Geborgenheit

Geborgenheit (s.); em alemão: sensação de segurança e bem-estar como se nada pudesse prejudicá-lo; sentimento geralmente ligado a um determinado lugar ou pessoa.

Debaixo dos telhados, sob o céu que caía sobre as cabeças daqueles tomando seus rumos pelas ruas da cidade – meu guarda-chuva vermelho estava aberto. O rumo que tomaria aquela tarde de chuva era uma incógnita. (De novo: o dia estava muito bonito.) Era um daqueles dias em que não se para de pensar – a cabeça parece ferver ideias, possibilidades e indecisões. Um turbilhão de perguntas, sobre o que esperar do futuro, o que esperar de si, o que faz querer ficar no lugar que se chama de lar e o que faz querer ir embora sem data para voltar. Enquanto se está dentro do seu quarto, a vida está passando do outro lado da sua porta… Sabe? Volúvel e devagar, ela passa, minuto a minuto mais perto do depois. O presente está acontecendo, com todas as suas cores, seus ares, perfumes, formas e jeitos; o tempo está passando. E assim que se tenta responder tantos pontos de interrogação, a inquietude e a ansiedade vão se alastrando por todo o nosso ser.. E esse bicho de sete cabeças que se tenta desvendar tem um nome: futuro.

Desde que me lembro por gente, desde bem pequena, as pessoas vinham perguntar “o que eu iria querer ser quando crescesse”; os anos passaram, eu já estava maior e essa mesma perguntava ainda ressoava como uma assombração nos ouvidos. Por um tempo eu não soube bem o que responder… Já quis ser jornalista, juíza, médica, chef, veterinária, fotógrafa, produtora, mochileira, astronauta, pilota de avião; em uma realidade sem limites, vista pelos olhos de uma criança, as possibilidades também não os tem. À medida que vamos adentrando a realidade do mundo que cresce junto conosco, este mesmo mundo acaba por ficar menos mágico e, então, nos convencemos que devemos colocar os pés no chão, que isto é o mais sensato a fazer, e por vezes esquecemos que as possibilidades continuam não tendo limites. Uma vez que somos nós os responsáveis por traçar a linha do possível e do impossível, quem dita a linha do nosso horizonte é a nossa própria vontade. Ainda podemos fazer exatamente aquilo que sempre sonhamos em fazer, ou aquela outra coisa que deu vontade de fazer no meio do caminho ou aquilo que se descobriu há pouco tempo. Carlos Ruiz Zafón escreveu que “se fôssemos capazes de ver a realidade do mundo e nós mesmos, sem rodeios, por um só dia, do amanhecer ao entardecer, daríamos cabo a rabo da própria vida ou perderíamos a razão”, tratemos de experimentar a tentativa, a incerteza e nos aventurar mundo afora, então. (Não, parece tão fácil fazer como é falar, não é?)

Estava lendo uma matéria de uma revista que falava que parte da “depressão” que assola os jovens no século XXI é a vastidão de opções desses, o oceano de possibilidades com que esses se deparam diversas vezes durante o seu dia e durante toda a vida. O medo de falhar, de fracassar e de errar é um dos motivos pelos quais os jovens se sentem cada vez mais infelizes. Enquanto os nossos pais, os jovens dos anos 60 e 70, lutavam para conseguirem alcançar quiçá UMA singela oportunidade, o mal do século na esfera jovial de seus sucessores – nós – é o excesso delas, algo bastante irônico, não?. E nessa vastidão de possibilidades em que nos encontramos, há vários rumos possíveis que poderiam se transformar numa bela escolha de vida – mas e se essa escolha não for a certa? Aí que se encontra o medo – medo de falhar, de errar, de não fazer a escolha que outros esperavam que você fizesse, e é exatamente nesse medo de errar que está o maior erro de todos: achar que errar é, de alguma forma, um pecado capital. Errar é humano, já diz o ditado popular. Nesse caso não há erro, há somente uma escolha a tomar. Na busca por independência, por liberdade e por realização pessoal se encontra, inevitavelmente, barreiras, dificuldades e dilemas pelo caminho, seja ele qual for, e isto não significa que se escolheu o caminho errado, só quer dizer que se está vivendo. Nós esbarramos em tantos obstáculos durante a vida, e na busca pelo fortalecimento e concretização da pessoa que se é, nada mais normal que encontrarmos alguns também. Para aprender como levar a vida da melhor maneira possível é preciso colocar a cara pra bater, ir atrás daquilo que se quer com toda a vontade do mundo, e se houver medo, tudo bem, desde que ele não nos impeça de concretizar aquilos que desejamos alcançar. Afinal, o fardo do arrependimento é muito maior do que o do erro: não fazer é inúmeras vezes pior do que fazer. Portanto, use your head alongside your heart.

