Fonte: Pinterest

​Viagem sem volta

 

 

– por Maitê Vallejos

 

Sempre penso que viagens são uma viagem a nós mesmos. Viajar é reconhecer-se na estranheza e na novidade do inexplorado. O mais incrível é que pra onde quer que a gente vá, os povoados, as florestas, as cidades, os estados, os países, os povos, as culturas, as línguas, elas estarão sempre lá, sendo como são. O que a princípio será inédito, lindo, esquisito ou engraçado para o viajante é, logicamente, natural para as pessoas que vivem naqueles destinos. Somos, não mais que de repente, inéditos, esquisitos, lindos e engraçados para os habitantes locais. E aí quem vai mudar é sempre a gente por dentro e a nossa perspectiva de mundo depois das andanças por aí, após refletir no outro.

Alguns quilômetros mais tarde eu acho é que a gente se torna um pouquinho de cada lugar por onde passa, ou passeia ou mora. Não tem jeito, é aquela coisa de ir enchendo a mochila de experiências, lembranças, trapalhadas, souvenirs e rostos. É isso. Sou uma mistura. Daquele povo de sorriso fácil e de fala sem pressa de Maceió e Olinda. Da claridade das ruas do Rio. Do espanto ao ver o pátio dos meus tios coberto de fuligem das queimadas em Marabá.

Sou a parte boa e ruim da neve, que descobri em Dublin. Um pouco da paz de Ibiraquera. E a agitação maluca de São Paulo. Sou muito de uma pequeninha cidade do interior do RS, que se chama Rosário do Sul. É pra lá que viajo sempre de volta pra lembrar quem eu sou. E hoje sou o tu, o bá, o bairrismo, as escadarias e a boemia de Porto Alegre. Afinal, muitas vezes viajar não depende apenas da mudança de coordenada geográfica. Depende do que os nossos olhos de viajante vão captar do espaço em que estamos agora.

Por quantos mais lugares a gente vai passar? Quantos mais lugares vão passar por nós? Só viajando ereconhecendo-se pelo caminho pra saber. E olha, essa viagem não acaba tão cedo.

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