O campeonato mundial de seres humanos

Naquilo que o locutor do meu talk show de rádio favorito outro dia chamou de ‘o campeonato mundial de seres humanos’, eu e mais uns tantos ouvintes ganhamos uma cômica definição para a vida em termos gerais. Não tenho nem ideia de qual assunto que estavam debatendo no programa, mas o comentarista foi feliz no seu palavreado e me marcou na lembrança.

Fazia já algum tempo que tinha ouvido essa edição do programa, e foi bem do nada que me voltou na cabeça a sacada. Foi mês passado, na verdade: estávamos em uma daquelas vans de transporte barato e íamos sacolejando abaixo a Serra da Cantareira, indo a São Paulo de Mairiporã (talvez fosse Atibaia ou Terra Preta, não sei bem).

Às 19h e pouco, quando a visão do poente alaranjado no meio de dezembro descortinava a linha do horizonte paulistano, enfim nos surgiu provavelmente a noção mais clara do quão grande é de fato a maior cidade do Brasil.

São Paulo, da Serra da Cantareira. (Foto: www.saopaulo.sp.gov.br)

“Tu te sentes um merdinha”, disse bem alto um colega meu, sentado na fileira ao lado, fitando o fim do horizonte na janela.

“É”, retruquei sem empolgação,  vidrado no panorama hiperbólico da metrópole.

Assim mesmo, sem eufemismos e introspectivos, começávamos esse início de viagem de volta a Santa Catarina. Por certo ele quis dizer que fazíamos jus a nossa origem provinciana, mas talvez ele se referisse ao número aburdo de prédios, à paisagem urbana infindável, aos fartos viadutos e seus habitantes irascíveis, à falta de amor do ésse-pê de nossos vívidos estereótipos com quem não sabíamos nos relacionar. Ou talvez nossa diminuta cidade natal fosse pouca coisa comparada mesmo a algum dos bairros sozinho. Quem sabe ainda ele quisesse mesmo dizer tudo isso junto, ou nenhuma delas e estou falando bobagem.

Em todo caso, essa repetida primeira impressão da capital que já havíamos visitado antes permanecia. Se é que havia algum campeonato, como dizia o locutor da rádio, ele ficava evidente quando passávamos nas curvas da estrada pela serra entre as favelas e comunidades do panorama oferecido pela rodovia. Sim, seria idiota dizer agora que só então passamos a reconhecer suas existências, ou que o Weltschmerz de cada um de nós nasceu precisamente lá, mas de um jeito ou de outro estávamos lá inquietos por contemplar o número anormal de casinhas irregulares pelos morros.

“Olha lá onde mora o cara”, dizia esse mesmo colega que viera narrando o caminho. Ele apontava para uma entrada na rodovia que terminava num aglomerado de  mais casinhas no meio do nada. Debatíamos como ele chegava a qualquer lugar, meio sem conseguir pensar em modos rápidos ou convenientes de fazê-lo. Alguém na van finalmente nos deu atenção:

Mano”, pontuou nosso recente amigo de São Paulo, começando uma de suas histórias e ilustrando o raciocínio do momento. Seu sotaque sozinho já nos entretinha com muito gosto. “Mano, cês não têm nem ideia”, Ele explicava que chegou um dia de uma conferência às 5h30 da manhã ou alguma coisa assim, “e o metrô tava lotado, como se fosse às seis da tarde. Cê pensa que esse pessoal aí deve ter acordado às 4h para chegar no trampo às 7h”.

O cenário se estendeu ainda dessa forma por mais uma hora, mas começamos a nos distrair uma vez que a serra foi vencida. Deixamos por um momento de lado as inadiáveis e terríveis dificuldades alheias.

***

Estamos agora em alguma marginal, e tangenciamos uma parte do caminho que dias antes nos levara a um centro de convenções. Lá, munidos de bloquinho de anotação e crachá, vimos o debate incessante acerca de nossos futuros profissionais e cronometramos  nossas conclusões acerca das aptidões dos conjecturais CEOs do amanhã. As discussões e workshops giravam em torno do mundo do amanhã e seus fantásticos profissionais. “Você faz o que ama, jovem?” parece ser uma pergunta inerente a nossa geração, ao final não sabíamos direito o que amávamos, embora estivéssemos empolgados com algum futuro promissor que viria a tempo.

Os smartphones replicaram mundo afora imagens em primeira mão dos palestrantes, e, finda a agenda do evento, trocamos de roupa e fomos à festa — não há mesmo tempo a perder — porque também se faz necessário comemorar. Penso que esse seria um bom ensaio para que acabemos nos tornando yuppies atenuados.

Sessão de gestão de tempo com o Coelho Branco, e o workshop ‘carreira vs. vida pessoal’ com o Chapeleiro Maluco.

Na festa, o centro de convenções enseja conversas entre nós de alma meio provinciana. O pensamento da rodada era que dois grupos de pessoas  habitaram o fundo de nossas retinas cansadas durante a breve trip pela capital paulista e seus arredores: aqueles do cenário na Serra, e os workaholics bem sucedidos do futuro. A divisão era meio cruel, alguém comentou.

E o assunto reverberava: uma outra colega surgiu entre nós, contando que se assustara com quanta gente vira morando na rua, e que depois ficou ainda mais pasma com a indiferença do taxista que trouxera ela do Terminal Rodoviário do Tietê. “Ele disse meio ranzina que era assim mesmo, e deu”. Ela tomou mais um gole de bebida do copo fosforescente.

Isso tudo ilustraria que  a ocorrência reiterada desse tipo de coisa — tipo mendigos, ela explicaria — deixa as pessoas meio insensíveis a tudo isso. “E sei lá, achei a cidade com um ar meio pesado. Não sei se ia gostar de viver aqui”, terminou pensativa.

As carreiras e todos os sonhos de aspirações corporativas da conferência brotaram do fundo de nossas linhas de pensamento.

“Mas deve ser baita morar aqui, não? É uma puta cidade. Meio complicada, mas tem muita oportunidade e coisa pra fazer.”

“É, realmente. É uma puta cidade.”

Lamentei que conhecêssemos tão pouco dela, logo agora que havia algo de inquietante nisso tudo. Havia alguma coisa muito desconfortável, mas alguma coisa muito promissora e inebriante mesmo assim. Eu já ouvira tantas histórias sobre as possibilidades infinitas de São Paulo, que não queria abandonar ali minha secreta pretensão de ser seu habitante futuramente.

Na superficial concepção que surgiu dessa incursão tão breve, a cidade era grande demais para que conseguíssemos entendê-la — mas estávamos fascinados. O campeonato mundial de seres humanos, se é que há um, ganhou sem querer alguns inscritos naquela semana.

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João Vítor Krieger

João Vítor Krieger

Catarinense de sotaque meio vago e de 1992, gosto de cartões-postais, meios termos e de estar sempre com meu ukulele e uma gaita a tiracolo. Uso meu tempo tentando dar bom uso ao meu diploma de bacharel, voluntariando em alguma causa, e escrevendo histórias mais ou menos inventadas a cada duas terças-feiras aqui no Uma Boa Dose. Sonho em viver em um mundo onde as pessoas não achem o alemão um idioma tão feio assim, e onde Assunção esteja sempre a 15 minutos de casa.
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