Vendem-se livros (e amores)

Don Alberto era proprietário de uma livraria pequena em Barcelona. Gerenciava o negócio há muitos anos com uma dedicação que causava simpatia nos clientes e também nos outros comerciantes da rua. As vendas não iam tão bem quanto antigamente – as grandes redes e os livros para tablets agora dominavam o mercado –, mas continuava abrindo as portas todas as manhãs, inclusive aos domingos, às 8h30.

 

Nascido, crescido e criado na capital Catalã, Don Alberto já contava 56 primaveras vividas e, com elas, chegaram as manias. Varria a loja religiosamente 3 vezes por dia. Tomava café às 15h19 todas as tardes, com duas colheres e meia de açúcar. E reconhecia, de ouvido, o barulho do velho quando alguém abria a porta.

 

Amava seus dois cachorros, uma boa escalivada feita na hora e bater papo com os amigos na praça aos sábados, mas dos amores, o maior era o pelos livros. O maior e o mais sincero. Só não foi o melhor.

 

Foi em 4 de abril de 1969 que ele conheceu Ana. Na época, revezava o balcão com Júlio, seu assistente, um jovem rapaz de 19 anos aspirante a escritor que estudava literatura latina na universidade de Barcelona. No dia, Júlio passou mal e Don Alberto, que jogava truco nas tardes de quarta-feira, teve que abrir mão do carteado para cuidar da livraria.

livraria

Foto: Pinterest

Já passava das três quando Ana entrou pela porta, e até o vento que entrou junto com ela era diferente – veio mais forte que o normal, na direção oposta. Don Alberto reconheceu de imediato e, ao se virar, encontrou uma jovem mulher de aproximadamente 25 anos folheando os livros mais antigos da casa. Ela não era exatamente bonita, mas tinha algum mistério nos seus trejeitos, na maneira como movia os braços, nos  movimentos milimetricamente calculados dos seus dedos, que fez com que o pobre livreiro não conseguisse mais desviar os olhos dela.

“Esse é bom?”, perguntou, distraída, apontando para um Júlio Verne que se apoiava, empoeirado, na lateral da estante.

 

“Não é dos melhores dele, mas é um bom livro para começar”, respondeu.

 

“Desculpe, é que não entendo muito de literatura. Esses intelectuais são uns chatos. Vivem enfurnados nos livros e se esquecem de viver. Se enchem tanto de teorias que acabam esquecendo que, na prática, não é bem assim que a banda toca”, disparou.

 

“Bem, esses intelectuais me sustentam. Quem sou eu pra reclamar?”, questionou, surpreso.

 

“Quem você é não sei ainda, mas já vi que é um baita hipócrita”, disse, deixando uma gargalhada gostosa pairando no ar. “Prazer, Ana”.

 

“Prazer, Alberto Hipócrita Aviles”, estendeu a mão.

 

Na semana seguinte ao encontro dos dois, foram três cafés e uma caminhada pelo parque. Entre conversas, ele descobriu que Ana, que era prima de segundo grau de um colega da turma do truco, frequentava a mesma biblioteca, aos sábados, e saia sempre 15 minutos antes dele chegar. Também iam sempre à mesma paróquia assistir às missas aos domingos. Don Alberto, rigorosamente pontual, chegava com antecedência e se sentava no canto direito extremo do terceiro banco mais próximo ao altar. Mas ela era avoada, vivia atrasada. Sentava-se nos lugares finais e, por isso, nunca se esbarraram.

 

Podiam ter passado a vida inteira a cinco minutos, uma missa ou três amigos em comum de distância sem se conhecerem. Júlio poderia não ter passado mal, ele poderia ter ido ao jogo de cartas e Ana poderia não ter perguntado sobre Júlio Verne. Quão facilmente o destino poderia brincar com eles, mas lá estavam, 40 anos de casamento depois, dois filhos crescidos e o terceiro neto à caminho.

 

Don Alberto, que dos assuntos da alma era entendido, sempre soube que poucas coisas fazem tão bem para o coração como um amor – e um livro – na hora certa. E era esse o principal motivo para não fechar a livraria, mesmo com as vendas em queda livre, contava aos amigos: quem sabe quantas Anas poderiam entrar por aquela porta? E quantos Albertos, hipócritas entendidos de literatura, poderiam aparecer?

Ele soube, naquela tarde mesmo, em 1969, qual seria sua nova profissão: disfarçado de livreiro, ele seria destino. E dos bons.

 

Bruna Estevanin

Bruna Estevanin

Bruna é uma jornalista inquieta que adora ouvir histórias e nunca recusa um convite para jogar baralho. Acredita mais em ações que em palavras e as pessoas que enrubescem quando estão envergonhadas são as suas favoritas. Nas horas vagas, ela inventa teorias sobre comportamento humano, rabisca uma ideia e outra e coleciona guardanapos.
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