éssipê

Sentada, frente a uma mala verde de tamanho médio e com um espresso puro na mão esquerda, eu estava com a cabeça longe. Meu pai, que aguardava ali comigo, olhou para o relógio, se levantou e, neste momento achei que ele iria soltar um sermão paroquial e cheio de conselhos, mas em vez disso ele só olhou fundo nos meus olhos e disse: “Se cuide, minha filha”. Deu-me um beijo na testa e foi trabalhar. E eu ali fiquei, com as mãos suando, o coração batendo forte e um sorriso de orelha a orelha; o motorista chamou “passageiros da TAM!”, e era hora de ir.

Na rua, no ônibus e no metrô ninguém observou como eu me vestia, tentou espiar a marca da minha bolsa ou qual era o celular que eu segurava; ninguém estava nem aí para o que ninguém fazia ou deixava de fazer, para o que ninguém vestia, deixava de vestir, pra qualquer coisa nem para nada. Em absoluto, ninguém estava nem aí para ninguém. Então percebi estar num lugar onde ninguém me conhecia nem fazia ideia de como eu me chamava; onde eu não iria esbarrar com ninguém que me conhecesse – as probabilidades eram mais do que mínimas – e não havia ninguém tomando conta de mim além de mim. Eu estava sozinha e, ao finalmente perceber isso, medo e angústia se alastraram subitamente pelo meu corpo inteiro como um calafrio. Pois, creio que pela primeira vez na vida eu entendi Dorothy perfeitamente e assim como ela fez, eu fiz, e disse a mim mesma “we’re not in Kansas anymore”.

IMG_0432

linha vermelha (foto da autora).

São poucas coisas na vida das quais eu lembro bem, são escassos os acontecimentos que considero grandiosos e que tenham me mudado e marcado tanto, porém, aquilo que lembro é deveras significativo. Muitas pessoas lembram do seu primeiro salário, do primeiro beijo, do primeiro carro, da primeira bebida ou de uma primeira experiência ímpar que as tenha transformado de alguma forma, pois, eu vou sempre lembrar da primeira vez em que realmente tomei conta do meu próprio nariz. Afinal, é um legítimo tapa na cara perceber que se está crescendo, criando responsabilidades e deveres seus, e que aproxima-se cada vez mais de uma emancipação espiritual, emocional,  financeira e legal (!) nesse processo que chamamos de amadurecimento, e isso sim é algo extremamente importante na minha vida. Não é fácil, rápido ou simples do jeito que eu achava que seria, contudo, não é menos empolgante ou maravilhoso. Floresce agora a ideia de saber que sou eu por mim e que esse é apenas o início de toda uma vida tida como sendo eu a dona do meu próprio nariz: it sounds great.

E de todos os destinos, de todos os cenários, tinha que ser São Paulo. Linda, cinza e imprevisível. Eu e meu amigo e anfitrião fomos ao Centro da cidade, no horário do rush, e ali mora a sensação de ser o lar de tudo; onde todos estão e onde tudo acontece. As pessoas correndo contra o tempo para alcançar o trem a tempo, e quando nele entram, se deparam com outras pessoas, cansadas, com olhos baixos, algumas dormindo, outras lendo, mas pouquíssimas pessoas conversando. E ao emergir das escadas subterrâneas, é como se descobríssemos um mundo paralelo àquele debaixo. Luz, correria, mas as pessoas genuinamente alegres, falantes e extrovertidas.

IMG_0305

do vigésimo andar (foto da autora)

Depois de uma bela caminhada por Higienópolis, pegamos as bicicletas da cidade e saímos pra um rolê deveria ter durado uma hora, e acabou durando duas e meia. Passando pelos mais distintos becos do centro da cidade, a realidade caiu em meus ombros como uma âncora, e aquela frase ecoava na minha cabeça, we’re not in Kansas anymore, we’re not in Kansas anymore, we’re not in Kansas… Pela Praça da República, a arquitetura belíssima, a mais antiga de São Paulo, não conseguia esconder a boca do lixo em que se transformaram suas ruas. Usuários de droga aos montes, e amontoados, raquíticos, com olhos tristes e de sofrimento, olhos que gritavam por ajuda, por socorro, por uma mão que lhes amparasse – ao passo que a outra mão acendia um cachimbo. Na Rua Augusta, as luzes penduradas pelas árvores, cruzando as calçadas em zigue-zague trazem uma atmosférica natalina eterna àli. Andávamos com a bicicleta em uma velocidade serena para que ouvíssemos as risadas, as conversas e as músicas nos bares que se estendiam rua afora.

