Ritmos de nostalgia

Ana aprendeu os primeiros acordes quando tinha 13 anos. Tinha aulas toda quarta-feira por um preço que parece mentira quando comparado às mensalidades das escolas de música do Rio de Janeiro. Durante quatro anos e meio, por 30 reais ao mês, Ana levava seu corpo preguiçoso até uma casinha nos fundos de uma rua tímida da cidade de seus pais, tentando aprender violão.

Tocar nunca foi fácil. Seus dedos curtos não alcançavam as notas e os exercícios de flexibilidade eram um desafio à procrastinação crônica da pré-adolescência. Logo, Ana descobriu que era mais divertido passar a tarde sonhando acordada que treinar arpejos que soavam quebrados e esquisitos. Mais tarde, não muito tempo depois, ela entenderia que é muito menos arriscado investir em música que em expectativas.

 

Sim, tocar nunca foi fácil e nunca foi um dom, mas foi onde Ana encontrou refúgio e, por muitos anos, ninguém soube lidar com a sua confusão particular tão bem quanto aquelas cordas baratas e aquele violão meio empenado.

 

Fazia tempo que ela não pegava nele. Ele ficava pelos cantos e, quando visitava os pais, arriscava uma música ou outra. Dessa vez, o instrumento ali, parado, lhe parecia mais convidativo que nunca.

 

lala

 

Com gestos tímidos, ela pegou o violão e desbravou alguns acordes. Em pouco tempo, já estavam íntimos de novo. O violão tocava ritmos de saudade e, das suas cordas, não saíam sons, mas nostalgia.

 

Dó, ré, milhões de notas e sentimentos juntos. Fá, Sol, Si e lá dentro existia mais outros tantos guardados, esperando, impacientes, virar música. E Ana tocou todos eles, aos pedaços, em versões curtas, mas profundas e sem chão. Arriscava, vez ou outra, umas notas cantadas, bem baixinho, em soprano e sustenido, porque ela era assim – não sabia ser bemol.

 

Ana levantou os olhos do violão quando seu pai apareceu na porta, como plateia silenciosamente orgulhosa e presente, como sempre foi:

 

– Olha, ela ainda sabe tocar – e sorriu – , tá um pouco fora de prática, mas sabe.

 

Ana sorriu de volta com os olhos e tocou, com o pai assistindo, mais uns quinze minutos até deixar o violão encostado na parede, no seu pedestal habitual. Naquela tarde, o violão tocou tudo, menos música. E, depois da última nota, por lá ficou, guardando as memórias e toda a saudade de Ana com ele.

Bruna Estevanin

Bruna Estevanin

Bruna é uma jornalista inquieta que adora ouvir histórias e nunca recusa um convite para jogar baralho. Acredita mais em ações que em palavras e as pessoas que enrubescem quando estão envergonhadas são as suas favoritas. Nas horas vagas, ela inventa teorias sobre comportamento humano, rabisca uma ideia e outra e coleciona guardanapos.
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