Foto: Tumblr.

Zero

Sentei à minha mesa, com o computador aberto e uma página do word em branco na minha frente por sete vezes. Em nenhuma delas consegui escrever algo de útil, nada muito coeso nem muito interessante também. Apaguei tudo. Normalmente eu vou tomar água, me distraio um pouco, coloco uma boa trilha sonora e começo do zero – mas não hoje. Hoje as palavras não estão se encaixando. Não é nenhum tipo de “Síndrome da folha em branco” e nem sequer por faltarem ideias. Comecei este parágrafo de três maneiras diferentes e todos abordavam outros temas que não este – se é que estou falando de alguma coisa. Pensei em escrever sobre procrastinação, sobre os 50 anos do golpe militar no Brasil e também sobre mentira, aproveitando estarmos próximos de primeiro de abril. Veja que todos os temas andam em harmonia… Só que não. Mas, entretanto, contudo, todavia: esta é a quarta e última tentativa.

Coloquei Bon Iver para tocar porque normalmente a voz dele desperta algo em mim que faz com que eu comece a escrever repentinamente. Porém, não foi o que ocorreu hoje. Esse é o temido momento em que posso acender vela, fazer macumba ou rezar pra quem quer que seja, mas quando a cabeça não funciona, acabou. De inúmeras formas isso é extremamente frustante e derrotante. Sério. Às vezes, ato de solidificar uma ideia para colocá-la no papel se torna algo que beira o impossível. Nesses momentos, parto para alguma obra de Leminski, Veríssimo, ou Zafón, buscando uma luz no fim do túnel, uma pista qualquer sobre a possibilidade de algum desses mestres ter passado por isso, também. Se bem que tenho quase certeza de que eles não sofriam desse mal… E enquanto isso, a página continua em branco.

Muitas pessoas não acreditam neste writer’s block, mas posso jurar que ele existe, sim – e quem escreve pode afirmar isso junto comigo. O problema não é falta de vontade, não. Nem falta de inspiração, uma vez que, quando não se está inspirado, a gente escreve da mesma maneira. Quando há esse bloqueio, mesmo com toda a vontade do mundo em sentar e escrever um texto que valha por ser lido, não “vem” a inspiração necessária, nem as palavras certas, e nada se encaixa. É a incapacidade de criar algo do zero, de preencher o papel.. Certa vez, quando eu e um amigo conversávamos sobre nossos métodos e hábitos de escrita, ambos concordaram sobre o quão demorado e trabalhoso é construir um texto. Quando possível, isto é, quando não precisamos começar e acabar o texto naquelas horas que seguirão – porque o prazo é o dia seguinte – nós seguimos a mesma linha de pensamento. Primeiramente fazemos um brainstorm loucamente, depositandos todas as ideias principais e montando o esqueleto do texto e nós o deixamos ali para poder “limpar a cabeça” e só depois voltar a ele. Nós dois comparamos o ato de construção de um texto à preparação da carne: é necessário colocar muito sal para que fique temperada e, para que fique boa de verdade, é preciso deixá-la absorver todos os sabores que ali existem. Mas agora, com ou sem método, continuo, pois, a fitar uma página sem nada escrito.

Por fim, chega o medo da possibilidade de que esse block nunca vá embora. Medo de perder a habilidade de fazer aquilo que eu sei fazer, aquilo que gosto e que faz com que eu me sinta mais viva… Afinal, é para escrever que me preparo, que treino, que pratico mais e mais vezes há tempos. Por gosto, logicamente, mas agora também visando fins profissionais. Se é isso que eu faço, que quero fazer, que persigo, que aperfeiçôo, que tenho amor ao fazer, por que não consigo fazê-lo?

Cara, escrever é difícil. Difícil mesmo. Cada qual com seus métodos e manias, com figuras linguísticas e palavras características. Escrever é uma compulsão, uma necessidade, uma maldição – como cria Lispector. A escrita nem sempre sai facilmente, ou bem, ou sequer sai, acontecendo episódios como estes de bloqueio. Contudo, sem ela eu não conseguiria me imaginar como sou. É isso que nos liberta de nós mesmos. O medo em perder essa liberdade e, por consequência, uma grande parcela de felicidade, é pulsante no peito daquele que vive essencialmente disso. Mas, sabe que, eventualmente, quando não vivermos mais, as nossas palavras hão de perpetuar por aqui – então, é bom que esse bloqueio trate de passar logo!

À bientôt!

Carla Mereles

Morena de cidade alemã, tem na escrita a sua maior liberdade. Além disso, tem inquietação por tudo o que parece fora do lugar – ou num mesmo lugar há muito tempo. Crê na força das palavras, no poder catalisador da música (em especial a quem a faz) e, principalmente, na força sinérgica das pessoas. Gosta de ouvir e contar histórias, sempre que pode está na/pega a/bota o pé na estrada e deseja um dia ter a sabedoria em bem enxergar o mundo.

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