Rito de Passagem e Férias.

 

 

– por Dayana Pinto & João Vítor Krieger

 

I – Volto já, ou não! Conversas paralelas no trabalho

 

Há dois assuntos campeões lá no trabalho. O primeiro deles é comida: tornei-me praticamente uma espécie de Guia Michelin em pessoa para assuntos gastronômicos da região depois de tanto ouvir a respeito. Já presenciei de tudo: de menções honrosas aos restaurantes escondidos na divisa da cidade até os reviews empolgados sobre franquias de fast-food perto do escritório.

O segundo assunto é tudo o que faremos quando não estivermos aqui. Digo, no trabalho. Fala-se muito de quando a sorte soprar ao favor deste ou daquele bilhete da Mega-Sena e os bilhões saltitantes na conta bancária nos permitirem uma vida de luxos. Caipirinhas e pernas pro ar. Viagens mil. Sabe como é?

“Se eu pudesse, eu ia viajar muito”, começa alguém.

A gente sempre cai nessa frase, de algum jeito. Eu também iria. Mas alguém diz antes por mim:

“Eu também. Disney seria minha primeira escolha.”

“- Não, calma. Eu não ia dizer isso.”

“Muito caro pra mim. Sou mais ir pra praia. Ficar dormindo até tarde”, diz outro colega, munido de uma minúscula xicrinha de café, que ele equilibra no pires com a outra mão e a degusta mesmo de pé.

‘Disney, não’, penso comigo.

“O difícil depois é ter que voltar, sabe ? Ah, sei lá. Tô meio de saco cheio daqui”.

Sou privado do restante da discussão por um telefonema: ‘podes achar a pasta tal, enviar o e-mail que te pedi, dar uma resposta pro cliente’, aquela história. Quando retorno, o assunto já é o almoço de novo, mas não me convenço de que eles estavam falando mesmo de viagens.

Viagem, não. É só porque isso soa como outra coisa. ‘Disney’. Nada contra, mas é porque viagem faz a gente tatuar a Índia no braço, com um coração fincado no meio do mapa, só para nunca mais esquecer. Disney faz a gente trazer o Mickey de pelúcia pra casa. Entende? Mas nada contra, juro.

 

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“Ô, mas só pra não esquecer”, e eu retomo o assunto com uma pergunta de saideira, “se for viajar, me manda um postal? Cartão-postal. Não precisa escrever nada, mas seria legal se assinar. Pode ser da Disney mesmo.”

“Mando, claro”, respondem.

Fico na promessa.


***

II – Fios, cadarços, e eu querendo me amarrar na vida.

 


Vou andando meio sem rumo – sabe como é,  né? Nos ouvidos uma playlist daquelas – classic road trip. O tempo parece voar, cara!

Só  vou – ou não! Tô acompanhada dessa vibe que me transporta não sei nem pra onde. É, essa parada de viagem tá martelando aqui!

Horas depois, dou-me de cara com um par de tênis pendurado nos fios de energia entre dois postes, bem em frente à entrada do único parque aqui da cidade, por onde normalmente passo durante o expediente para buscar alguma coisa no Fórum. Esses tênis estão gastos e fatigados, e já se tornaram velhos conhecidos do fim de tarde escarlate que se repete hoje.

Há um garoto de boné logo a frente, no meio do caminho pelo qual vou indo. Ele tem mais dois sapatos, também amarrados pelos cadarços, e girando-os com uma mão ele calcula a força para arremessá-los e deixá-los pendurados também nos cabos de alta tensão.

“Ei, só por curiosidade, por que ‘cê tá tentando jogar os tênis lá?”, pergunto.

“Te interessa?”, ele me responde. Ri debochado e se afasta para um grupo de adolescentes como ele. A vida segue.

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No caminho de volta, depois de mais ou menos uma hora, descubro que ele foi bem sucedido: lá estavam os calçados pendurados pelos cadarços. E como o fim da tarde, que passa sem precisar de motivo, o par de tênis ali se tornou detalhe da paisagem.

Minha curiosidade não se satisfaz.

Agora são duas coisas na cabeça – e, na boa, já troquei o martelo pela marreta.

Tem o tal papo da Disney que se mantêm teimoso aqui. E agora, o porquê dos sapatos nos fios também. Pensando nisso, quase como se esquecesse de pensar nos segundos que vão passando despercebidos, deixei passar o mês, a Copa e quase o período concessivo de férias.

Quase. Tive que sair de férias para não perder minha deixa.

Férias: respiro aliviado. Nesse vasto cotidiano, tudo tão rotineiro; e nessas tantas horas acumuladas de tantos caminhos iguais, a repetição dá um break. E eu fico freak: a estação das coisas que passam devagar — meus pés pro ar — minha caipirinha na mão — está pra chegar.

