Jeito arquitetura de ver e fazer o mundo

Durante uma conversa com um arquiteto nesse fim de semana eu senti saudades de arquitetura.

Filha de mãe arquiteta e pai paisagista, escolhi Arquitetura e Urbanismo pra ser meu primeiro curso numa faculdade, mas não foi o único: depois de 4 anos eu desisti de ser arquiteta, não me formei. Durante esses tais 4 anos eu morei fora, viajei, mudei de cidade(s), de universidade(s) e de colegas. Depois que a mente abre, é difícil voltar àquilo que era nossa zona de conforto. Bye bye, prancheta, régua e grafite! 

Pouco antes de largar o curso lembro de ouvir o arquiteto Miguel Cañas mencionar, numa palestra, sobre os “óculos” que todos os estudantes de arquitetura adquirem durante o curso. A metáfora era que, apartir do momento que se começa a explorar essa área, a gente passa a ver arquitetura em tudo – com um toque especial, atento e curioso. Eu desisti do curso mas esse fim de semana percebi que (ainda bem!) nunca tirei esses óculos que aprendi a usar – e super recomendo!

“Architecture is not based on concrete and steel and the elements of the soil. It’s based on wonder.” – Daniel Libeskind

Como arquitetura mexe com sentimento e emoção, esse óculos também acaba ajudando a expandir interesses de muitos profissionais. Explico: Isay Weinfeld é um arquiteto brasileiro super reconhecido por suas obras mas é difícil não se encantar pelos textos escritos por ele, se surpreender por suas iniciativas no mundo do cinema ou com o jeito que ele descreve um show do Radiohead. É comum encontrar arquitetos apaixonados por gastronomia: as duas artes usam os 5 sentidos pra proporcionar emoções e, quando usadas em harmonia, o resultado tende a ser surpreendente – Flávia Quaresma fala disso nesse vídeo. Alain de Botton é um filósofo suíço/inglês mas escreveu um livro chamado “A arquitetura da felicidade” onde explica como os espaços podem influenciar no nosso jeito de ser. Arquitetura é feita de curiosos, artistas, escritores, chefs, filósofos, músicos, etc.

Arquitetura é arte. E também pode vir disfarçada em poesia (viva Leminski!):

     arte que te abriga arte que te habita

     arte que te falta arte que te imita

     arte que te modela arte que te medita

     arte que te mora arte que te mura

     arte que te todo arte que te parte

     arte que te torto ARTE QUE TE TURA

– Paulo Leminski

Muita gente pensa em arquitetura como sempre majestosa e impressionante mas ela também sabe ser delicada e às vezes até passa despercebida na rotina e correria de muita gente. Cores, tamanhos, texturas e luz: os espaços são planejados. Quantos metros quadrados pode ocupar uma boa dose de criatividade?

Church of st Peter - Sigurd Lewerentz

Church of st Peter – Sigurd Lewerentz

Pavilhão Barcelona - Mies van der Rohe

Pavilhão Barcelona – Mies van der Rohe

MASP - Lina Bo Bardi

MASP – Lina Bo Bardi

Livraria da Vila - Isay Weinfeld

Livraria da Vila – Isay Weinfeld

Kolumba Art Museum - Peter Zumthor

Kolumba Art Museum – Peter Zumthor

Centre Georges Pompidou - Renzo Piano + Richard Rogers

Centre Georges Pompidou – Renzo Piano + Richard Rogers

Gare Lyon-Saint Exupéry - Santiago Calatrava

Gare Lyon-Saint Exupéry – Santiago Calatrava

Sayamaike Historical Museum - Tadao Ando

Sayamaike Historical Museum – Tadao Ando

Institut du Monde Arabe - Jean Nouvel

Institut du Monde Arabe – Jean Nouvel

Os arquitetos ainda estão entre os profissionais que eu mais admiro: brincam com arte e técnica para proporcionar uma pluralidade intensa de emoções. Ninguém sabe aproveitar todo o potencial de um guardanapo e uma caneta BIC tão bem quanto eles. Sem medo de sair com a mão suja de grafite, passam as ideias para o papel (ou qualquer outra superfície) mas por pouco tempo: a graça está em fazer os projetos acontecerem.

Enquanto estudava arquitetura aprendi 3 hábitos que recomendo: 1. papel e lapiseira sempre à mão pra ideias, insights e sketchs. 2. não tenha medo de gastar sola de sapato: explore lugares, cidades e espaços! 3. detalhes nunca são só detalhes.

Ao arquiteto que me fez relembrar o quanto arquitetura pode ser inspiradora: muito obrigada!

Deixo pra vocês a sugestão de enxergar a vida com o tal óculos que um dia me apresentaram:

Ana Metz Castan

Ana Metz Castan

Ana é louca por flores, adora chás e odeia clichês. Tem sempre à mão papel e caneta e adora juntar gente em volta de uma mesa. Curiosa e apaixonada, explora projetos que tragam mais empatia, criatividade e leveza para o mundo. Acredita que água salgada curatudo e que tristeza não tem espaço em dias de céu azul e frio. Ana é fundadora do Uma Boa Dose e hoje estuda na Kaospilot, na Suíça.
Ana Metz Castan

Últimos posts por Ana Metz Castan (exibir todos)

Experimente também

Coleção

Por Bruna Estevanin

Fins de semana em casa geralmente são dias nostálgicos para mim. Nesse, aproveitei para dar uma garimpada em fotos e […]

Posso sentar na janela?

Por Murilo Igarachi

Sempre gostei de me sentar próximo à janela.  No ônibus, metrô, trabalho, escola, faculdade, a janela sempre foi a minha […]

Sem comentários

  • Júlia Rios 25/02/2016   Reply →

    Adorei! Inclusive, usei o seu texto como minha “obra análoga”!

Degustando...