Maço ou carteira

“Maço ou carteira?”, me pergunta o caixa do posto de gasolina.

Eu nunca sei a resposta dessa pergunta, ainda que fume ocasionalmente e compre sempre o mesmo cigarro. Peço o menor, mas ele responde confuso que os dois são iguais. O que muda é que um tem a caixinha diferente do outro.

“Maço ou carteira?”, ele pergunta novamente sorrindo.

Não sei bem o que responder. Tanto faz? Pode ser o de cinco reais, então. Ele ri e me entrega os cigarros com um isqueiro pequeno. Queria muito descobrir de onde vem essa vontade de fumar que tenho de vez em quando, bem pontualmente. Pego o troco e saio andando. Sempre achei que o maço fosse menor que a carteira ou sei lá. Não memorizei a diferença entre as duas coisas; provavelmente voltarei em algumas semanas (ou meses, quem sabe) e darei acidentalmente a entender de novo que estou os comprando pela primeira vez.

O dia está chuvoso em Florianópolis e uma bruma cobre toda a extensão do horizonte que consigo ver. Decido acender um dos cigarros e me misturar ao clima, envolvendo-me rapidamente em uma calmante nuvem de tabaco queimado. O gosto da fumaça me faz salivar, e logo sinto um rápido reflexo e um arrepio sobe minha coluna. Meu corpo agradece, apesar de saber aonde isso o leva.

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Fonte: Tumblr

***

Minutos antes, no caminho até a pracinha onde estou sentado, fui acompanhado no ônibus por um ilhéu grisalho e grande, que me perguntou se estava cheio o centro de compras de onde saí. Para o meio da tarde de um dia qualquer num feriado de 2014, estava, respondi. Ele filosofa: nos dias sem sol, há uma tendência de que se encham esses lugares.

“E aqui em Floripa, quando bate esse vento, dá dois ou três dias de chuva, não tem?” — me diz por dizer.

Tem, eu suponho. O vento vem do mar, ele me explica, e traz todas as nuvens carregadas de lá. Se tivermos sorte, bate um vento do nordeste e esquenta, ou bate um vento sul e limpa tudo, mas esfria. A conversa se prolonga: a previsão do tempo nunca consegue acertar os ventos, embora eles consigam com algum sucesso entender a posição das nuvens. A temperatura também costuma estar mais ou menos correta. O vento, não.

“Nos dias em que venta bastante”, ele aponta para a direita, “dá pra ver aqueles ciclonezinhos que aparecem quando tem ar quente e frio, sabes? Tem que ficar olhando pro mar. Eu já vi alguns”. Deve ser uma vista e tanto, penso.

 

“Aqui tem de tudo”, ele continua. “Tudo. Tudo o que quiseres de clima, tu achas”.

“Menos neve”, respondo por impulso, esquecendo do inverno passado na Palhoça ou no Morro do Cachorro.

“Acha sim, lá em São Joaquim”, ele diz sem pensar. “Nosso estado, Santa Catarina, é muito rico em belezas naturais. Cânions, cachoeiras, montanha, mar — tudo o que dá pra imaginar”.

Acho que ele supôs que eu fosse de algum outro estado.  Talvez gaúcho, como perguntou um lojista no dia anterior, por alguma razão que ainda não adivinhei. Olho para a água, agora que nos aproximamos da beira-mar, e volto-me para ele. Conversar sobre o tempo é não ter sobre o que conversar, como bem diz um amigo meu, mas essa é só uma introdução.

Ele indica com o dedo toda uma área à esquerda do ônibus, explicando que tudo aquilo era mar quando ele era criança. “Foi aterrado, não sabias?”, e eu não sabia mesmo. Estou entretido.

“Minha casa era ali, ó”, me conta apontando para os prédios na avenida e acompanho com atenção. “Eu conheci Floripa quando tinha três ou quatro prédios e mais um monte de casarão. Essa casinha amarela, por exemplo, não era da ‘associação dos amigos da praça’  — ou qualquer coisa que dissesse a pequena construção amarela de várias décadas atrás — era a casinha do esgoto. Saía tudo dali e canalizava pro mar, que era bem na frente quando não tinha o aterro”.

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Fonte: Tumblr

Meu guia acidental é uma grande companhia com seu excelente sotaque incomparável, mas vejo o meu ponto de referência na Beira-Mar e me lembro que tenho que descer. Faço menção de sair e ele se despede:

“Olha, bom feriado pra ti e para tua família, querido. Que venha o sol pra vocês aí!”, diz entusiasmado. Respondo à altura e desço.

Jogar conversa fora é sempre um grande prazer, visto o quão rapidamente se esquece do mundo nesses momentos. Os problemas se diluem na vida alheia. Saio do ônibus e me vejo sozinho. Na falta de companhia para o momento, fico terrivelmente entediado com a visão do posto de gasolina e de mais um shopping center ali por perto. Há poucas opções além dessa, porém. Hora de comprar cigarros.

 

***

Na direção da loja, a brisa gelada me traz de volta para a realidade. Por pouco, quase esqueço que tem jogo do Brasil mais tarde. Não consigo acreditar que já é junho, que já estamos no meio da Copa, no meio do ano, no meio da vida, e que tudo vai passando assim, meio sem cerimônia ou sem aviso. Parece que os dias se vão quase tão corriqueiros e banais quanto a mudança no tempo descrita pelo manezinho de Floripa que acabara de conhecer, ou quanto as lembranças da vida dele, jogadas ao vento daquela janelinha do ônibus e agora perdidas em algum canto da Beira-Mar.

É realmente muita vida para minhas retinas cansadas dessa rotina de Steinhaeger com cerveja. Quase nem percebo que já estou dentro da lojinha de conveniência do posto, contemplando marcas de cigarros e preços, demorando-me muito mais do que deveria.

“Oi, posso ajudar?”, pergunta-me o caixa, com sorriso prestativo.

“Oi, desculpa! Cigarros, por favor”, e nisso a vida desacelera um pouco.

“Maço ou carteira?”

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João Vítor Krieger

João Vítor Krieger

Catarinense de sotaque meio vago e de 1992, gosto de cartões-postais, meios termos e de estar sempre com meu ukulele e uma gaita a tiracolo. Uso meu tempo tentando dar bom uso ao meu diploma de bacharel, voluntariando em alguma causa, e escrevendo histórias mais ou menos inventadas a cada duas terças-feiras aqui no Uma Boa Dose. Sonho em viver em um mundo onde as pessoas não achem o alemão um idioma tão feio assim, e onde Assunção esteja sempre a 15 minutos de casa.
João Vítor Krieger

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