Dadas 21h no relógio, subimos no Minhocão – Elevado Presidente Costa e Silva – e tudo o que restava a fazer era pedalar e sentir a brisa gelada no rosto, enquanto a cidade observava de perto o que seria, talvez, a minha mais próxima sensação de liberdade. Não imaginava que tantas pessoas saíam à noite para o elevado, e me surpreendi à beça! Famílias inteiras caminhando, andando de bicicleta, de patins, skate, correndo ou simplesmente dando um rolê diferente. Um paredão de prédios pelos lados, onde as pessoas viviam suas vidas, seu cotidiano, sua rotina normalmente enquanto dezenas de pessoas olhavam pela janela da sua sala de tevê. Em São Paulo, isso é possível e acontece; tudo é normal.

IMG_0361

foto da autora).

IMG_0352

(foto da autora).

IMG_0345

(foto da autora).

Sábado começou com uma bela companhia para o café-da-manhã na Bella Paulista, com direito a café dobrado e um misto quente de proporções não-humanas – sério, ninguém consegue comer aquilo tudo pela manhã. Um dia lindo, céu aberto e o sol rachando na belíssima e cinza Avenida Paulista, salpicada de gente de todas as cores, de todos os tipos, de todos os gostos, de todas as variedades. A boa e velha passada na livraria Cultura que não poderia faltar, e se pudesse, teria ficado ali o resto do dia. Além do acervo invejável, o lugar é nada menos que fantástico. Ah, o pastel na Paulista não foi dessa vez, mas é preciso deixar registrado que, depois das 18h, uma das melhores coisas existentes ali é o bendito e clássico pastel que, na última ida com meu pai, pude saborear junto a um caldo de cana – fica a dica.

IMG_5305

mas nem tudo é cinza (foto da autora).

IMG_5280

Foto da autora.

IMG_5279

“Pastel da Paulista, MEU!”. (foto da autora).

Dentre todas as nuances, os problemas, as belezas, as diferenças, as simplicidades, os esplendores, digo que não existe lugar como São Paulo. Não existem pessoas mais atenciosas, cuidadosas e felizes em ajudar a qualquer um como ali. Não existem bares e ruas como as de São Paulo, nada como o pão na chapa dali, assim como não tem nada como o sotaque dali, nada como o povo – povão! – dali, como não tem qualquer outra individualidade paulista em qualquer outro lugar do planeta; São Paulo é o mundo e o Brasil de inúmeras e imbatíveis maneiras. Não escolheria nenhuma outra cidade para começar de verdade a minha vida. The future looks bright, e muito em breve espero poder chamar essa imensidão cinza de lar. Até breve, éssipê!

IMG_5257

merci et à bientôt! (foto da autora).

 

 

Carla Mereles

Morena de cidade alemã, tem na escrita a sua maior liberdade. Além disso, tem inquietação por tudo o que parece fora do lugar – ou num mesmo lugar há muito tempo. Crê na força das palavras, no poder catalisador da música (em especial a quem a faz) e, principalmente, na força sinérgica das pessoas. Gosta de ouvir e contar histórias, sempre que pode está na/pega a/bota o pé na estrada e deseja um dia ter a sabedoria em bem enxergar o mundo.

Experimente também

Sobre viajar e observar pessoas

Por Uma Boa Dose

  – por Marianna Pacca, autora do blog Segredos de Viagem   Existem milhares de listas que enumeram os principais […]

As Veias Abertas de Outros Lugares

Por João Vítor Krieger

Um rápido prelúdio: “brasileiros, para este lado!”, gritava como orientação alguma funcionária de Guarulhos. “Non-Brazilian citizens to this side, please!” […]

Degustando...