O Peñarol, apesar do nome, não era torcedor do Peñarol. E também não usava peruca.

Homens de verdade não usam peruca

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Peñarol, o uruguaio que sempre cortou nosso cabelo, empolga-se na segunda história da noite:

“Já contei a vocês sobre o alemão meio careca que apareceu um dia lá no salão?”, diz ele com pesado e divertido sotaque castelhano, intercalando as frases com goles de chope e batendo na mesa do pub.  Meu pai, momentos antes disso, perguntara se ele já tinha feito algum erro na cabeça de um cliente. Talvez tenha se dito ‘cagada’ para estabelecer melhor o acordo semântico que definia a dimensão do erro. Uma ‘cagada’, sabe como é.

“Claro né, cara” era a resposta galhofeira do Peñarol, que pontuava suas frases usando tão bem a meia dúzia de gírias que sabia. “Uma cagada?”, e pensou por meio segundo. “Ah, sim. Uma vez apareceu esse cara alemão, de cabelo ruivo ralo, com entradas até quase no meio da cabeça”.

O alemão da história, que provavelmente nem era alemão, embora fosse bastante alto, ruivo e muito sério, surgira pedindo uma coisa diferente. “Sabe do que eu tô falando? Ele apareceu dizendo ‘ouvi falar bem de você, faz uma coisa diferente aqui, isso e aquilo’ e eu não sabia o que dizer. Não sei fazer mágica!”

O problema é não ter cabelo, afirmou sabiamente. “Tendo alguma coisa lá, se faz qualquer coisa”, repetiu Peñarol algumas vezes.

“E aí? O que você fez? Cortou a meia dúzia de fios que ele tinha?”

“Não! Eu disse a ele que, se ele queria uma coisa diferente, um chapéu novo provavelmente cairia bem! Mas ele ficou sério e achei até que ele ia me encher de porrada!”

O casal da mesa ao lado incomodou-se com nossas risadas escandalosas.

“E ele fez isso?”

“Não, ele só sentou. Eu fiz o que pude!”

E o Peñarol divertiu-se à beça mais uma vez com uma de suas próprias histórias. Porque mesmo falávamos sobre isso? O que achei cômico mesmo foi então notar que o uruguaio surgira sem nenhum prenúncio, como quem brota do chão para juntar-se à conversa.

Melhor voltar algumas horas.

O Peñarol, apesar do nome, não era torcedor do Peñarol. E também não usava peruca.

O Peñarol, apesar do nome, não era torcedor do Peñarol. E também não usava peruca. (Foto: Twitter (@drchochandi))

 ***

Há dias que insistem em ter uma espécie de tema recorrente.

É difícil de explicar. Do momento em que a gente acorda, já com alguma coisa na cabeça que serviu de enredo para o sonho daquela madrugada, até os últimos segundos antes de se pegar no sono, parece que todo momento girará de algum modo em torno da mesma coisa. Diria até que surgirão dicas — nas esquinas, no papinho de elevador, nas palavras nos outdoors — de que o mesmo tema persistirá até que o relógio dê mais uma volta completa.

Na sexta-feira, por exemplo, foi quase como se eu tivesse aprendido uma nova palavra: “cabelo” pairava idiota em todas as linhas de pensamento.

Assim mesmo, “cabelo”, bem banal para o vernáculo da minha cabeça, normalmente mais afeiçoada a vocábulos sesquipedais e prolixidade no geral. Naturalmente, o primeiro assunto debatido com seriedade na copa do escritório foi precisamente esse: cabelo e suas variantes. Quero dizer, penteados, tinturas, calvície e coisas do tipo. Nas horas subsequentes, aliás, a dialética desenvolvida de meus colegas deixou-se levar pelo tópico mais algumas vezes.

À noite, vencido o expediente, fui ao bar/pub com meu irmão e meu pai. Sentamos no canto, dividindo um sofá forrado com couro e cadeiras de madeira, com vista somente para uma bandeira iluminada do Reino Unido e um casal díspar. O tema tinha sumido enfim do dia.

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Foto: Pinterest

Sucede, no entanto, que as palavras “Real men don’t use wigs” irrompem na minha frente. Um sujeito enorme com uma camiseta igualmente grande espremem-se entre minha cadeira e sua mesa, de modo que é impossível não ver a estampa em sua barriga.

