Por que Procrastinadores Procrastinam

Tem uma frase comumente atribuída ao Luis Fernando Veríssimo, conforma consta por aí na internet, que resume em boa parte o drama de conviver com um um procrastinador interno que protesta ante as mais triviais tentativas de se manter focado a maior parte do tempo. “A minha musa inspiradora é o prazo de entrega“, diria ele em fonte que ainda não descobri, e nisso lembro a tentação incomensurável (e absurdamente banal) de ter que deixar alguma coisa pronta enquanto alguma reprise de Friends passa na televisão. Isso para não mencionar a pequena maldição de se ter um smartphone sempre consigo.

Bom, mas e aí? Qual é o porquê disso? Tim Urban, autor e escritor pelo site americano waitbutwhy.com, já citado antes aqui no umaboadose.com, tem um texto excelente, que tomei a liberdade de traduzir, com suas explicações e ilustrações memorávies. Aí vai: “Por que Procrastinadores Procrastinam“, em toda sua glória.

***

pro-cras-ti-na-ção

Subst. fem.

O ato de transferir para outro dia ou deixar para depois: a sua primeira dica é evitar a procrastinação.

Quem diria que, depois de tantas décadas nos debatendo com a procrastinação, o dicionário, de todos os lugares possíveis, teria a solução.

Evite a procrastinação. Tão elegante em sua simplicidade.

E já que estamos aqui, vamos garantir que as pessoas obesas evitem comer demais; que as pessoas deprimidas e melancólicas evitem apatia; e alguém por favor diga às baleias encalhadas nas praias que elas deveriam evitar estar fora do oceano.

Não, “evite a procrastinação” é um conselho bom somente para falsos procrastinadores — aquele tipo de pessoa que vai chegar e contar “eu realmente entro no Facebook algumas vezes por dia durante o expediente. Sou mesmo baita procrastinador!”. Essas são exatamente as pessoas que vão dizer ao real procrastinador algo do tipo “simplesmente não procrastine e vai dar tudo certo.’

A coisa que nem o dicionário, nem os falsos procrastinadores entendem é que, para um procrastinador de verdade, a procrastinação não é uma opção — é algo que eles não sabem não fazer.

Na faculdade, a completa liberdade pessoal foi um desastre para mim: eu ficava sempre sem fazer nada, qualquer que fosse a deixa. A única exceção é que eu tinha que entregar trabalhos de vez em quando. E eu os fazia a noite anterior, até que eu me desse conta que eu poderia fazê-los se virasse a madrugada, e eu o fazia até que me desse conta que, na verdade, eu poderia começa-los bem cedinho de manhã, no dia em que devíamos entregá-los. Esse comportamento atingiu níveis caricatos quando eu me vi incapaz de começar a escrever minha monografia de conclusão de curso de 90 páginas até perceber que faltava 72 horas para a sua entrega, uma experiência que terminou comigo no hospital universitário, entendendo que a falta de açúcar foi o motivo que levou as minhas mãos a ficarem dormentes, inertes e temporariamente atrofiadas contra minha vontade. (Eu até consegui entregar a monografia, mas não, ela não estava nem um pouco boa.)

Até mesmo esse post no blog levou bem mais tempo do que deveria, porque eu fiquei olhando para esta foto, que estava no meu desktop em função de um post anterior, pensando o quão facilmente ele poderia me encher de porrada e ganhar de mim em uma briga, e aí fiquei imaginando se ele conseguiria ganhar de um tigre em uma briga, até que aí eu fui ver se o Google tinha uma resposta para isso e fiquei lendo sobre o assunto (o tigre ganharia). Eu tenho sérios problemas.

Para entender porque os procrastinadores procrastinam tanto, vamos começar entendendo o cérebro de um não procrastinador:

foto 1

Bem normal, não? Agora vamos dar uma olhada no cérebro de um procrastinador.

foto 2

Percebe alguma diferença?

Parece que o Tomador de Decisões Racionais no cérebro do procrastinador coexiste com um animal de estimação: o Macaco da Gratificação Instantânea.

Não haveria nenhum problema com isso — seria até bem bonitinho — se o Tomador de Decisões Racionais soubesse alguma coisa sobre ter um macaco de estimação. Infelizmente, no entanto, isso não faz parte do seu treinamento, o que o deixa completamente sem saber o que fazer conforme o macaco torna o seu trabalho impossível.

foto 3

 

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O fato é que o Macaco da Gratificação Instantânea é a última criatura desse mundo que deveria ficar a cargo das decisões. Ele pensa somente sobre o presente, ignorando lições aprendidas no passado e desconsiderando o futuro como um todo, e ele se foca inteiramente com levar ao máximo o conforto e o prazer deste momento. Ele não entende o Tomador de Decisões Racionais muito melhor do que o Tomador de Decisões Racionais o entende. Por que deveríamos continuar a correr na esteira para fazer algum exercício, se podemos simplesmente parar e assim nos sentiríamos melhor? Por que deveríamos praticar um instrumento se isso não é nem um pouco divertido? Por que usar um computador para trabalhar, se a internet está bem ali, esperando que brinquemos com ela? Bem na verdade, o macaco acha que humanos são malucos.

