In TED we trust

Tenho uma bandeira de Berlim ocupando uma boa fração da parede marrom do meu quarto, bem ali onde ficam também pendurados uns dois outros quadros e mais muitas fotos de todo o tipo.

Gosto dela não somente pelo tom chamativo das duas listras escarlate, ou mesmo por causa da simbologia forte por trás da sua elaboração, mas porque o urso em posição de ataque, que ocupa o centro da bandeira e tantas outras insígnias e escudos da cidade, está segurando um sorvete azul e cantando Vanilla Ice.

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Foto: Pinterest

Não se trata necessariamente de um daqueles souvenires bem kitsch comuns a tantas das lojinhas especializadas que se encontra vagando por lá. O sorvete, assim como mais um punhado de corações e carinhas felizes, foram desenhados com caneta de autógrafo, dada aos meus bons e raros amigos de lá quando estava numa daquelas tristes despedidas que durarão anos ou décadas.

Todo viajante que levou consigo uma bandeira de casa ou do seu destino sabe bem do que estou falando. Não há melhor forma de descobrir o que significamos para as pessoas com quem vivemos ao pedir para elas deixarem uma ou duas linhas escritas em um pedaço de pano que guardaremos pro resto de nossas vidas.

E em meu caso não foi tão diferente. A primeira leitura oferece precisamente o que se esperaria: promessas de saudade, retorno e pedidos, de ‘keep shining bright’ até ‘kiss my ass for christmas’. Em um olhar mais cauteloso, no entanto, vê-se o fruto da imaginação alheia e os sintomas de amizades bem-feitas. Desse segundo grupo, aliás, uma das assinaturas é emblemática:

“João! =) […], pare de estudar direito e vire um escritor e TED talker!”.

Juro que está escrito exatamente dessa forma. Não faço ideia de como pessoa em questão sabia, mas no fundo sempre questionei minha formação e nutri secretamente essa vontade meio ingênua de viver de prosa e de ideas worth sharing. Será que chegamos a conversar a respeito? Não sei. Mas fico instigado. Até me imagino chegando um dia em casa para levar a sugestão a cabo e explicando enfim minha mais nova decisão.

— Pessoal, olha só, abandonei tudo e resolvi que vou escrever livros. E participar de um TED.

Desapontamento geral. “Quem é Ted?”, alguém provavelmente perguntaria preocupado. Mas a cena hipotética me diverte e empolga, já que me imagino em seguida abrindo o computador para ilustrar aonde eu queria chegar, mostrando a todos o famoso site com todos os talks inspiradores e aquela logo em vermelho, colorida com uma matiz provavelmente tão viva e atraente quanto as listras da bandeira que me trouxera até ali.

Quem é o TED? São várias pessoas, na verdade. Aliás, é uma organização americana… mas também é um evento independente que acontece no mundo inteiro. O propósito disso tudo? Está na sigla: Tecnologia, Educação e Design. Eles organizam debates e palestras — os tais talks — sobre esse tema, mas não só sobre isso. São vários assuntos. Digo, a ideia principal é divulgar todas as ideias que devam ser espalhadas e começar assim movimento, catalisando a mudança em sua absoluta liberdade e pluralidade.

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Foto: Tumblr

— Tá. Mas e aí?

Sim, mas e aí? Pois é. A dúvida é válida. Inclusive os caras lá do Papo de Homem têm uma coluna que já questionou o TED e esse vício em epifanias, como se estivéssemos constantemente sedentos por mais uma visão inusitada de mundo ou por 20 minutos de sabedoria intensa que não necessariamente nos levam a nada.

O colunista em questão até chama a plataforma de ‘pornô epistemológico’. Não o culpo inteiramente. Quer dizer, pensando bem, a ideia de transformar a aquisição de conhecimento profundo e intenso num vídeo de alguns minutos com algum clímax na ‘ideia que merece espalhar-se’ talvez até tenha mesmo, mutatis mutandis, algo que ver com a pornografia. A comparação é esdrúxula, mas é muito mais pela ansiedade constante e vício em novidade — e é nesse momento em que se fala de mídias sociais, smartphones e afins — que meio que dá a tônica da minha geração. Entende? Tudo rápido e imediato e meio sem significado evidente? Vício em novidades? Efeito Coolidge?

