Imagem: Google

Por que algumas palavras são intraduzíveis?

“Hygge” é uma palavra dinamarquesa sem tradução. É tão intrínseca à cultura nórdica que, para explica-la, seria necessário dar um mergulho no que os dinamarqueses pensam, no que consideram como valores pessoais e como eles agem em sociedade. Traduzindo, de forma precária, “hygge” significa um momento aconchegante, com pessoas queridas, boa comida e bebida, sempre associado à conforto, bem-estar, relaxamento e paz interior proporcionada pela companhia de amigos. “Hygge”, para eles, não é um mero adjetivo, mas um estilo de vida, e sempre me pego tendo dificuldade de traduzir esse sentimento quando me perguntam o que é.

Transpor estrangeirismos e explicar expressões nossas para gringos são tarefas hercúleas, quase impossíveis, que sempre me intrigaram. Por que não conseguimos traduzir algumas palavras? E, se conseguimos, por que ela não parece ter o seu sentido completo como acontece no idioma de origem?

Pensando sobre o assunto, achei algumas possíveis explicações:

1. Nossa língua define a maneira como vemos o mundo
Quando estudei linguística na Dinamarca, na mesma época em que aprendi o que era “hygge”, fui apresentada a um estudo muito interessante que mostrava como a nossa língua afeta a nossa percepção. Em uma determinada tribo africana, existem palavras distintas para diferentes tons de verde, mas nenhuma palavra para descrever a cor azul. Os membros dessa tribo conseguem distinguir tons que nós, aqui no Brasil, jamais conseguiríamos simplesmente por não termos palavras para os mesmos, contudo, são incapazes de notar a diferença entre, por exemplo, o verde e o azul, já que não aprenderam, linguisticamente, a “compreender” essa cor.

Isso mostra como a estrutura da língua que a gente fala, especialmente a da nossa língua materna, afeta diretamente nossos processos cognitivos – visão, tato, cheiro, sentimento, a maneira como a gente pensa e articula as ideias… Ou seja, muitas vezes não conseguimos traduzir uma determinada palavra de outro idioma ou entender seu significado com plenitude porque, além de não termos um correspondente na nossa língua nativa, quando aprendemos a falar, nosso cérebro não foi “treinado” para reconhecer intuitivamente e inconscientemente um significado parecido.

2. Nosso vocabulário limita (ou expande) nossa capacidade de pensar
Essa explicação não é nenhuma novidade: George Orwell anunciou isso em 1949 quando escreveu “1984”. Saussure também, quando esboçava os primeiros passos da linguística. A nossa língua limita e, ao mesmo tempo, liberta a nossa forma de pensar, de compreender ou mesmo enxergar o mundo. Quanto mais palavras conhecemos, quanto mais vasto é nosso vocabulário e quão melhor conseguimos nos expressar, maior é o alcance no nosso cérebro, nossa capacidade de refletir, de criar o novo e de questionar o que já existe.

O inverso também se faz verdadeiro: quanto mais você restringe uma língua, mais você restringe o poder das pessoas de pensar de forma autônoma. Atrofiar o vocabulário significa atrofiar as ideias e, no caso de um segundo idioma, por conhecermos menos dele, nossas possibilidades de raciocínio acabam, por consequência, ficando limitadas. Assim, na ausência de um significante, carecemos também de um significado.

3. Cada um tem uma memória discursiva diferente
Para explicar essa parte, vamos voltar um pouco no tempo. Tente se lembrar de um momento específico da sua infância. Pode ser um cheiro, uma festa de aniversário antiga, uma música… A lembrança que escolhi foi o meu primeiro cachorro de estimação. Ela se chamava Lana, era uma linda cocker-spaniel preta e branca que logo adoeceu e, infelizmente, três semanas foi todo o tempo que tivemos juntas. Fato é que, por ter vivenciado isso, por morar no Brasil, por ter vivido minha infância em determinadas condições, em uma determinada cidade e dentro de uma determinada família, todas as vezes em que escuto a palavra “Lana”, meu cérebro automaticamente cria um atalho e associa à memória que eu tive com a minha cachorrinha. O mesmo vai acontecer com a lembrança de infância que você escolheu. Em uma explicação bastante simplória, é isso que a linguística chama de “memória discursiva”: toda vez que lemos um texto e nosso cérebro assimila, aos poucos, as palavras, temos, para cada uma delas, uma produção imediata e inconsciente de sentido baseada em tudo que já vivemos e no nosso repertório cultural.

Por isso, um mesmo texto pode ter significados tão diferentes, inclusive para falantes da mesma língua. Nossa cultura sempre nos trai e uma palavra nunca vai ser a mesma para todo mundo, especialmente quando se trata de um idioma estrangeiro: o nosso “cool” nunca vai ser o mesmo “cool” de um americano, que nunca vai ser o mesmo “cool” de um inglês. Não porque não somos suficientemente fluentes, mas pelo simples fato de que temos memórias discursivas distintas.

 

 

Depois de refletir sobre todos esses pontos, cheguei a conclusão de que todas (e não só algumas) palavras são intraduzíveis, mas isso não impede a gente de tentar entender os outros melhor, afinal, falando, verbalizando, escrevendo, compreendemos um pouco mais do mundo e de nós mesmos. E, já que não vamos mesmo conseguir explicar ao pé da letra todos os nossos pensamentos, fica de lição de casa/curiosidade um site bem legal com algumas expressões estrangeiras que, I wish, bem poderiam existir em português.

À bientôt!

Bruna Estevanin

Bruna Estevanin

Bruna é uma jornalista inquieta que adora ouvir histórias e nunca recusa um convite para jogar baralho. Acredita mais em ações que em palavras e as pessoas que enrubescem quando estão envergonhadas são as suas favoritas. Nas horas vagas, ela inventa teorias sobre comportamento humano, rabisca uma ideia e outra e coleciona guardanapos.
Bruna Estevanin

Últimos posts por Bruna Estevanin (exibir todos)

Experimente também

In TED we trust

Por João Vítor Krieger

Tenho uma bandeira de Berlim ocupando uma boa fração da parede marrom do meu quarto, bem ali onde ficam também […]

Conversas com Galeano

Por Bruna Estevanin

  Nossa primeira conversa foi em 2010. Nos esbarramos entre as estantes da Saraiva, ainda em Juiz de Fora, em […]