No mundo de macaco dele, aí sim, ele sacou tudo: se você comer quando tem fome; dormir quando tem sono; e não fizer nada particularmente difícil, então você é um macaco bastante bem-sucedido. O problema para o procrastinador é que ele vive em um mundo humano, fazendo do Macaco da Gratificação Instantânea um navegador muito desqualificado. Enquanto isso, o Tomador de Decisões Racionais, que foi treinado para tomar decisões racionais — e não para competir com alguém que almeja o controle da cabeça que habita —, não sabe como se portar nesse conflito interno. Ele simplesmente se sente pior e pior sobre si mesmo conforme vai falhando, atingindo seu ponto mais baixo conforme é ralhado pelo dono da cabeça que habita.

Eis aí uma grande bagunça. E com o macaco no comando, o procrastinador se vê gastando um bom tempo em um lugar denominado o “Parque de Diversões Sombrio”.

O Parque de Diversões Sombrio é um lugar que todo procrastinador conhece bem. É um lugar onde a diversão acontece nos momentos em que a diversão não deveria estar acontecendo. A diversão que você tem no Parque de Diversões Sombrio não é realmente divertida, porque é completamente imerecida e o ar está contaminado com culpa, ansiedade e medo. Às vezes o Tomador de Decisões Racionais assume uma posição firme e se recusa a deixar você perder seu tempo fazendo atividades prazerosas normais, mas como o Macaco da Gratificação Instantânea vai fazer o possível para que você não consiga trabalhar, você se encontrará finalmente num purgatório bizarro de atividades bizarras onde todo mundo sai perdendo.

foto 7

E o Tomador de Decisões Racionais se frustra, perguntando-se como foi deixar o humano (de quem ele deveria estar cuidando) vir parar aqui de novo.

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Dito isso, como o procrastinador consegue terminar alguma coisa?

Na verdade, há uma coisa que assusta o Macaco da Gratificação Instantânea e o deixa completamente atordoado?

foto 9

O Monstro do Pânico está dormente a maior parte do tempo, mas é ele que acorda quando um prazo chega perto demais do seu fim, ou quando há perigo de se envergonhar publicamente, de desabar a carreira ou qualquer outra consequência assustadora.

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O Macaco da Gratificação Instantânea, normalmente impassível e impenetrável, morre de medo do Monstro do Pânico. De que outra forma você vai explicar que a mesma pessoa que não conseguiu, em duas semanas, escrever a frase de introdução da sua monografia, de repente teve a habilidade de ficar acordado a noite toda, vencendo a exaustão e escrevendo oito páginas? Por qual outro motivo uma pessoa extraordinariamente preguiçosa conseguiria começar uma rotina rigorosa de exercícios, se não em função de um arroubo desesperado do Monstro do Pânico com medo de ficar feio e pouco atraente?

E essas pessoas são, bem no fim, procrastinadores de sorte. Há que sequer responda ao Monstro do Pânico, que é o tipo que corre para cima da árvore junto com o macaco no momento de maior desespero, entrando em um estado em que se anula e desliga.

Que multidão nós somos.

É claro, isso não é nenhuma forma decente de se viver. Até para o procrastinador que efetivamente consegue terminar as coisas e permanecer como um membro competente da sociedade, algo deve mudar. Estas são as razões para isso:

1) É desagradável. Definitivamente muito do tempo do procrastinador é gasto de modo desnecessário no Parque de Diversões Sombrio, quando ele poderia estar se divertindo com satisfação e prazer merecido se as coisas tivessem sido feitas com um mínimo de lógica e planejamento. E pânico não é divertido para ninguém.

2) O procrastinador acaba enfim vendendo-se por bem menos que vale. Ele acaba conseguindo bem menos do que seu potencial permitiria, o que lhe consome um bocado e o enche de arrependimento e ódio consigo mesmo.

3) Os ‘tenho-que-fazer’ talvez aconteçam mesmo, mas não os ‘gostaria de fazer’. Mesmo que o procrastinador esteja no tipo de carreira onde o Monstro do Pânico cumpra o expediente todos os dias e isso o faça ter alguma satisfação, as outras coisas na vida importantes para ele — ficar em forma, cozinhar pratos elaborados, aprender a tocar violão, escrever por prazer, ler livros, ou mesmo mudar de carreira e começar a fazer outra coisa da vida — nunca acontecem, porque o Monstro do Pânico não costuma se envolver com esse tipo de coisa. Experiências como essas expandem nossa vida em propósito e valor, e, sobretudo, nos trazem felicidade. E para a maioria dos procrastinadores, ficam paradas na gaveta.

Mas e aí, como um procrastinador melhora e se torna mais feliz?

Fica para o texto da semana que vem. (Ou para a versão em inglês.)

 

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João Vítor Krieger

João Vítor Krieger

Catarinense de sotaque meio vago e de 1992, gosto de cartões-postais, meios termos e de estar sempre com meu ukulele e uma gaita a tiracolo. Uso meu tempo tentando dar bom uso ao meu diploma de bacharel, voluntariando em alguma causa, e escrevendo histórias mais ou menos inventadas a cada duas terças-feiras aqui no Uma Boa Dose. Sonho em viver em um mundo onde as pessoas não achem o alemão um idioma tão feio assim, e onde Assunção esteja sempre a 15 minutos de casa.
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