‘Porra’, eu penso. ‘Essa história sem sentido sobre cabelo de novo’.

Praticamente no mesmo instante, no momento em que o sujeito enorme se afasta, vejo o Peñarol no lado oposto do bar. Ele me reconhece, cumprimenta de longe a mesa, e vem até nós. Sim, agora dá para ligar os pontos e o porquê de ‘cabelo’: o dia inteiro fora uma antecipação para a companhia que faríamos ao cara que cortava nossos cabelos, o Peñarol. Peñarol e seu repertório abastado de historinhas da vida.

É até de se estranhar que um uruguaio, que viera ganhar a vida cortando cabelos sozinho no interior de Santa Catarina, tivesse tanto a contar. Mas não nos opúnhamos; nossos assuntos já iam acabando àquela altura, e sua aparição fora oportuna. Tão logo sentou, Peñarol nos caçoou por causa de nossos penteados e pela seleção brasileira e a Copa, debochando logo em seguida antigos clientes de penteado ridículo e afins.

Peñarol ainda nos contou, depois de mais duas canecas de chope, que seu Fiat Uno fora roubado mais duas vezes desde o nosso último reencontro casual.

Putz” foi só o que conseguimos dizer. “Mas como assim?”

“Pois é”, disse ele com cara triste. De súbito faz cara de galhofa e nos diz que já tinha mesmo passado da hora de consertar a porta do carro… que não trancava mais. “Por isso era bem fácil de abrir”, concluiu rindo.

“Aquele mesmo carro que pegou enchente duas vezes?”, perguntou-se.

“Aquele mesmo!”, disse ele. “Mas a água nunca chegou até o banco do motorista, então tudo certo!”, o que nos fez voltar a rir barulhentos, angariando até um olhar desconfortável daquele casal díspar, ainda que não fosse suficiente para interferir no topete dele ou na maquiagem dela.

O uruguaio enfim toma uma pausa entre as histórias, após ter se passado seguramente uns 30 ou 40 minutos de narrativas. Ele passa o olhar em nós, suas três companhias à mesa, fitando lentamente cada um.

“Mas sabe,” — e ele toma ar lenta e profundamente — “o que é mesmo massa pra caráleo é que vocês estão aí juntos, os irmãos com o pai.”

Um de nós deve ter levantado a sobrancelha, suficiente para perguntar ‘como assim’ sem dizer nada ou contestar o sotaque engraçado.

“Ah, isso que vocês têm é muito massa, cara. Meu pai morreu quando eu nasci, então nunca tive nada parecido. Nunca na minha vida.” E ficou sério.

Ficamos meio desconcertados. Uma dessas vindo do Peñarol, que era normalmente tão engraçado, nos pegou desprevenidos. Convenientemente, nessa hora a frase “real men don’t use wigs” ressurgiu ao fundo como a um estandarte acidental, já que o dono da camiseta da noite ia se levantando para ir embora, evidenciando talvez o ar simbólico que tinha a afirmação da estampa. Quem sabe as piadas do Peñarol fossem no fundo um disfarce para seu ar meio melancólico, cheio de verdades e histórias sérias e pouco engraçadas, como cabelo falso e metafórico serviria para esconder a calvície. E ao final das contas, homens de verdade não usam perucas, tampouco as simbólicas. (Ou era a cerveja que já me tirava o discernimento para chegar numa conclusão dessas.)

De todo modo, Peñarol sentiu a conversa afundar e se voltou a nós tão logo pôde.

“Mas eu já contei pra vocês a história do alemão meio careca que apareceu no salão um dia para cortar o cabelo?”

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João Vítor Krieger

João Vítor Krieger

Catarinense de sotaque meio vago e de 1992, gosto de cartões-postais, meios termos e de estar sempre com meu ukulele e uma gaita a tiracolo. Uso meu tempo tentando dar bom uso ao meu diploma de bacharel, voluntariando em alguma causa, e escrevendo histórias mais ou menos inventadas a cada duas terças-feiras aqui no Uma Boa Dose. Sonho em viver em um mundo onde as pessoas não achem o alemão um idioma tão feio assim, e onde Assunção esteja sempre a 15 minutos de casa.
João Vítor Krieger

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