"É impossível entender a China da perspectiva oriental", ele diria.

Tomar partido e outros Negócios da China

“Mas e aí, você é de esquerda ou de direita, então?”

Tem que se posicionar, meu caro. O mundo gira, o Brasil acontece, eleições vêm aí — e precisamos saber em qual lado você está. Está conosco ou com eles? Com a patuleia? Ou com essa choldra insana? Comunistinha. Reacionário idiota.

Calma. É complicado. Preciso responder agora? Posso contar uma história antes? Vou contar, mas é rápido. Prometo.

Vamos lá. Já falei do Owen? Um chinês alto e moreno, com dentes tortos, óculos e ocasional halitose? Então, esse era o Owen. As primeiras impressões são as que ficam, afinal. Mas é importante dizer também que ele tinha uma forma fantástica (e bastante única) de gesticular os pensamentos. Sabe quando as pessoas movem as mãos para complementar o que estão explicando? Então, ele fazia isso de um jeito que só um chinês saberia. Entende? Rápido, pontual, convicto — e interessantíssimo. Assim, bem chinês.

O Owen era meu vizinho no Victor-Jara, um dormitório cheio de estrangeiros onde morei brevemente em 2013, e onde também toda quarta-feira e sábado havia uma festa no bar do porão do prédio principal.

Um dos quartinhos do 'Studentenwohnheim', onde essas conversas geralmente começavam antes de terminar no barzinho no porão.

Um dos quartinhos do ‘Studentenwohnheim’, onde essas conversas geralmente começavam antes de terminarem no barzinho no porão. (Foto: Tumblr)

Foi numa dessas festas em que trocamos uma ideia pela primeira vez. Mas isso provavelmente se deve ao Alek. (Calma, eu chego lá.)

O Alek era o cara que corrigia a minha postura quando íamos a pé à estação de metrô de manhã, dizendo que ‘gentlemen’ não andam curvados. E era também o cara que lia a bíblia em polonês no vagão do trem, que usava boina em dias frios, e que era de alternar extremos. Minhas conversas com Alek: ora polêmica e opiniões fortes, ora historinhas sobre andar de barco nos lagos artificiais da Masúria, não longe da sua cidade natal, Varsóvia.

Numa dessas histórias, aliás, fomos parar na festinha no bar do dormitório. Alguém deve ter decidido no meio do diálogo que o clima ficaria melhor com cerveja — Beer? Sure, beer! — e de repente estávamos lá. E aí, depois de perder a terceira partida de pebolim para as taiwanesas (que trapaceavam, mas não admitiam), fomos atrás da terceira garrafa de cerveja. Berliner Kindl, por menos de dois euros.

Nisso, sentamos. E Owen brotou de súbito. “Hey, I’m Owen; who are you guys?”, e igualmente de súbito, de alguma forma, éramos bróders do Owen. A conversa foi tão rápida que achei que tínhamos sido trapaceados assim como fomos no pebolim.

Seguimos o protocolo. “Quem é você?”, o tipo de pergunta que ensejaria conjecturas existenciais, mas que na hora era só Owen interessado no básico. Isto é, nossos nomes, países de origem, cursos e alguma curiosidade en passant para deixá-lo interessado.

E aí nos entreolhamos por um tempo sem muito o que dizer.

***

“Mas então”, comecei como quem não quer nada, “os países de vocês são bem parecidos em alguns pontos, não?”, o que obviamente me rendeu sobrancelhas levantadas e caras céticas. Entendi o Alek subentender que ‘a Polônia e a China não têm nada em comum, João’, mesmo com ele ficando quieto.

“Não, sim, mas olha só”, e aí falei do comunismo, sobre o pouco que tinha aprendido no colégio, e perguntei por que tinha aparentemente dado certo na China e não na Polônia, como se perguntasse por que ontem choveu e hoje não. Por um momento até considerei estar insistindo num assunto cansativo e já vencido há muito tempo, mas era preciso puxar papo.

Eles se entreolharam e riram. Eu estava ali entre meu caro amigo polaco totalmente conservador e o universitário chinês pró-comunismo, sem saber se tinha cometido esportivamente uma daquelas gafes de sempre. Mas a cor vermelha, afinal, não era a mesma na China e na Polônia. Não, não; são coisas totalmente diferentes. Apples and oranges.

“Isso é loucura. Qualquer um que promove uma ideia dessas é um criminoso” era o que se ouvia do Alek.

"É impossível entender a China da perspectiva oriental", ele diria.

