São Paulo de todos os Paulos e todos os ritmos

Me lembro bem da primeira vez que vim em SP. Era uma manhã de março quando cheguei na rodoviária Tietê com malas excessivamente pesadas para apenas duas semanas de trabalho na capital paulista. Me dirigi ao guichê do metrô com expressão blasé, andando no ritmo das pessoas ao meu redor ao mesmo tempo em que ignorava suas presenças – truque da minha mãe para se misturar na multidão e parecer nativa, uma espécie de versão adulta do “não converse com estranhos”.

Toda a pose de tédio poderia, claro, ter sido facilmente desmontada caso alguém reparasse nos pés titubeantes que chegaram na fila. Não fosse isso, bastaria ter ouvir o pedido que fiz ao funcionário do metrô:

“Por favor, me vê uma passagem de metrô para o sentido Jabaquara?”, pedi em alto e bom som.

Sorte a minha que o funcionário foi suficientemente gentil para ignorar o “sentido Jabaquara” e apenas me entregar o bilhete para seguir viagem. Foi nessa primeira viagem desajeitada de metrô que encontrei minha primeira surpresa: no subterrâneo da maior cidade brasileira existem paredes repletas de arte e citações de livros e, sob a sombra de sonetos diversos, casais apaixonados se encontravam, brevemente, no cruzamento de horários e das linhas do metrô.

Dessa vez, três anos mais tarde, foi a vez das ruas e avenidas me surpreenderem. No domingo, após ter descansado da longa viagem de 11 horas que me trouxe até aqui, tirei a tarde para dar uma volta na Paulista. Acostumada com o ritmo intenso imposto pelas metas mensais dos grandes prédios espelhados de lá, vi a avenida mais característica da cidade abrigar também as mais diversas expressões culturais.

Eram manifestações ante-Copa do Mundo, pró-governo, feiras de artesanato, atores apresentando monólogos em plena avenida, apresentações de uma banda de Reggae seguida por um sanfoneiro tocando clássicos de Gonzaguinha. Mais a frente, um grupo de jovens estava sentado no chão com um pedido simples expresso em vários cartazes coloridos e convidativos – “Vamos conversar?” era tudo o que pediam. Ainda por lá, vi shoppings cederem parte de seu espaço para a organização de bazares com roupas de fabricação própria e preço barato, e também homenagens ao longo da avenida aos ciclistas que tiveram suas histórias interrompidas (e eternizadas) naquela pista.

Naquele domingo, a Paulista não parecia, nem de longe, a avenida agitada e de intenso tráfego dos dias de semana. E nem São Paulo se parecia com ela mesma. Depois de uma semana ininterrupta de chuvas, as nuvens carregadas deram lugar ao céu azul e um sol bastante dispensável (amantes do verão que me desculpem, mas sou uma pessoa, por essência, invernal).

O senso comum pode dizer que o óbvio também se faz presente em SP,  já que é evidente que fins de semana tendem a ser muito menos acelerados em qualquer lugar do mundo, mas especialmente em São Paulo, onde as pessoas caminham roboticamente pelo metrô todos os dias indo e voltando do trabalho, isoladas em seus fones de ouvido e playlist particulares, a diferença é ainda mais gritante. E é exatamente nela que mora a grande beleza de SP, nessa mistura bifásica entre concreto e o humano e na mistura homogênea entre tantas pessoas diferentes – apesar do paradoxo de ritmos, pessoas de todas as tribos, seja durante a semana, nos domingos, sábados ou feriados, dividem com respeito admirável a mesma cidade e a mesma calçada.

Bruna Estevanin

Bruna Estevanin

Bruna é uma jornalista inquieta que adora ouvir histórias e nunca recusa um convite para jogar baralho. Acredita mais em ações que em palavras e as pessoas que enrubescem quando estão envergonhadas são as suas favoritas. Nas horas vagas, ela inventa teorias sobre comportamento humano, rabisca uma ideia e outra e coleciona guardanapos.
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