O americano finlandês de Berlin

E então o Americano — lamentei muito não lembrar do nome dele depois — tirou um pincel atômico do bolso do casaco e pôs-se a escrever na mesinha quadrada que estava encostada na cadeira dele. Eu, com pouca vontade de dançar na sala ao lado, tinha me sentado um pouco antes em uma poltrona a sua esquerda; ele, entre todos dali que parei para olhar com calma, parecia ser o chapadão mais simpático.

Era julho de 2011 em Berlin e estávamos no Tacheles, um dos lugares mais improváveis para terminar a minha penúltima noite daquele mês no estrangeiro. Mais precisamente, sentávamos em uma espécie de antessala, “sozusagen“, da pista onde alguém tocava dubstep, no último andar de um prédio no centro da cidade que já fora hospital, universidade e era então galeria de arte alternativa. Ou alguma coisa assim. A música fremia, e em um ritmo não tão rápido era acompanhada em pulsos pela luz negra e pelos flashes. As paredes totalmente pichadas já não me distraiam tanto quanto aquilo que ia sendo escrito a um metro de distância de mim.

Kunsthaus Tacheles, tal qual quando essa história aconteceu, com exceção de que era à noite. (Foto: commons.wikimedia.org)

 

Ele então notou que eu observava, puxou um cigarro e me ofereceu um também: “Cigarette?”. Aceitei, um pouco receoso, e começamos a conversar, ao que ele passou a narrar sua história pouco a pouco. Como de praxe, esse primeiro contato entre dois estrangeiros começou com uma ou outra pergunta sobre nossas origens; disse-me que vinha de “America”. Acenei a cabeça concordando, e perguntei a cidade. “New Haven, Connecticut”, respondeu. Percebeu que eu não sabia do que ele estava falando, e completou dizendo que vinha da mesma cidadezinha onde ficava a Yale – that Ivy League University, you know?

Empolguei-me e perguntei se ele estudava lá, mas tão rapidamente o Americano negou. Achei por um momento que fosse algum cara extremamente inteligente, daqueles cheios de publicações e pesquisas com orientadores de prestígio, mas não. Ele só tinha nascido lá. De qualquer forma continuamos, e o Dean Moriarty interno do cara foi se revelando ali na minha frente. Achou bacana que falava com um brasileiro – even though you don’t really look or sound like a Brazilian, o que quer que ele quisesse dizer com isso.

Não sei dizer se ele também parecia mesmo com um americano ou não; o fato é que Berlin, pelo pouquíssimo que eu pude ver, era eclética o suficiente para que eu não pudesse ter qualquer primeira impressão válida sobre nada ou ninguém. E aí, veja só, o loiro tingido, sem muitos apelos comerciais, de camiseta xadrez, barba por fazer, boné e fones de ouvido no pescoço não me ajudava com pistas de onde vinha ou aonde pretendia ir. Ele tinha uns 23, 24 anos e era bem alto, embora eu não tivesse como adivinhar sua altura, uma vez que ficou sentado o tempo todo.

Já estávamos no segundo passo da conversa, e Yale serviu como gancho – o Americano continuou então a explicar, afinal, o que ele estudava ou fazia: era estudante de Administração (Business foi o que consegui entender) na Finlândia. Pois é, na Finlândia.

But why Finland, if I may ask?”, e a resposta surpreendentemente estava de alguma forma ligada com a música eletrônica de lá. Consigo me perder muito facilmente, nos subgêneros, então não me arrisco a dizer exatamente qual música eletrônica. De um jeito ou de outro, aparentemente ele curtia muito a cena que rolava lá e tão somente por isso ele decidiu finalmente se mudar para Helsinki, Hanken ou alguma cidade mais obscura. Pessoas com esse jeito sincero de escolher os rumos da própria vida — capitães de suas almas — e todo esse desprendimento me fascinam.

Foto: Tumblr

O assunto ainda perdurou por mais alguns minutos, e nesse ínterim ele me ouviu falar (até bastante interessado, para minha surpresa) sobre minha vidinha até então, a faculdade no Brasil, o Goethe-Institut, a Alemanha e aquela história toda. Era por isso, inclusive, que eu tinha vindo parar aqui, devo ter dito.

“Mas e você? Não estamos exatamente em Helsinki…”, e aí voltamos para ele.

“Pois é. Eu saí de Helsinki com uns amigos, para ir viajar pela Europa e descobrir outras lugares com a mesma música de que gostava na Finlândia”. Assim simples, meio On the Road pela vida.

