Tigres na praia

 

Um grande gato cômico rabiscado em folha A4, com vivos olhos verdes de giz de cera.

“Você tem um gato? Ou um gato te representa, talvez? O que você quer dizer com isso?”

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Foto: http://www.dogster.com/

A tarefa era desenhar alguma coisa que nos representasse, qualquer que fosse o limite de nossos dons artísticos. E o autorretrato campeão da rodada foi o tal do gato, tão inesperada que era sua sutil genialidade. Eu não estava lá — e os olhos dele talvez nem fossem verdes —, mas foi assim que me contaram, e assim entendi a história.

“Não, olha só”, disse o autor do desenho, que logo apontou para as palmeiras e a areia, que serviam de cenário ao gato com traços igualmente caprichados. “Ele está numa praia, percebe? E não é um gato, na verdade. É um tigre. Um tigre na praia. Veja, a praia não necessariamente significa alguma coisa em particular, e o tigre também não precisa ser bom ou mau. Ele apenas está desambientado, porque praias não são o habitat natural de tigres. E é assim que me sinto: um tigre na praia. Meio fora do lugar onde deveria me encontrar”, explicou.

Se estivesse lá na hora, eu teria me levantado para ir dar um abraço no jovem. Sempre esperei que alguém fosse colocar isso dessa forma, tão claramente.

Sabe como é? Ele tinha em mãos só um desenho, mas era como se tivesse dito aos expatriados, párias, revoltosos, saudosistas, adolescentes, aos inconformados e à almas presas que sonham com a liberdade figurada de alhures: vocês são — ou nós somos — todos tigres na praia, sonhando acordados com reluzentes olhos verdes.

***

Bastante tempo depois, viemos parar no terraço do prédio, onde fica o para-raios — e onde, em tese, não deveríamos estar. Charlotte se deita, restando a ela somente o céu no campo de visão.

Hoje foi um dos poucos dias em que desejei de ser algum grego antigo a inventar constelações, ao menos para poder contar a ela que sei reconhecer alguma. O céu está absurdamente estrelado, como se precisasse parear a lua cheia, mas não sei distinguir nada além do Cruzeiro do Sul e Marte (ou Vênus, não tenho certeza).

“Acho que vocês todos deveriam vir aqui também”, diz Lotte, quase como quem dá um comando. Deitamo-nos de imediato no cimento frio sobre 10 andares de vazio e miramos o céu, ironicamente ansiosos pelo clima de contemplação que está instala de súbito no rolê.

“Sabe, a primeira coisa que me explicaram, quando eu era criança e perguntava o que acontece quando a gente morre,” — e Lotte não desvia o olhar do céu noturno — “é que viramos estrelas.”

Eu a encaro por alguns momentos, só para ver se ela me devolve o olhar, mas não tenho sucesso.

“Aí quando eu olhava para uma noite tipo essa”, recomeça, “eu via um grande oceano calmo, cheio de vidros de conserva com velas acesas dentro, boiando na água como pequenos faróis de esperança e memória. Eu via meus parentes perdidos, mas era bom. Aliviava a saudade”. Fitando-a, não soube ao certo se era um suspiro, uma confissão ou uma anedota despretensiosa, e perdi a deixa de dizer alguma coisa nessa hesitação toda.

Ficamos em confortável silêncio. O silêncio, afinal, também faz parte da conversa.

O “Apanhador Só” que tocava naquele momento em um dos smartphones ia dando a deixa do fim do dia, e a brisa bem gelada de meia-estação nos coagia a logo querer ir embora. O cenário e as companhias, por outro lado, nessa beleza incomensurável que só as coisas espontâneas sabem ter, nos instigavam a ficar.

Esse luar, afinal, realmente bota a gente comovido como o diabo.

Quase nesse momento alguém ali tenta fazer uma foto, e em seguida uma “selfie”, embora não se consiga que qualquer das duas saia direito. Desse dia não haverá fotos, e talvez seja esse o, quiçá, único problema da espontaneidade. Para sobreviver, os verdadeiros relicários da memória precisam de histórias, tal qual essa, da morte e das estrelas.

“Sabia que estrelas também serviam de orientação nas antigas? Como um mapa, quase”, eu digo.

“Ainda servem, não?”

“É, servem. Verdade.”

Tornamos a deitar.

Se estivesse na posição de inventar constelações, eu certamente traçaria um tigre na praia, de forte brilho e bem no meio do firmamento que se vê do hemisfério sul. O “Tigre na Praia” seria a principal constelação, e seria um tigre enorme, aliás. Ele sempre nos lembraria, nas noites estreladas, de sentir saudade de momentos que ainda não vivemos, e nostalgia de quem ainda não nos tornamos.

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Foto: Tumblr

 

Lotte possivelmente lê pensamentos, porque nessa hora ela finalmente devolveu o olhar.

“Pô, vê só esse lugar onde a gente tá agora. Era exatamente disso que eu estava falando antes”.

Gosto de como ela pontua o começo das frases com esse “” meio idiossincrático, e sorrio em assentimento.

“Como assim?”

“Então, esse é um daqueles momentos de que eu sempre senti falta, mas nunca soube porque não tinha motivos para imaginá-lo. Sabe como é? Talvez sempre quisesse estar aqui, mas nem sabia.”

Entendo perfeitamente. Suspiramos.

O tigre na praia fora útil ao mostrar o caminho — e os olhos verdes reluzem, mesmo no escuro.

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João Vítor Krieger

João Vítor Krieger

Catarinense de sotaque meio vago e de 1992, gosto de cartões-postais, meios termos e de estar sempre com meu ukulele e uma gaita a tiracolo. Uso meu tempo tentando dar bom uso ao meu diploma de bacharel, voluntariando em alguma causa, e escrevendo histórias mais ou menos inventadas a cada duas terças-feiras aqui no Uma Boa Dose. Sonho em viver em um mundo onde as pessoas não achem o alemão um idioma tão feio assim, e onde Assunção esteja sempre a 15 minutos de casa.
João Vítor Krieger

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Sem comentários

  • Gabriela Sievert 28/04/2014   Reply →

    Faz muito sentido…

  • Ramon 26/06/2014   Reply →

    Várias vezes, sinto-me um “Tigre na Praia”. O que difere, no meu caso, é que o tigre é cego, surdo, mudo e paralítico. Ou seja, está onde não deveria ser encontrado e parece – devdo às suas limitaçõs – que jamais sairá de lá. Sem ver a praia, se ouvir o mar, sem poder berrar “Socorro”, sem poder, ao menos, correr e caçar. Espero que aquilo que o alimenta e o mantém vivo continue…

    Abraços a vocês, João e “Charlotte” 😉

  • Mayara Floriani 29/08/2014   Reply →

    “Não, olha só”, disse o autor do desenho, que logo apontou para as palmeiras e a areia, que serviam de cenário ao gato com traços igualmente caprichados. “Ele está numa praia, percebe? E não é um gato, na verdade. É um tigre. Um tigre na praia. Veja, a praia não necessariamente significa alguma coisa em particular, e o tigre também não precisa ser bom ou mau. Ele apenas está desambientado, porque praias não são o habitat natural de tigres. E é assim que me sinto: um tigre na praia. Meio fora do lugar onde deveria me encontrar”, explicou.

    Esse é o tipo de paragrafa que me faz parar e pensar, não sei exatamento no que, mas faz refletir. Aliás, Charlotte é incrivel.

Degustando...