Casas, amor e começos

Ela abriu a porta com a cautela de quem opera um bisturi. Os gestos, taticamente calculados, em nada lembrava as mãos estabanadas de sempre.

 

–       Abre logo, Sara. A maçaneta não morde.

–       Péra, Leo. Não é assim, né. Tô nervosa.

 

Entrou devagarinho e Leo seguiu atrás. Deixou o sapato no canto esquerdo da sala, sentindo o piso de madeira pela primeira vez. O contato direto transmitia uma sensação de calor e conforto. Ficou ali, de olhos fechados e brincando de mexer os pés no chão, pra ver se ele conduzia mais alguma outra sensação. “Casa”, pensou, sorrindo.

 

Leo foi mais prático. Foi direto para a cozinha verificar se o aquecedor a gás estava funcionando. Olhou também as portas dos armários e os vidros das janelas – uma casa nova não podia, não combina com estilhaços, cacos, nem destroços.

 

–       Tá tudo certo lá na cozinha. Prontinho pra gente – abraçou Sara por trás, que ainda pisoteava o chão descalça, em uma espécie de conversa muito particular como piso – o aquecedor também tá funcionando. Bom sinal, né?

–       Aqui é casa, Leo. Tô sentindo. Com os meus pés, com o coração inteiro. Tá sentindo também? – perguntou com olhos festivos, que procuram por nenhuma outra resposta senão confirmação e apoio.

–       Aqui é sim, gata. Nossa. Tá pronta?

–       Pra quê?

–       Vem cá – e puxou a mão dela, rodopiando.

 

Leo levou Sara para a sacada, ainda a abraçando por trás, e abriu os braços dos dois no alto. De frente, uma modesta quantidade de árvores observava a cena.

 

–       O mundo é nosso, Sarita! – gritou alto.

–       Que brega, Leo – zombou, rindo da imitação de Titanic.

–       É que as árvores estão falando, não ouve? Casa. Acabei de ouvir – zombou de Sara, que respondeu pisando prontamente pisando em cima do seu pé – Ai, mulher, seu pé é pesado!

–       Tem mais de onde veio esse – brincou, dando um beijo na bochecha de Leo.

–       A verdade é que eu tô bem feliz, Sara. Sério mesmo. Amo esse lugar e qualquer outro onde você esteja. Você é minha casa, entende? E aqui vai ser nosso cantinho. Pra tanta história, é quase um recomeço.

–       Concordo com tudo, menos com essa coisa de recomeço. Não existe recomeço. Você sabe disso, né? – perguntou, com uma expressão adorável de interrogação. Ela sempre arqueava demais a sobrancelha quando começava um embate de ideias ou uma discussão.

–       Claro que existe – Leo teimou – como não? As pessoas recomeçam todo dia. A todo o momento. A gente agora, por exemplo.

–       É bem simples. Não existe recomeço: existem começos, vários. Ninguém recomeça algo. Ela começa de novo. Entende? Um caderno, por exemplo.

–       Sim, um caderno. Você erra, apaga e recomeça.

–       Não, você começa de novo.

–       Mas recomeço não é a mesma coisa que começar de novo?

–       Não! Tá maluco? Olha, o caderno. Você escreve na página, seja de lápis, de caneta… Errou? Nem com borracha, com corretivo, rabiscando em cima, sei lá, o que for, nunca fica igual.  Recomeçar me soa sempre assim, escrever por cima de algo já feito e tentar fazer alguma coisa nova ali. E isso é impossível. Pela física, já que duas coisas não ocupam o mesmo lugar no espaço. E pela lógica, né – balançou veementemente a cabeça, em afirmativa, como se dissesse algo bastante óbvio e impossível de ser negado – Não é começo, nem recomeço, se não for, de verdade, novo. Mas daí, se você esquece a parte errada e pula pra uma próxima página, aí sim você tá começando um troço de novo. Uma coisa totalmente nova. É a palavra que me incomoda, entende? Onde já se viu recomeçar alguma coisa? Não tem disso não, só começo.

–       Sabe de uma coisa, cara? Você é doidinha. Inteligentemente doidinha. Loucamente genial. E, porra, Eu te amo – abraçou ela ainda mais forte, os braços já abaixados novamente depois de sua tentativa falha de DiCaprio ter sido reprimida.

–        Também, Leo. Demais.

–       Hm, alguma sugestão de onde a gente pode começar de novo?

–       Na sala? – perguntou, rindo

–       Sala it is.

 

Leo carregou ela no colo de volta pra dentro, um pouco sem jeito depois de ter carregarado tantos móveis, malas e, entre uma cueca suja e uma meia sem par, quatro anos de memórias felizes que os levaram até ali.

A narradora onisciente que aqui vos fala não sabe o que vai acontecer com Leo e Sara depois disso. Só sei que foram para a sala e a campainha logo tocou, os amigos do Leo trouxeram umas cervejas pra comemorar. Depois disso, é tudo branco. Não dá pra saber se vão casar aos 29, separar aos 34 ou se, seis meses depois, Sara engravide de gêmeos, mas aquela tarde (ah, aquela tarde) foi bonita, singela e inesquecível, como todos os bons novos começos devem ser – sem estilhaços,  sem cacos, nem destroços, e com o aquecedor da cozinha funcionando, pronto pra deixar o banho e o coração dos dois bem quentinhos por uns bons anos.

 

Bruna Estevanin

Bruna Estevanin

Bruna é uma jornalista inquieta que adora ouvir histórias e nunca recusa um convite para jogar baralho. Acredita mais em ações que em palavras e as pessoas que enrubescem quando estão envergonhadas são as suas favoritas. Nas horas vagas, ela inventa teorias sobre comportamento humano, rabisca uma ideia e outra e coleciona guardanapos.
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