Imagem: Google Imagens

Devaneios sobre e antes do amanhecer

Um sábado a noite qualquer na casa dos meus pais procurando um filme para me distrair do tédio. Foi essa combinação de fatores que me levou, zapeando entre um link e outro, a rever “Antes do amanhecer”. Já eram quase quatro da manhã e o título, que não poderia ser mais oportuno, foi mais que convidativo.

Lembro de, em alguma tarde de Telecine Pipoca, ter visto o filme.  Sempre confundia com outros romances da época, como “Sob o Sol da Toscana”, provavelmente pelo fato de terem fenômenos solares no título, envolverem regiões, viagens, e “Cidade dos Anjos”, sem nenhuma razão aparente para ser confundido com  o filme do Linklater.

Netflix a postos, vi o filme emocionada do início ao fim e, ao terminar, fiquei me perguntando o que teria levado esse filme a passar despercebido durante tanto tempo. Talvez o momento não tivesse sido propicio. Provavelmente o assisti no começo da adolescência e falta de experiência dos 13 anos da tenha transformado a noite inesperada em Viena em flashes de cenas VHS e som stereo sem importância alguma. Mas topar com ele, por acaso, nessa época da vida, foi tão acaso quanto o encontro de Jesse e Celine. Foi destino.

“Antes do amanhecer” é um filme único, perspicaz e atemporal. Tão atemporal que me levou a escrever uma crítica absolutamente leiga de um filme lançado em 1995. O filme é todo construído como se fosse uma continuação daquela pequena conversa dentro do trem que os dois tem no começo. Quem já andou de trem – mas só trem, porque ônibus não tem o mesmo efeito – vai entender quando eu falar que, alguns pensamentos que só aparecem à transparência daquele vidro. No trem, o pensamento corra junto com os trilhos. Rápido, por vezes vagos, turvos, intensos. Ou mesmo o nosso reflexo fraco na janela, sempre alterando a imagem de fundo, ajude os devaneios, os saltos ilógicos do nosso raciocínio, as memórias perdidas, as projeções do que poderia ter sido e ainda será.

As conversas, os diálogos, as risadas entre os dois personagens pareciam ter sido retiradas de um monólogo interno dentro das minhas viagens de trem pela Europa. Eu sentava, pensava sozinha na vida, nas relações humanas, no amor, no preço do café que havia comprado, no que ia jantar no dia seguinte, na efemeridade da vida e do dinheiro que estava na minha conta, nas cores, na história, em ligar pra minha mãe quando eu chegasse ao meu destino, pensava no acaso, em Deus, tudo isso em um incrível, ininterrupto e infindável monólogo sem respostas que poderiam durar horas ou minutos.

No filme, as reflexões do diálogo inteligente entre um americano e uma francesa, foram postas, escritas e interpretadas de um jeito tão pungente, puro, honesto, que parecia justamente o nosso pensamento monólogo vagando sozinho pelo vidro e pelos trilhos de um trem. É como se, ao terem sentado no vagão no começo da viagem, automaticamente tivessem sido afetados pelo efeito “train-trip mood” e assim permanecido até os créditos finais.

Muito mais que os outros filmes da sequência (que acabei vendo na mesma noite e indo dormir por volta das 10 da manhã do dia seguinte), essa é uma história sobre liberdade: ao assistir, lembramos, instantaneamente, da vivacidade do coração e do espírito humanos. Carregamos dentro de nós tanto amor, carinho em potenciais para futuras aventuras, deixamos passar tantos momentos oportunos e acabamos sucumbindo à mesmice.

“Antes do amanhecer” é, acima de tudo, uma história completamente possível e, por isso, não pude deixar de considerar e me perguntar quantos momentos como aquele eu tive durante a minha viagem. Quantos possíveis Jesse passaram pela minha vida despercebidos nesses seis meses de Europa, que não aconteceram pelo simples receio de sair do vagão e quantos Jesse eu cheguei a conhecer.

Quer sair da rotina? Tira um tempo amanhã pra (re)ver esse filme. Você vai querer viver, vai ansiar pela próxima viagem, pela próxima parada, vai querer sair do roteiro e encontrar, randomicamente, a aventura seguinte, e vai ter certeza de que  a vida e o amor estão sempre à espreita, esperando alguém perguntar qual o livro que você está to lendo e te convidar pra descer do trem. Acho que tenho um novo filme preferido.

Bruna Estevanin

Bruna Estevanin

Bruna é uma jornalista inquieta que adora ouvir histórias e nunca recusa um convite para jogar baralho. Acredita mais em ações que em palavras e as pessoas que enrubescem quando estão envergonhadas são as suas favoritas. Nas horas vagas, ela inventa teorias sobre comportamento humano, rabisca uma ideia e outra e coleciona guardanapos.
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Sem comentários

  • Ednilson 14/06/2015   Reply →

    Uma obra prima para ser vista e revista sempre, “Antes do Amanhecer” é daqueles filmes impossíveis de ser esquecidos e capaz de fazer a gente parar para pensar na vida…

Degustando...