Histórias de metrôs e anonimato

Todos os dias eu faço o mesmo caminho pra ir pro trabalho. Subo a Pamplona até chegar a Paulista, pego metrô no Trianon-Masp até a Consolação, conexão com a linha amarela até Pinheiros e, por fim, aquele número infinito de escadas rolantes lotadas de gente pra chegar à superfície da rua que só quem pega a linha amarela entende.

Ontem segui minha rotina padrão matinal. Cheguei ao Trianon-Masp, comprei um bilhete e desci as escadas pra esperar o trem. Andei um pouco pra frente, pra pegar os carros dianteiros mais próximos da conexão e, assim que o trem chegou, me sentei do lado da porta pra facilitar a descida.

Nesse horário, umas oito e meia, nove horas, o volume de gente é tão grande nas estações que é quase impossível reparar em alguém. No máximo, fazemos um pequeno movimento de rotação com o pescoço e vemos, sem olhar realmente, quem está ao nosso redor. Nessa manhã, meus olhos varriam o local sem procurar por nada além de um lugar pra descansar quando encontraram uma senhora encolhida no extremo esquerdo do vagão.

Ela devia ter por volta de 50 anos, morena, quase nenhum fio branco ainda. Usava um coque caseiro e apressado no topo da cabeça, uma saia estampada um pouco abaixo do joelho em um tom de roxo-magenta e uma blusa escura. A mulher ocupava um assento solitário no canto e poderia ter passado despercebida se não fossem seus olhos. Ao contrário dos meus, eles não vagavam pelo trem, mas estavam encolhidos e vermelhos. Chorava um choro apertado, doído, de lágrimas tímidas, desses que não queriam de forma acontecer num lugar tão cheio, mas, inevitáveis, vieram a público.

Por um instante, nossos olhos se encontraram – os meus, sonolentos, os dela, marejados. Quis dizer alguma coisa, algum sorriso de conforto, alguma palavra amiga ou um abraço que fosse. A voz não saiu, o gesto não veio e, quando o metrô começou a parar, o máximo que consegui fazer foi deixar uma expressão de consolo que combinava, em tudo, com a próxima parada, Consolação.

Ela não desceu, ficou. E enquanto eu descia, nossos olhares enfim se perderam. Fui caminhando junto à multidão para a conexão da linha amarela imaginando qual era história por trás do choro silencioso daquela senhora, pra sempre perdida em meio às tantas histórias anônimas dos metrôs de São Paulo, e me perguntando se, algum dia, alguém já havia se perguntado também, num breve encontro de olhares, qual era a minha.

Bruna Estevanin

Bruna Estevanin

Bruna é uma jornalista inquieta que adora ouvir histórias e nunca recusa um convite para jogar baralho. Acredita mais em ações que em palavras e as pessoas que enrubescem quando estão envergonhadas são as suas favoritas. Nas horas vagas, ela inventa teorias sobre comportamento humano, rabisca uma ideia e outra e coleciona guardanapos.
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