Mas não é disso que eu estou falando. O TED não se trata disso.

— Do que se trata, então? (E os antagonistas imaginários dessa discussão hipotética soerguem-se céticos de suas cadeiras.)

‘Essa é fácil’, eu começaria respondendo. Acho que o mundo todo há de concordar comigo que, sem maiores complicações, o TED é legal à beça. Só por aí já valeria a pena abrir um talk para mais uma descoberta sensacional.

O coração ávido do expectador que quer ouvir boas histórias, como quem senta para um café e trocar uma ideia, abre um vídeo desses só para ouvir a história da mulher que foi de Cuba aos Estados Unidos a nado. Ou para ouvir o cara que sofreu um acidente de carro, que depois foi atrás de desculpas do outro motorista e descobriu sua essência na inépcia do seu algoz. Tem também uns exemplos mais conhecidos, como o da Elisabeth Gilbert, autora de um best-seller, que disseca no palco seu infame gênio criativo. Não poderia também deixar de mencionar, entre mais um monte de exemplos, o Steve Jobs, que todo mundo já deve ter ouvido em algum lugar e sempre volta para ouvir de novo mesmo assim.

E não é só isso. Voltando à bandeira e à assinatura em questão, não acho que a Ana — esse é o nome dela, por sinal — supus que eu fosse falar como qualquer um deles para justificar a pretensão em tornar-se um TED talker.  Ou que eu seria algum tipo de revolucionário tão logo eu largasse a faculdade e resolvesse passar meus dias diante de rascunhos de algum livro com o qual eu quiçá sonhe.

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Foto: https://www.nyfa.edu/

O que ela já sabia é que o grande valor não está no talk em si, nos palestrantes de grande renome ou no valor da logomarca escarlate.  Isso tudo conta muito, está claro — mas o importante mesmo é o que vem depois. Por essa razão, por exemplo, que os participantes ao vivo são em regra pessoas mais engajadas, que necessariamente usarão depois em seus contextos reais o que ouviram durante a conferência.  O alvo do TED, ao final das contas, é espalhar as ideias que merecem esse esforço — e começar, em doses cavalares ou homeopáticas, a modificar nossas realidades. Ou dar vida a nossas próprias boas ideias e reproduzi-las.

Bem no fim, aquilo que a Ana me deixou na bandeira de Berlim foi uma das passages mais memoráveis dos tempos que passei por lá. E realmente não sei se algum dia nos juntaremos aos caras que são convidados a palestrar nos TEDs globais, compondo com eles esse seleto grupo de pessoas com ideias e iniciativas fantásticas. Mas o que provavelmente se quis dizer é que, se as assinaturas em bandeiras de cores forte já deixam marcas e nos mudam pro resto da vida, então livros bem escritos e discursos fortes têm o potencial de mudar o mundo.

E agora? Bom, se entrar alguém em casa nesse momento, estou já com o discurso pronto. ‘Pessoal, vou mesmo largar tudo e viver de coisas legais que tem potencial para mudar o mundo’. Assim mesmo, passional e ingênuo, mas crédulo. E se me perguntarem o porquê, sei a resposta. Easy-peasy:

— In TED we trust!

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João Vítor Krieger

João Vítor Krieger

Catarinense de sotaque meio vago e de 1992, gosto de cartões-postais, meios termos e de estar sempre com meu ukulele e uma gaita a tiracolo. Uso meu tempo tentando dar bom uso ao meu diploma de bacharel, voluntariando em alguma causa, e escrevendo histórias mais ou menos inventadas a cada duas terças-feiras aqui no Uma Boa Dose. Sonho em viver em um mundo onde as pessoas não achem o alemão um idioma tão feio assim, e onde Assunção esteja sempre a 15 minutos de casa.
João Vítor Krieger

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