Saudade

Sau·da·de (do latim solitas, solidão): 1. Lembrança grata de pessoa ausente ou de alguma coisa de que alguém se vê privado. 2. Pesar, mágoa que essa privação causa. 3. Boas lembranças ou recordações.

Nós, falantes do português, somos bastante sortudos por termos uma palavra dessas em nosso dicionário, que tenta definir esse sentimento, essa sensação, esse estado de espírito que consiste na solidão, no vazio, na presença da qual se foi privado, na lembrança e na ausência de algo ou alguém, de maneira tão sublime… Já ouvi certa vez que essa palavra foi criada a partir de marinheiros portugueses – lá pelo século XV – que sentiam falta de seus familiares, seus amigos e de sua terra Natal quando em alto-mar e, assim, foram tentando dar nome a esse vazio que apertava-lhes o peito.

Saudade está em uma lista como uma das 20 palavras “mais intaduzíveis” que existem e lá a sua definição é a seguinte: “one of the most beautiful of all words, translatable or not, this word “refers to the feeling of longing for something or someone that you love and which is lost.” Fado music, a type of mournful singing, relates to saudade.” Saudade de um lugar, de uma ou várias pessoas, de uma época, de uma viagem, de uma música, de uma situação, etc.; é sentir-se pela metade, como se um pedaço seu estivesse faltando, com um vazio latejando no peito lhe avisando que não se está completo. Esse sentimento muitas vezes se relaciona à solidão e à presença – ausente –  tão forte de algo ou alguém que não está mais ali e, em sua particularidade, pode ser algo bom como pode ser ruim. Todas as pessoas, em algum momento de suas vidas, já sentiram saudade. E exatamente devido à sua ambiguidade, por não ser definida ou concreta, que tantas pessoas tentam lhe dar cor, forma e sentido – uma explicação. Para sentir saudade é preciso, primeiramente, viver um belo momento, ou ir a um lugar mágico, ou conhecer pessoas incríveis para que assim, por conseguinte, se crie lembranças as quais merecem ser lembradas e ressentidas, uma vez que foram momentos únicos e especiais. Por isso que tantos escritores, artistas, compositores já escreveram a respeito e por isso que se continuará escrevendo – assim como escrevo neste momento -, porque a saudade é bonita em sua essência e quer-se explicar o por quê de senti-la, já que as suas razões são bonitas, também‘Saudade é pra quem tem’, disse Marcelo Camelo – é pra quem tem boas lembranças guardadas no fundo da memória e um coração repleto de histórias.

Dia 30 de janeiro foi o dia da saudade… mas não seria esse dia todos os dias? Nós, que temos essa mania de viver constantemente olhando para trás, lembrando do que passou, do que já foi, somos seres culturalmente saudosos. E, na minha opinião e como parte de uma pseudo-teoria que tenho, gostamos de sentir saudade e cultivamos tão fervorosamente esse sentimento porque não existe nada tão bom como matar saudade. Depois daquelas lembranças inesquecíveis e da angústia da espera, nada se compara com um abraço daquela pessoa que não se vê há tempos, ir àquela casa da praia que se passava o verão inteiro durante a infância ou trocar lembranças junto a velhos amigos. É bom lembrar, é bom sentir que outras pessoas tão singulares fizeram parte do seu caminho em certo momento da vida e que eles, por mais que agora estejam distantes ou que se tenha perdido contato, continuarão sendo parte da sua vida irrefutavelmente, porque serão parte das suas lembranças. E melhor ainda: a gente fez parte da vida de outras pessoas, também; pessoas igualmente saudosas por lembranças das quais nós fazemos parte – parece poesia viva. Não é bonito isso? Por mais clichê que possa ser, é belo e, para mim, sempre será.

Tenho saudades de monte; do meu melhor amigo que mora em outro país, de lugares que eu costumava ir, de músicas que eu costumava ouvir e que são trilha sonora de tantos momentos bons, de épocas diferentes, da minha infância, de pessoas tão queridas com quem perdi contato, de pessoas que já se foram e que deixam uma saudade diferente – daquelas que não se apagam nunca. Paulo Leminski escreveu que “você nunca vai saber quanto custa uma saudade”; acho que porque se fosse possível pagar para tê-las amenizadas, pagaríamos o preço que fosse… Talvez ele tenha pensado nisso também, porque depois escreveu “o que eu quero não tem preço, ter um preço é necessário, e nada disso é preciso.” Se saudade tivesse preço, qual seria o preço das suas?

Carla Mereles

Morena de cidade alemã, tem na escrita a sua maior liberdade. Além disso, tem inquietação por tudo o que parece fora do lugar – ou num mesmo lugar há muito tempo. Crê na força das palavras, no poder catalisador da música (em especial a quem a faz) e, principalmente, na força sinérgica das pessoas. Gosta de ouvir e contar histórias, sempre que pode está na/pega a/bota o pé na estrada e deseja um dia ter a sabedoria em bem enxergar o mundo.

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