A dor do outro

Entre um cigarro e outro, d. Elena olhava pra frente, com os olhos pairando ora no copo de café, ora em mim. E como eram doídos, aqueles olhos.

“Não é fácil perder um filho, viu, minha linda?”, disse com voz rouca e despretensiosa enquanto tragava.

Esse não é esse exatamente o tipo declaração que você espera ouvir em um dia de home office. Olhei para os meus pés machucados calçando um par de Havaianas procurando uma resposta, mas só encontrei a consciência do frio batendo forte nos dedos do pé. Maldito frio.

“Não sabia que a senhora tinha outros filhos, d. Elena… O que houve?”, balbuciei, ainda encarando meus pés, meio sem saber o que dizer. Por um instante, até esqueci do motivo pelo qual desci pra cozinha, mas a fome sutilmente grunhuiu na minha barriga. Abri a geladeira procurando por leite e, inconscientemente, por um esconderijo.

“Tive quatro filhos. Dois morreram” – e riu, uma risada amarga e sarcástica de quem já aguentou um bocado da vida. “A menina morreu novinha, sabe, minha linda? Com 14 anos, assim que eu vim pra São Paulo. Ela teve tuberculose. Foi o primeiro filho que eu perdi”, relembrou, deixando escapar leves traços de uma fragilidade tímida, que se escondia por trás do seu rosto sempre firme.

“O outro menino morreu de acidente. Faz três anos. Assim que o Joãozinho chegou porque, você sabe, o Joãozinho não é meu filho de sangue, a mãe dele trabalhava no salão aqui comigo, teve um caso com esse homem, sabe, minha linda, e não quis o bebê. Deixava ele o dia inteiro sem comer num hotel qualquer, imagina, o coitadinho o dia inteiro sozinho”, disse, com uma naturalidade quase assustadora.

“Não sabia que o Joãozinho era adotado, d. Elena”,  e, dessa vez, deixei os chinelos e a encarei nos olhos.

“Foi ele quem me salvou, minha linda. Se não fosse o Joãozinho… Ah, se não fosse ele, eu nem sei o que seria, viu. Tenho que pedir pra Daniela limpar melhor o banheiro e comprar sacos para o lixo. Não ficou bom essa semana.”, e me perguntei se d. Elena ainda estava me escutando ou sequer notando a minha companhia.

D. Elena intercalava confissões e tarefas do dia-a-dia, como se, ao lembrar em voz alta das atividades por fazer, pudesse sair daquele passado que lhe pegou desprevenida no meio da tarde de uma quarta-feira cinza.

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Foto: Pinterest

E eu, que não entendia nada aquela dor, apenas balançava a cabeça em respeito à sua história. Afinal, como entender o coração de uma mãe que perdeu dois filhos? Que dor alguém, aos 23 anos, pode ter vivido que pudesse ser comparada à dor de perder algo que veio de dentro de você, a quem você doava com o mais puro amor? Enquanto me questionava mentalmente, peguei uns biscoitos no armário para acompanhar com o leite quente com chocolate.

“A Daniella vem aqui amanhã e vai limpar melhor o banheiro pra você, ok, minha linda?”, repetiu. “Não sei, não… Esse menino, do acidente, era o mais próximo de mim. Mãe não tem essa de filho preferido, a gente ama tudo igual, sabe? Mas tem sempre aquele mais agarrado. A vida da gente é muito doida”, contou, já tragando um segundo cigarro.

 

E, de súbito, D. Elena se levantou, como se de repente tivesse se dado conta das confissões inesperadas que acabara de fazer para uma semi estranha, locatária de um dos quartos da sua casa, que servia de pensão em uma rua mal iluminada da Lapa.

Eu carregava um prato de lanche para levar para o quarto quando Joãozinho apareceu na porta e me pediu para comer uns biscoitos. “Qu’é isso? Parece bom. Eu quero isso, me dá?”, perguntou.

Enquanto apanhava uns cookies para dividir com ele, vi, de rabo de olho, um sorriso desbotado no rosto da d. Elena, que observava de longe o seu caçula com covinhas sorridentes e puras de quem não conheceu dor na vida ainda.

E como eram puras, aquelas covinhas.  Covinhas de um pequeno milagre de quarta-feira.

Bruna Estevanin

Bruna Estevanin

Bruna é uma jornalista inquieta que adora ouvir histórias e nunca recusa um convite para jogar baralho. Acredita mais em ações que em palavras e as pessoas que enrubescem quando estão envergonhadas são as suas favoritas. Nas horas vagas, ela inventa teorias sobre comportamento humano, rabisca uma ideia e outra e coleciona guardanapos.
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