Do pó e sonho solúvel

O relógio na parede da cozinha marcava sete e vinte e dois quando Luísa levantou da cama. As curtas e desejadas férias de meio período chegaram, mas seu corpo já estava acostumado com os horários matinais das aulas de mestrado. Aproveitou o tempo longe das atividades acadêmicas para visitar a vó e o irmão no Brasil. Já fazia dois anos que Luísa tinha se mudado para Michigan, para estudar Biologia Molecular. Levou consigo duas malas cheias, uns livros para ler, muita saudade e uma bolsa de estudos generosa e devidamente merecida.

Levantou-se devagar, com preguiça do seu próprio corpo sem sono, e se dirigiu à cozinha. Passou pelo corredor que levava à escada ignorando os porta-retratos na parede, que emolduravam memórias douradas da sua infância. Nos dois primeiros, à esquerda, Luísa estava rodeada pelos primos do interior de Minas Gerais. Nos do meio, Luísa e seu irmão Alfredo eram abraçados pelos pais. Luísa evitava olhar para as fotos em que seus pais apareciam. No último verão, um acidente de carro fatal  deixou a família partida ao meio ao contrário dos porta-retratos, que continuavam intactos e inabaláveis na parede do corredor.

No último trecho, um série de fotografias da infância de sua avó tornavam a caminhada mais leve e tolerável. Ela era um tanto bonita quando jovem e, embora a idade lhe tenha roubado um pouco da saúde, sua beleza e mente perspicaz pareciam intocadas pelo tempo.

Já no primeiro degrau da escada, Luísa sentiu o cheiro de café fresco no ar. Não dos industrializados, instantâneos e em pó solúvel que acompanhavam suas noites de estudo em Michigan, mas um caseiro, feito com coador de pano, pó de café bem brasileiro e carinho.

cafe

Foto: Pinterest

“Bom dia”, disse, dando um beijo no topo da cabeça da vó e puxou uma cadeira para se sentar.

Dona Aurélia lia o jornal do dia e sorriu de volta para a neta. “O Fredo disse que chega hoje à noite. Ficou agarrado no trabalho e só vai conseguir sair hoje de tardinha”, explicou. Ela tinha um semblante calmo, desses que parecem conter toda a paz interior do mundo e não se abalam por coisa alguma. Alfredo tinha puxado à vó. Lembrava-se dos dois compartilhando uma dor serena no enterro dos pais enquanto ela desabava em prantos, no seu sentimentalismo exacerbado sem fundo e sem beiras.

“A gente podia fazer aquela torta de maçã com canela que ele gosta”, sugeriu, enquanto despejava um pouco de café na xícara.

“Claro, só preciso achar a receita. Sabe como é, filha, a memória já não é mais essas coisas quando a gente passa dos 70…”, disse com bom humor.  Dona Aurélia se levantou, apoiando-se sobre a mesa. Por conta da artrite recém-adquirida, os movimentos agora eram mais trabalhosos e os ossos, mais frágeis. Abriu a primeira gaveta do armário da cozinha, tirando um grosso livro de receitas de família lá.

Do lado de fora, o vento zumbia alto e uma corrente de ar gelada entrava pela fresta da janela. Luísa apreciava o café caseiro da vó como quem bebia, pela primeira vez, uma dose de licor bem trabalhado. Cortou umas fatias de broa de milho para acompanhar e acrescentou torradas com geleia de goiaba ao menu da manhã.

“Eu tava pensando…”, disse, entre uma golada de café e outra. “Eu me formo semestre que vem no mestrado, só falta terminar a tese. Pensei em aplicar pra algumas companhias de pesquisa em Boston, é perto de onde o Andrew trabalha. A gente tá planejando se casar em junho do ano que vem, assim que as coisas se estabelecerem”, falou com cuidado. Deu uma pausa até continuar o próximo assunto, observando o rosto da avó para ver suas reações. Como sempre, a serenidade impávida e frustrante não deixou transparecer nenhum sentimento que não fosse a calma. Ela sabia que a vó gostava de Andrew, mas desconfiava que não aprovaria os planos de se casar por lá. “O que a senhora acha de visitar os Estados Unidos? Já tá na hora, né, vó. O Fredo tá planejando uma viagem pra lá também com a Nina, acho que pode ser uma boa oportunidade para reunir todo mundo da família”.