Aliás, os tênis continuaram lá, tanto como os assuntos se mantiveram idênticos. E o mesmo cara do café na xicrinha minúscula também terá que pegar férias.

“Ainda não estou lá, mas já quase sinto o cheiro de maresia.” Ele ri à toa. Faz cara de que falta pouco para ele não se importar mais.

Férias – breve maré calma. Depois tudo volta a ser do mesmo jeito, mas quem se importa? A gente viaja na possibilidade do descanso. Na súbita vontade de ficar na cama até tarde. Ou pela súbita vontade de ir se perder, sair do lugar comum. Pela estrada, dentro de um carro, com o vento na cara. Ou de avião, acima das nuvens, contemplando horizontes.

Atrás do meu monitor, há um cartão postal da capital da Polônia, Varsóvia. Lembro-me de como era morar fora há pouco mais de um ano, e sinto uma nostalgia da facilidade que tinha para por uma mochila enorme nas costas e tirar um tempo para me perder num país distante.

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Eita. A verdade é que não vou sair de férias. Quer dizer, vou. Mas não volto depois. Ainda não concluí se é uma decisão aceitável nesse contexto, mas quem liga. O fato é que partirei rumo a Santa Cruz de la Sierra, e depois de um tempo lá, vou pra Colômbia. Quem sabe consiga ver o suficiente de América Latina antes de me acalmar.

A xicrinha de café na baia ao lado já acabou e me divirto pensando que meus colegas não fazem ideia do meu plano de fuga. Será?

***

III- Um café, um até breve ou não! Porque eu, fui!

 

O dia está lento. É preciso um pouco mais para me entreter, e ainda me restam alguns momentos para matar tempo. Lembro dos tênis pendurados pelos cadarços nos cabos de energia e decido perguntar ao Google se ele sabe alguma coisa sobre isso.

Shoetossing”. É quase como se o Google me respondesse de fato.

Essa foi boa. “Jogar tênis para que fiquem pendurados pelos cadarços nos cabos de energia” tem um nome em inglês, e um bem escolhido, por sinal. “Shoetossing”, simples assim.

Shoetossing” — ou “Shoefiti”, mistura da palavra anterior com Grafitti — pode ser várias coisas. Há lugares no interior onde se joga sapatos desse jeito como esporte, ou como forma de provocar as pessoas. Mais comum, no entanto, é praticar o shoetossing como forma de rito de passagem.

‘Rito de passagem’, repito. É mais um desses termos que ouço às vezes e tenho vontade de anotar num post-it, pra colar do lado do monitor e ficar admirando depois.

Sim, ritos de passagem. Militares arremessam seus coturnos; jogadores de futebol, suas chuteiras; e os viajantes, seus sapatos comuns para marcar a partida. Tudo isso me informa dilligentemente a Wikipedia.

Eis aí a resposta das perguntas de antes. Viajar é um rito de passagem. E por isso não tem Disney nessa história. Viajar precisa ser o tipo de coisa que faz você querer jogar os sapatos em meio aos cabos de alta tensão, para depois voltar e ficar se comparando com a pessoa que você era antes de partir.

Olho ao meu redor.

“Acabou o café?”, pergunto pro colega do lado, de xicrinha frustrantemente vazia.

“É, acabou. Tem que ir lá fazer mais”. Pausa. “Ah, e te falei? Acho que vou aproveitar para comprar uma cafeteira daquelas Nespresso quando estiver viajando. Ou uma mais barata, talvez”, ele conclui.

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“O café dela é bem bom, não?”, digo.

“Muito”, responde, mas ele está concentrado e não me dá assunto.

A Nespresso e o seu Free-Shop são quase outra Disney. Fico aqui esperando que essa próxima jornada do meu colega apreciador de café se torne um rito de passagem real, e não mais uma fuga da rotina. Que ele perceba que importante é ouvir mais uma história de outra pessoa em um novo lugar, e que o café, bem no fundo, é sempre  pretexto.

Acho que antes de sair daqui, no último dia precedendo as férias, pendurarei meus sapatos sociais sobre minha baia, sinalizando o rito de passagem e a viagem que enfim se antecipa. Mas não direi nada — vamos só esperar que eles peguem a pista.

Se me acharem, estarei os esperando com um café em algum lugar na Colômbia. Mas sem Nespresso, por favor.

João Vítor Krieger

João Vítor Krieger

Catarinense de sotaque meio vago e de 1992, gosto de cartões-postais, meios termos e de estar sempre com meu ukulele e uma gaita a tiracolo. Uso meu tempo tentando dar bom uso ao meu diploma de bacharel, voluntariando em alguma causa, e escrevendo histórias mais ou menos inventadas a cada duas terças-feiras aqui no Uma Boa Dose. Sonho em viver em um mundo onde as pessoas não achem o alemão um idioma tão feio assim, e onde Assunção esteja sempre a 15 minutos de casa.
João Vítor Krieger

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