“Então, mas aí eles começaram a usar algumas coisas mais pesadas.”

“Como o quê?”, perguntei.

“Ah, não sei. Eu gostava quando a gente não ia muito além do LSD, MDMA e cogumelos, mas aí eles começaram a mexer com pó e heroína, e aí resolvi me separar do bando. Desviei do caminho original que a gente tinha escolhido, e vim parar aqui em Berlin.”

Fiz cara de surpreso. Não sei bem como é essa cara, mas foi a expressão que o Americano me viu fazer. Lá fora, na calçada do lado do prédio onde estávamos, pairava um cenário que me lembrava a dúzia de contos e pequenas histórias de Bukowski que eu lera pouco antes de viajar. Vi prostitutas, bêbados, chapados, e um sujeito risonho de sorriso largo em cima de uma bicicleta anunciava aos berros que vendia drogas. Havia um ar de despreocupação meio ébrio, e ele casava bem com o cenário. No fundo era bobagem, porque estávamos praticamente no centro da cidade e minha cabeça exagerava, uma vez que era tudo bem seguro, mas eu gostava mesmo assim de como ele alimentava minha imaginação com histórias que eu sorvia com tanto gosto.

Nisso, fez-se um parêntesis.

“Cara, na verdade eu até queria saber onde você e os outros brasileiros estão alojados”.

“Ah, sim!”, repliquei solícito. Disse que estávamos num Hostel extremamente perto dali, mas o Americano me deu então quase a mesma cara de surpresa com um tom a mais de decepção. Ele não tinha dinheiro para ficar no Hostel. Aliás, nem no Hostel, nem em lugar nenhum; restavam-lhe menos de 22 Euros. Lembrei-me do pouco que dava para fazer com aquele dinheiro, e o questionei se tinha um plano.

Ele me fitou de volta, jogou pra longe o cigarro, deu de ombros e fez com os beiços cara de quem não tinha pensado nisso e também não liga muito se der errado.

O plano? Nenhum plano. Ele podia ter me olhado e feito como fazia um grande amigo meu, dizendo-me pausadamente “eu sou o agora”. Os poucos Euros acumulados tinham sido fruto até mesmo de algumas horas anteriores à conversa. Ele me contou que o seu entretenimento daquele dia fora vagar pela capital alemã, perguntando se alguém tinha alguma coisa que ele podia fazer por dinheiro. Sabe como é? “Hey dude, do you have a job for me? Can I work for you today for a meal or some money?”

O Dean Moriarty de tênis Vans no pé diante de mim concluiu dizendo que estava meio que de favores de estranhos, que cediam um sofá nos dias que ele não achava um jeito de juntar uma grana. A esse ponto eu não tinha mais nada a acrescentar e só concordava. E agora? Quem sabe Old Bull Lee ou Sal Paradise apareceriam por ali às quatro da manhã e levariam Dean para algum outro lugar. Ou outro destino, ou outra vida.

Faltavam algumas horas até isso, e muito estava para acontecer ainda. Eu viajava cedo no dia seguinte, então tive que me despedir dele naquela hora, e o fiz como quem deseja uma boa vida e toda a sorte do mundo, porque imaginei que ele precisaria. Mas não: há sempre uma estrada em qualquer lugar, para qualquer pessoa, em qualquer circunstância. O como, o onde ou o porquê pouco interessavam ao Americano, e eu já deveria saber.

Nunca mais o vi, mas um ditado alemão que ouvi à época ecoava confortável por minha cabeça: “Man sieht sich immer zweimal im Leben.” Ou em bom português, na tradução que me convém, as pessoas sempre se veem no mínimo duas vezes na vida. Então sei que ainda vou achá-lo de pincel atômico na mão em algum outro lugar, para ouvir como terminou a história, e descobrir enfim onde fica Big Sur.

Mas até lá… suerte!

João Vítor Krieger

João Vítor Krieger

Catarinense de sotaque meio vago e de 1992, gosto de cartões-postais, meios termos e de estar sempre com meu ukulele e uma gaita a tiracolo. Uso meu tempo tentando dar bom uso ao meu diploma de bacharel, voluntariando em alguma causa, e escrevendo histórias mais ou menos inventadas a cada duas terças-feiras aqui no Uma Boa Dose. Sonho em viver em um mundo onde as pessoas não achem o alemão um idioma tão feio assim, e onde Assunção esteja sempre a 15 minutos de casa.
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