Buenos Aires e 2014 em uma palavra de um Norueguês

Enquanto corríamos um lado para o outro, abotoando nossas roupas brancas com pressa e discutindo se conseguiríamos pegar um táxi ou se chegaríamos atrasados na festa de ano novo, a senhorinha argentina na janela exatamente diante da nossa regava calmamente os vasos de flores campestres à janela. Era fim de tarde do último dia do ano, e o apartamento no prédio de tijolinhos à vista em que se instalava aquela visão estava alheio ao nosso calendário moribundo. Se estávamos diante da virada do ano ou de mais outro dia, tanto fazia para ela e para seu regador azul.

Já no caminho para o outro lado da cidade, as largas e movimentadas avenidas metropolitanas têm algo de arterial no movimento dos carros tão apressados quanto nós. Avançar semáforos, portanto, é como sentir o fluxo das sístoles desse grande coração invisível que bombeia o tráfego urbano sob o sol teimoso de 36 graus. Ao mesmo tempo, o panorama povoado por arranha-céus intercala-se com a memória de paisagens de outrora, e desejo manter-me eternamente em movimento. Não obstante, entramos enfim na rua certa, e o táxi para.

Suerte!”, despede-se de nós o taxista portenho depois de contar os pesos rasgados.

Uma vez em nosso destino, somos então acompanhados por um sujeito com cara de tango, que nos leva ao bar. Por ser o último dia do ano, ao entrar na festinha, o tempo passa a ser marcado com copos de bebida com gosto de Réveillon e cor alaranjada.

E aí, enquanto vou sorvendo como alternativa um Fernet com coca-cola, vejo dançar um casal com indefectível feição castelhana, ornados por covinha no queixo de um lado e pinta gravitando o lábio vermelho de batom de outro. O terno do homem é de corte (talvez propositalmente) antiquado, mas isso faz com que suas calças largas farfalhem entre os passos rápidos.

A agilidade do par deixa a plateia de estrangeiros absorta na coreografia, imaginando se a vida não estaria bem resumida ali mesmo na dualidade dos dançarinos, que competem entre si e concomitantemente se complementam. (E é de se perguntar onde começa a dança e onde começa o dançarino, da mesma forma como talvez não seja necessariamente compatível viver a vida e, ao mesmo tempo, compreendê-la.)

Mas isso é coisa da minha cabeça, porque a conversa da rodada é amena. Bem amena, por sinal. Há um sujeito norueguês conosco, e ele vem me perguntar se eu gosto de futebol. “Sabia que o Brasil nunca ganhou da Noruega em partidas de futebol?, ele me indaga. Temos também um peruano na roda, porque estamos em um lugar cheio de turistas e gringos, mas o escandinavo está esperando minha reação. Ele continua em seu inglês cheio de orgulho: “Em amistosos e copas, até hoje foram dois empates e duas vitórias nossas, e nenhuma do Brasil”.

Não sei bem como responder, até porque futebol nunca foi minha praia. Mas o peruano está empolgado com a conversa, prevendo o que vem de reação. Finalmente pergunto rindo quantas copas do mundo a Noruega tinha ganhado, afinal de contas.  “Quantas?”, balbucia o norueguês, e começamos todos a rir, até que ele só olha pra mim e me direciona gargalhando um sonoro “asshole!”.

Diria que são raros os dias em que sou chamado de asshole por um norueguês, e à essa altura já ultrapassamos a meia-noite e adentramos o ano novo. Se estiver certa aquela hipótese de que o ano seguirá a tendência das primeiras ações do primeiro dia de janeiro, então os próximos doze meses serão bem inusitados. Suerte!

João Vítor Krieger

João Vítor Krieger

Catarinense de sotaque meio vago e de 1992, gosto de cartões-postais, meios termos e de estar sempre com meu ukulele e uma gaita a tiracolo. Uso meu tempo tentando dar bom uso ao meu diploma de bacharel, voluntariando em alguma causa, e escrevendo histórias mais ou menos inventadas a cada duas terças-feiras aqui no Uma Boa Dose. Sonho em viver em um mundo onde as pessoas não achem o alemão um idioma tão feio assim, e onde Assunção esteja sempre a 15 minutos de casa.
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