Foto: Tumblr.

Nua e crua

Dependo da cafeína parar ficar acordada, gosto de dias de frio com sol morno e estalo os dedos quando estou muito concentrada. Tenho TPM, pontas duplas, mordo os lábios quanto estou nervosa e sempre aparece uma espinha no meio da testa antes de uma festa. Tenho uma prateleira de livros não-lidos e não consigo encontrar tempo para lê-los; gosto de acordar cedo, mas coloco o despertador no “soneca” pr’aqueles cinco minutos a mais sob as cobertas. A rotina me entedia, escolho as seções de jornal que leio e não assisto à tevê.

Posso ficar por horas na companhia de apenas um violão, ouvir o mesmo álbum por dias e a mesma banda por meses a fio. Em contrapartida, fico semanas com músicas ruins na cabeça. Não entendo bem a gravidade e tenho medo de palhaços. Sábados chuvosos me dão sono, domingos ensolarados são uma bênção e segundas-feiras são dispensáveis. Tenho a disposição de uma pessoa de noventa anos, mas também a de uma pessoa de dez, e elas oscilam constantemente. Adoro fazer trilhas, mas subir o morro de casa às vezes parece ser impossível. Sempre fui meio menina-moleque, gostava de usar calça jeans e camiseta branca e era uma briga colocar um vestido em mim. Chegava da escola suja de lama e brigava para entrar no banho tanto quanto brigava para sair dele. Hoje, acho que usar salto alto é um inferno e ainda não gosto de cor-de-rosa. Aprendi a gostar de usar vestidos com o tempo e ainda tô tentando deixar o conforto do tênis de lado.

Resultado de uma criança - que não gosta de usar rosa - usando rosa.

Resultado de uma criança – que não gosta de usar rosa – usando rosa. (Detalhe: a bicicleta jogada). (Foto da autora).

Sou chata pra gostar e confiar em pessoas, pouco me emociono, mas tenho grande compaixão por pessoas com almas incompreendidas. Acho que há incontáveis lados sobre uma mesma verdade, cada um de uma perspectiva diferente – já mostrara Veríssimo em O Resto É Silêncio. Creio que não vivemos no preto e branco; não é tudo tão simples nem tão fácil nem tão claro. Não sou facilmente compreendida quanto ao modo que vejo a vida, mas isso não me incomoda, não. Não suporto o desrespeito, falta de educação e discriminação. Sou tinhosa, cabeça-dura e teimosa, mas tento melhorar como amiga, filha, mulher e pessoa.

Gosto de gente de bem: gente que prefere compartilhar boas doses de felicidade a falar mal de conhecidos, que se contenta com apenas a companhia e boa  conversa numa tarde de domingo, gente que gosta de estar junto; gente que faz e não fica esperando por algo sentada no sofá, gente que se doa pra vida e não tem problema algum nisso, gente que vê além do que está na sua frente.

Aleatoriedades à parte, esses fragmentos desenham o que todos deveríamos pensar quando acordamos: nós somos nós mesmos, com nossas particularidades, nossos defeitos, nossas manias e nossas crenças – e isso é ser humano. Basta ser do jeito que se é, agir como se age e procurar ser sempre uma pessoa melhor – quanto a praticar o bem e espalhar coisas boas – e assim ser humano da melhor forma possível. E, além disso, jamais deixar com que ninguém tente retirar os quês da sua essência porque é nela, em toda a sua amplitude, que estão todos os pormenores que formam você.

Dias atrás disse, ou melhor, desenhou, Antônio (do Eu Me Chamo Antônio): “Quem vive pra morrer, não vive. Quem viver pra viver, morre. Mas morre com uma vida inteira para trás.”

À bientôt!

P.S.: Já que meus companheiros de Boas Doses estão inseridos no clima de dia dos namorados, que esta seja uma dica para maior durabilidade dos casais: sejam felizes, mas não depositem no outro a sua razão de felicidade e, acima de tudo, sejam vocês mesmos – e não abram mão disso por nada nem ninguém neste mundo.

Carla Mereles

Morena de cidade alemã, tem na escrita a sua maior liberdade. Além disso, tem inquietação por tudo o que parece fora do lugar – ou num mesmo lugar há muito tempo. Crê na força das palavras, no poder catalisador da música (em especial a quem a faz) e, principalmente, na força sinérgica das pessoas. Gosta de ouvir e contar histórias, sempre que pode está na/pega a/bota o pé na estrada e deseja um dia ter a sabedoria em bem enxergar o mundo.

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