papel.

4. Evite suas fraquezas, mas o faça repetindo para si mesmo que as coisas que você não pode fazer não valem a pena fazer. Não mascare a dúvida que tem consigo mmesmo com menosprezo.

5. Deixe um espaço de tempo decente entre o processo de escrever algo e editá-lo.

6. Evite panelinhas, grupos exclusives e turminhas fechadas. A presença de uma multidaão não tornará a escrita em algo melhor do que realmente é.

7. Use um computador desconectado da internet.

8. Proteja o tempo e o espaço em que você escreve. Mantenha todos longe de lá, mesmo as pessoas mais importantes para você.

9. Não confunda menções honrosas com conquistas.

10. Conte a verdade através de qualquer coisa que for conveniente e estiver à mão — mas a conte. Tell the truth through whichever veil comes to hand — but tell it. Renda-se à tristeza vitalícia que vem da constante insatisfação ao se deparar com o trabalho pronto.

É uma baita contribuição ao resto da sabedoria já exposta pelo site quanto à escrita, incluindo a lista de 8 regras para uma boa história de Kurt Vonnegut; as 10 dicas sem bobagem de David Ogilvy, os 11 mandamentos de Henry Miller, as 30 crenças e técnicas de Jack Kerouac, e os 6 indicadores de John Steinbeck.

Sugiro francamente explorar os links; suas histórias esperando para serem contadas querem apenas o primeiro impulso. Nossa cabeça é um infinito conta-gotas de histórias que morrerão conosco: enquanto nos entretemos até a morte, acumula-se o número de paginas que você poderia estar escrevendo, e eu, lendo. Devíamos estar escrevendo, como quem constrói monumentais obras rimadas para contemplar quando nossa autoestima estiver baixa, e devíamos estar aprendendo latim — ah, a vida é tão sem propósito quando gastamos fios de cabelo pensando na morte. Vamos lá, é hora de tirar mais fotos para entreter nossos netos entediados: quem sabe um dia eles se deparem com álbuns de fotos perdidos em um álbum no canto da casa.

João Vítor Krieger

João Vítor Krieger

Catarinense de sotaque meio vago e de 1992, gosto de cartões-postais, meios termos e de estar sempre com meu ukulele e uma gaita a tiracolo. Uso meu tempo tentando dar bom uso ao meu diploma de bacharel, voluntariando em alguma causa, e escrevendo histórias mais ou menos inventadas a cada duas terças-feiras aqui no Uma Boa Dose. Sonho em viver em um mundo onde as pessoas não achem o alemão um idioma tão feio assim, e onde Assunção esteja sempre a 15 minutos de casa.
João Vítor Krieger

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