Somos todos viajantes, cosmonautas e heróis

Viagem

Todo mundo conhece alguém que já foi pra muito longe.

Vamos primeiro fazer um rápido acordo semântico: muito longe é muito longe, em negrito e itálico. E com isso quero dizer o interior da Índia, um vilarejo húngaro ou romeno, e Duchambe, no Tajiquistão. Alguma metrópole chinesa, região na África, ou quem sabe uma meia dúzia de países na América Latina. A Oceania. O Ushuaia. Pérolas entre cidades espalhadas pelo Brasil.

Então, é disso que estou falando. Todo mundo conhece alguém que já foi pra muito longe. Aquele conhecido mais viajado que sabe pedir uma cerveja em uns sete idiomas, o amigo ou a amiga que ficou com gente do mundo todo em festas em lugares impensáveis, ou aquele parente que conhece toda a extensão do litoral brasileiro.

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Foto: Pinterest

É importante conhecê-los porque a gente não se cansa de repetir as histórias em tom quase autobiográfico, mesmo que a vida seja deles e não nossa. A gente faz da viagem quase uma ida à lua; da jornada, uma transposição de barreiras intransponíveis, e o mochileiro protagonista vira um modelo a ser seguido.

Há uma boa razão pra isso, e explico: a história do viajante é também a mesma narrativa de boa parte das histórias que a gente conta, e vou ousar dizer algumas bobagens, como, por exemplo, que elas são muito parecidas com a história de “Procurando Nemo”, do Batman ou do Buda.

Não se trata aqui especificamente do Marlin, do Bruce Wayne, do iluminado ou de algum mito grego, ou mesmo que você e a sua viagem são mais ou menos parecidos com essa ou outra referência. A questão é que uma boa história de viagem é também uma jornada, em que se parte de um mundo cotidiano, para enfrentar uma série de desafios e provações, voltando enfim o viajante com algum tesouro.

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Mundo comum, chamado para a aventura, mentor, partida, testes, aproximação do desafio, morte, recompensa, encontro do tesouro e regresso para o mundo comum — de Procurando Nemo e Mitos Gregos às suas viagens inesquecíveis, as etapas estão todas lá. (Foto: Tumblr)

Esse padrão, aliás, é parte da ideia do Monomito (ou a Jornada do Heroi), proposta em uma teoria de Joseph Campbell, e há muito o que se falar a esse respeito. Mas o que vale diizer agora é que essa estrutura de narrativa clássica é muito antiga, e talvez estamos a usando desde sempre como forma de entender e representar a lógica cíclica das coisas. Alvorada, zênite e crepúsculo; nascimento, vida e morte; partida, viagem e retorno.

Evidentemente o tesouro é figurado, tanto quanto talvez seja a jornada, mas mais importante que todo o é a morte do protagonista. O heroi sempre passa por alguma crise profunda e morre, ainda que de modo figurado, para poder renascer melhor, maior ou mais forte depois.

E era aqui aonde eu queria chegar. O importante é a morte do viajante, e por isso quem sabe valha dizer que a viajar pode acabar com a vida de alguém. Ou que alguém pode ir viajar e nunca mais voltar. A única boa razão pela qual a gente viaja é porque a gente de alguma forma renasce depois. Ou se reinventa.

***

Lembro-me, por exemplo, depois de me mudar por um tempo para Berlin, quando passei as primeiras vezes pela “Allee der Kosmonauten”, ou a “Avenida dos Cosmonautas”. Lá em Marzahn, bairro de terrível fama e poucas coisas para se ver ou fazer, conheci a minha primeira definição de jornada para longe.

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Foto: www.rtvslo.si

Não é uma rua particularmente interessante, apesar das fachadas escancaradamente soviéticas e do ar meio de coração partido que a queda do Muro deixou — mas era, ainda assim, a “Avenida dos Cosmonautas”.

Vamos por partes. Para começo de conversa, eles não eram sequer ‘astronautas’, o que já me servia para nutrir um fascínio pelo lugar. O fato de se chamarem de ‘cosmonautas’ me trazia a visão mental imediata de pôsteres da URSS, com orgulhosos cosmonautas eslavos a orbitar patrioticamente uma Terra avermelhada. E eu estava lá, em sua larga avenida.

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Foto: www.nypl.org

Estar lá por si só já significava muito. Como se fosse algum rito de passagem, eu cruzei a Avenida dos Cosmonautas. Mesmo ali em Marzahn, fui saudado pelos meus camaradas e saí maior do que cheguei.

Quando enfim pousei no Brasil, depois de longos meses em exílio voluntário, trouxe comigo uma série de cartões-postais, uma mala de roupas surradas dos meses sem comprar muita coisa e o olhar blasé de quem sente falta de bater continência para os cosmonautas, quase em nome da honra de uma cidade com o coração partido.

O rito de passagem fora completo, e agora eu era herói — mesmo que só para mim mesmo.

 

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João Vítor Krieger

João Vítor Krieger

Catarinense de sotaque meio vago e de 1992, gosto de cartões-postais, meios termos e de estar sempre com meu ukulele e uma gaita a tiracolo. Uso meu tempo tentando dar bom uso ao meu diploma de bacharel, voluntariando em alguma causa, e escrevendo histórias mais ou menos inventadas a cada duas terças-feiras aqui no Uma Boa Dose. Sonho em viver em um mundo onde as pessoas não achem o alemão um idioma tão feio assim, e onde Assunção esteja sempre a 15 minutos de casa.
João Vítor Krieger

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