“É impossível entender a China da perspectiva oriental”, ele diria. (Foto: asiaobscura.com)

“Não, mas você não entende”, rebatia Owen, gesticulando do jeito meio Tai Chi Chuan dele. E aí falou da revolução gloriosa, do progresso chinês, da meritocracia inerente ao partido, e que, “não é nada contra vocês ou o país de vocês”, mas a democracia jamais funcionaria lá. “Você não consegue controlar mais de um bilhão de pessoas sem o partido.”

De volta à conversa, acabamos não conseguindo ir além desse ponto. Alek falava sobre a vida de seus pais em tempos de escassez soviética, Owen sobre a sua família na China de outras décadas, pronunciando coisas ininteligíveis em Cantonês e esperando que fôssemos entender. Não demorou até que se pontuasse argumentos com datas, nomes e referências que me eram estrangeiras.

Alek suspirava e ria educado. “Não consigo concordar com nada do que você diz”.

E aí me virei para o Owen. “O problema de vocês é que há essa insistência em exportar o modelo chinês para algum outro lugar. A China não é só um país. A China é uma civilização inteira, e você precisa de muito mais do que esse mindset ocidental formatado para conseguir assentar nossa lógica nas suas convicções.”

Ele sorriu. ‘E em tempo o suficiente vocês todos vão querer aprender mandarim’, ele deve ter pensado.

Alek já tirava o rótulo da garrafa de cerveja com a unha, meio desgostoso. “Os comunistas eram uns criminosos, de qualquer forma.”

Ele se virou pra mim, fiz cara de quem não sabia, e Owen sorriu, já se levantando.

“Mas vocês deviam ir pra lá algum dia. Tem muita coisa incrível no meu país”, concluiu o chinês, e eu quis dizer que era mesmo um ‘negócio da China’, mas não se traduz o trocadilho e minha piadinha morreu naquela deixa.

Ficamos em dois na mesa mais uma vez.

“E aí, o que você acha disso tudo?”

A gente já tinha tido aquela conversa. Acho que ele queria mesmo perguntar era ‘Mas e aí, você é de esquerda ou de direita, então?’, depois dessa exposição e de conhecer alguém que não dissesse que o Partido Comunista Chinês não era um absurdo ou algum ‘1984’ na vida real.

Onde te encontro e a que horas?

Onde te encontro e a que horas? (Foto: politicalcompass.org)

“Pois é, é complicado”, e foi assim que resolvemos achar outra coisa para fazer. Foi como naquela vez em que ele veio me dizer que os homossexuais são “unholy” e eu fiquei discordando um dia inteiro até que ele ganhou a conversa no cansaço — terminamos no ‘pois é’. Digo, em algum equivalente a isso (porque o ‘pois é’ é único da genialidade neutra e indecisa que só os brasileiros dominam) ou num simples ‘é complicado’.

De que lado estou, então? Estou no lado que quer ir à China algum dia, certamente. E do lado que prefere olhar as coisas com calma e ver o que se assenta melhor à realidade. Digo, qualquer coisa minimamente ponderada antes de se ater a alguma posição que automaticamente me faz favorável ou desfavorável aos meus vizinhos.

O Owen também talvez achasse que não sei do que estou falado, mas sempre pareceu melhor esperar a por mais bom senso e compaixão nesses momentos. E sempre quis dizer isto ao Alek (e em tantos outros momentos depois disso, com outras pessoas), mas me faltou oportunidade: com os comunistas sem religião, com a comunidade homossexual ou com os colegas cristãos super conservadores dele — e com quem mais for —, mais bom senso e compaixão, menos paradigma.

E façamos as malas.

***

Em tempo: só fui procurar alguma coisa na Internet a respeito disso muito depois, mas a recompensa foi digna. Há dois TED talks extraordinários sobre nossa antípoda chinesa.

Cada vídeo tem uns 20 minutos, mas são 20 minutos para entender porque a terra natal do Owen não é só um país, mas uma civilização inteira de milhares de anos; e no que exatamente consiste o partido único deles, para além da ideia de um ‘Grande Irmão’ impenetrável que penso nutrirmos aqui. Se bem filtrada, a informação desses talks é valiosíssima. Fica a dica.

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João Vítor Krieger

João Vítor Krieger

Catarinense de sotaque meio vago e de 1992, gosto de cartões-postais, meios termos e de estar sempre com meu ukulele e uma gaita a tiracolo. Uso meu tempo tentando dar bom uso ao meu diploma de bacharel, voluntariando em alguma causa, e escrevendo histórias mais ou menos inventadas a cada duas terças-feiras aqui no Uma Boa Dose. Sonho em viver em um mundo onde as pessoas não achem o alemão um idioma tão feio assim, e onde Assunção esteja sempre a 15 minutos de casa.
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