Tão jovens como somos para escolher um rumo para a nossa vida, temos que procurar em algum lugar dos nossos seres a maturidade, bagagem ou conhecimento para pensar, fazer ou agir com a maior coerência possível, mas mantendo em mente que ninguém nesse mundo beira a perfeição e estamos sujeitos a tropeços enquanto procuramos caminhar com as nossas próprias pernas. Este é um momento em que ainda estamos nos procurando, nos descobrindo e tentando encontrar razão nisto tudo que nos cerca; a vida, o trabalho, o estudo, a felicidade, a realização, o amor, a amizade, a família… Neste momento, sabemos muito menos do que gostaríamos de saber, conhecemos muito menos do que gostaríamos de conhecer, mas pensamos muito mais do que jamais imaginei que fosse possível se pensar, queremos alcançar nossos objetivos com uma sede insana a qual nunca pensei que fosse sentir e sonhamos tão alto quanto nos permitimos sonhar. E eventualmente ao nos depararmos com o erro, só resta tentar consertá-lo, amenizá-lo ou deixá-lo menos pior, levantar a cabeça para continuar caminhando, certos de que ainda voltaremos a nos deparar com impasses que farão com que cometamos outro erro, e assim o ciclo recomeçará.

Enquanto se está dentro do seu quarto, a vida passa do outro lado da sua porta… Sabe? Volúvel, suave e devagar, mas passa, minuto a minuto mais perto do depois. O presente está acontecendo, com todas as suas cores, seus ares, perfumes,  formas e jeitos; o tempo está passando. Os relógios continuarão rodando, a vida continuará passando e só cabe a mim – a você, a nós, a eles – querer colocar a cabeça pra fora da janela e começar a vivê-la. Quando a gente se dá conta disso, a gente sai e vai viver. E vive sem se segurar, sem se reter, sem medo, porque ninguém mais vai viver a sua vida por você. Só sei que perceber isso faz surgir uma baita felicidade dentro da gente, a qual eu não sei dar nome. Depois disso, a gente vive com uma boa dose de bom-humor, os monólogos passam a ser cada vez mais longos, as conversas com os amigos mais sinceras, as fotos têm mais cor, as simplicidades da vida têm mais valor, os poucos e bons se passa a contar em uma mão, as relações tornam-se cada vez mais verdadeiras, os sorrisos cada vez mais longos e frequentes, e a voz ao referir-se aos outros, cada vez mais doce. E, assim, encontro-me refeita, com uma paz sentada no peito a qual eu sequer sabia que existia. O que paira – agora – na cabeça é esse tudo-ou-nada no qual eu – você, nós, eles -, hora ou outra, tenho que enfrentar. E não poderia estar mais pronta.

Como um glossário ambulante, ontem eu perambulei pelas ruas, já depois da oito mas com o céu ainda claro e com o vento vindo do mar acariciando o rosto, e tentei dar nome àquilo que não tem. Aquilo que só é. Aquilo que se é. Aquilo que faz ser de nós, pessoas melhores – mais bonitas, mais gentis, mais tranquilas, mais plenas. Ao enxergar a implicidade, transcendência e subjetividade disso, uma geborgenheit explícita nasceu em mim.

(lembrança antiga: https://www.youtube.com/watch?v=-zm6i-C0p1Y – live this life to the fullest!)

 

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Carla Mereles

Morena de cidade alemã, tem na escrita a sua maior liberdade. Além disso, tem inquietação por tudo o que parece fora do lugar – ou num mesmo lugar há muito tempo. Crê na força das palavras, no poder catalisador da música (em especial a quem a faz) e, principalmente, na força sinérgica das pessoas. Gosta de ouvir e contar histórias, sempre que pode está na/pega a/bota o pé na estrada e deseja um dia ter a sabedoria em bem enxergar o mundo.

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