Águas (paulistanas) de março

Passei minhas duas primeiras semanas em São Paulo enfrentando um calor de quase 40 graus até ver a primeira chuva cair. No dia 27 de fevereiro, quando completei um mês por aqui, contava nos dedos as vezes em que São Pedro derramou suas águas: foram apenas cinco em 30 dias, desproporcionalmente intercaladas  com uma quantidade de sol inexplicável para o mês mais chuvoso do ano e para uma cidade que tem como apelido ‘capital da garoa’.

Mas aqui não é só a cidade da chuva. É a cidade do do Museu da Língua Portuguesa, da Pinacoteca e seu jardim da Luz, do Bexiga, da 25 de março, da Vila Madalena e seus barzinhos. Cidade que abriga a maior população nipônica fora do Japão no bairro Liberdade, a freirinha de antiguidades na Benedito Calixto, o parque Iberapuera, a praça da Sé, o largo de São Francisco, a USP e a icônica Av. Paulista e suas construções intercalando o histórico, o novo e o vanguardista.

São Paulo é berço de centenas de museus, bares, restaurantes e pessoas, mas tempo, por aqui, não há.  O ritmo te engole, e engole vivo, se deixar. Quando você menos espera, lá está o final do dia, avançando sobre os seus planos, e logo vem o sono, que é mais forte e imponente que a maioria deles – até mesmo atualizar o blog semanalmente.

Não sei explicar o porquê de tanta correria. Talvez os 13 milhões de pessoas dentro do mesmo lugar, usando os mesmos transportes públicos, andando pelas mesmas ruas e consumindo os mesmos serviços possam ajudar. É uma quantidade tão grande de seres humanos coabitando um espaço que a minha cabeça numericamente limitada não consegue dimensionar.

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Foto: Flickr

Essa multidão também pode explicar porque, por vezes, São Paulo seja tão dura e impenetrável. É tanta gente se importando com tanta coisa de diferente que, no final, o efeito é inverso: ninguém se importa. Nem com o que você veste ou com o que você come ou se o seu cabelo é azul com mechas rosas. E, ao mesmo tempo em que você se sente vulnerável e solitário, é exatamente a variedade de histórias com as quais você esbarra todos os dias que te torna mais humano e te faz valorizar mais suas conquistas e dar o peso certo às derrotas.

São Paulo é tanto, tanto, mas tanto (e de tanta gente) que nem dois, três meses de dedicação exclusiva ao desbravamento da capital dariam conta de vasculhar todos os cantos e toda a beleza escondida em suas entranhas. São Paulo é cidade de uma vida inteira.

Por sorte, março chegou diferente: menos ensolarado e mais imprevisível, prometendo um índice pluviométrico bastante generoso e, com ele, um tempo a mais pra realmente conhecer essa cidade que agora também é minha. E não tenho dúvidas de que vou encontrar debaixo do cinza concreto e do guarda-chuva – e, mais importante, viver – muitas boas doses pra compartilhar.

Bruna Estevanin

Bruna Estevanin

Bruna é uma jornalista inquieta que adora ouvir histórias e nunca recusa um convite para jogar baralho. Acredita mais em ações que em palavras e as pessoas que enrubescem quando estão envergonhadas são as suas favoritas. Nas horas vagas, ela inventa teorias sobre comportamento humano, rabisca uma ideia e outra e coleciona guardanapos.
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