Post: Segredos de Viagem

A gente tem mania de achar a grama do vizinho mais verde, dizem meus pais, e por isso há uma certa desvalorização das belezas do nosso lar. O Brasil é um país riquíssimo em inúmeros aspectos e coleciona belezas, monumentos, paisagens e refúgios ao longo dos seus oito milhões e meio de quilômetros quadrados. Há quem prefira o litoral, as montanhas, o planalto do interior, as cidades… E o nosso Brasil tem tudo isso e mais um pouco!

Particularmente, sempre fui apaixonada por São Paulo. A partir do momento em que pude conhecer sozinha a cidade, o encanto ficou ainda maior e mais nítido – é uma cidade que abriga a todos, fala a língua de todos e faz dos mais diferentes tipos de pessoas, conterrâneos. Ela é cinza, bela, imprevisível e extremamente multifacetária.

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do vigésimo andar avistando Higienópolis. (Foto da autora).

Acho que todas as pessoas têm que ir à Pinacoteca, ao MASP, ao MIS (que sempre tem belas e inusitadas exposições), ao Museu da Língua Portuguesa, ao Museu do Futebol no Pacaembu, etc, etc, etc. São Paulo é repleta de lugares, points e must sees. A primeira parada obrigatória é na Av. Paulista para comer aquele pastel sensacional que só existe ali, acompanhá-lo com um caldo de cana e ficar observando a movimentação das pessoas que correm dos trabalhos para outros trabalhos o tempo todo. Se perder na Livraria Cultura também não é nada ruim, muito menos tomar um café na Bella Paulista. Agora, e o rolê que ninguém faz?

Na minha última visita a SP, um amigo meu queria que eu conhecesse de perto e de verdade a cidade que ele conheceu, ou seja, que eu andasse por ali, enxergasse como a cidade realmente é, como as pessoas são, onde a vida ali acontece. Assim, decidimos por um rolê de bike no Centro (as bikes da cidade funcionam muito bem e são fáceis de alugar); percorremos todo o Centro da cidade até ir para o Minhocão, que fecha o tráfego de carros às 21h e funciona como uma espécie de parque e pista para as pessoas que correm, caminham, andam de bike, patins e afins. Vale a pena!

Passamos por inúmeras ruas, viadutos, casas, pessoas, apartamentos. Vi muitas coisas que me agradaram – gente feliz e rindo, fazendo roda de samba na praça (onde aproveitei para me enturmar), comendo pastel e bebendo cerveja nos bares, gente que, em plena sexta-feira, só queria esbanjar felicidade. Vi muita coisa bonita.. A arquitetura do Centro é sensacional e ficamos observando prédio por prédio por um bom tempo, enquanto eu ouvia as histórias que os cercavam, as pessoas que ali viveram ou viviam, e o alicerce daquelas construções que eram nada mais, nada menos, que feitos de histórias.

Ao chegarmos na Praça da República eu já vi menos coisas das quais eu gostei. Foge da contagem nas mãos o números de tráficos de drogas que vi em apenas poucos minutos. As pessoas, majoritariamente usuárias de crack, escondiam-se embaixo de caixas de papelão, finos cobertores (quando os tinham) mas, principalmente, escondiam os rostos – creio que numa tentativa falha de tornarem-se alheios às suas realidades. Pode não ter sido, nem de longe, a parte mais alto-astral do passeio mas foi, sem dúvidas, essencial para que eu captasse verdadeiramente uma parte da cidade que pode não ser bonita, boa ou atraente, mas que está ali e presente no cotidiano da civilização local.

Mudando quase que totalmente de intenção, fomos à Augusta! Ali, onde as luzes “de Natal” se cruzavam por entre as árvores e formavam belos cenários, os bares estavam regados de pessoas, risadas, conversas e música boa. O astral definitivamente mudou, e nada mal terminar o rolê por ali, não é mesmo?

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Foto da autora.

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viaduto no Centro (Foto da autora).

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o paredão de apartamentos no Minhocão (foto da autora).

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Elevado Presidente Costa e Silva, “Minhocão” (foto da autora).

Repleta de nuances, problemas, belezas, diferenças, simplicidades, esplendores e detalhes, digo que não existe lugar como São Paulo. Não existem pessoas mais atenciosas, cuidadosas e felizes em ajudar a qualquer um como ali. Não existem bares e ruas como as de São Paulo, nada como o pão na chapa dali, assim como não tem nada como o sotaque dali, nada como o povo – povão! – dali, como não tem qualquer outra individualidade paulista em qualquer outro lugar do planeta; São Paulo é o mundo e o Brasil de inúmeras e imbatíveis maneiras. Não escolheria nenhuma outra cidade para começar de verdade a minha vida. The future looks bright, e muito em breve espero poder chamar essa imensidão cinza de lar. Vale a dica de que não só os rolês normais e naturais são válidos, vale a pena se aprofundar na essência da cidade, no povo e na cultura. Até breve, éssipê!

Carla Mereles

Morena de cidade alemã, tem na escrita a sua maior liberdade. Além disso, tem inquietação por tudo o que parece fora do lugar – ou num mesmo lugar há muito tempo. Crê na força das palavras, no poder catalisador da música (em especial a quem a faz) e, principalmente, na força sinérgica das pessoas. Gosta de ouvir e contar histórias, sempre que pode está na/pega a/bota o pé na estrada e deseja um dia ter a sabedoria em bem enxergar o mundo.

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