Dona Aurélia não respondeu de imediato. Continuou concentrada no livro de receitas a procura da torta de maçã com canela, molhando a ponta dos dedos com um pouco de saliva antes de passar para a próxima página.

“Eu me lembro direitinho quando me casei com seu avô”, agora levantando os olhos do livro. “Eu tinha acabado de completar dezenove anos, veja só, antigamente era tudo tão diferente…”, com seus olhos, que pareciam ocupados por outros tempos e cenários, agora pairando perdidos na janela que tremia com o vento que vinha de fora. “A gente tinha tantos planos, Zinha”, que era como carinhosamente chamava a neta, “tantos planos que nem sei contar quantos eram ao certo. A gente queria comprar uma casa mais perto de Belo Horizonte e queria ter cinco filhos. Tivemos três e fico feliz que seu avô tenha ido embora antes de ver a Lalinha partir. Ele não teria aguentado, sempre foi do coração mole”, lembrou com um sorriso no rosto.

“Com o que mais vocês sonhavam, vovó?”, perguntou Luísa com curiosidade e cautela.

“Ah, filha, a gente sonhava muita coisa… Mas os tempos eram outros e sonho não era um troço que a gente tinha que conseguir, sabe? Na maior parte das vezes, os sonhos nasciam de noite e morriam no travesseiro de manhã quando a gente acordava. Não era igual hoje em dia. Os jovens sonham, os adolescentes sonham, se não viver o sonho que sonhou, é infelicidade na certa. Não tinha disso. Sonho era outra coisa, eram outros tempos, e a gente era feliz assim”, explicou.

Um tanto desconcertada, Luísa se mexeu na cadeira. Nunca havia parado pra pensar nisso, no quanto a realização dos sonhos era fundamental, admirável e imprescindível para que ela e seus companheiros de geração fossem felizes. Muito menos nos sonhos que seus avós e pais haviam abdicados numa época em que sonhar não era tão importante assim. “E dos seus sonhos todos, quais você teve de deixar pra trás?”, indagou.

“Eu queria ser dentista. Sonhava em ser dentista. Achava lindo aqueles sorrisos ‘tudo’ branco dos atores do cinema. Queria ser dentista, mas homem mal ia pro segundo colegial, imagina mulher entrar pra uma faculdade?”, brincou, e emendou uma gargalhada gostosa que se espalhou pela cozinha inteira. “A gente passa grande parte da nossa juventude sonhando com o futuro. Em alguma idade, a gente para. E passa o resto da vida sonhando com o passado…”.

Luísa e a vó ficaram alguns segundos em silêncio, pensativas,  cada uma digerindo à sua maneira as conversas profundas até demais daquela manhã.

“Eu acho que passo tempo demais sonhando, vó. Não quero chegar mais tarde e pensar que eu deixei um monte de coisa pra trás por que tava concentrada demais nos meus sonhos”, e uma rojada de vento soprou forte deixando os cabelos de Luísa pra trás.

“Ah, filha, isso é importante, mas os sonhos são importante pra gente também”, disse Dona Aurélia, enquanto prendia os cabelos da neta pra trás em um rabo de cavalo. “E eu, se você quer saber, também não quero ficar sonhando com o passado não. Já deu pra mim”, gargalhou de novo. “Acho que vou começar a me preparar pra ir para os Estados Unidos visitar minha neta. Tenho um casamento pra ir, uai”.

Luísa respirou aliviada com a aprovação da avó e sorriu, “tá, mas leva café daqui. E coador de pó. Você não vai gostar nadinha dos cafés de pó solúvel que tem por lá”.

Bruna Estevanin

Bruna Estevanin

Bruna é uma jornalista inquieta que adora ouvir histórias e nunca recusa um convite para jogar baralho. Acredita mais em ações que em palavras e as pessoas que enrubescem quando estão envergonhadas são as suas favoritas. Nas horas vagas, ela inventa teorias sobre comportamento humano, rabisca uma ideia e outra e coleciona guardanapos.
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