Foto: Tumblr.

Like a rolling stone, nós vamos além

Tenho o hábito de estudar na biblioteca por inúmeros motivos: pela companhia dos livros, pelo silêncio que normalmente se instala no ambiente, por haver várias fontes de pesquisa à disposição e por ser um lugar onde eu me sinto intimidada e me forço a continuar com a cabeça nos livros. Sempre as mesmas pessoas tendem a frequentar a biblioteca todos os dias, contudo é bastante engraçado quando chega próximo à semana de provas o quanto aumenta a proporção do fluxo de pessoas. Até que, em um desses dias próximos à prova, um colega olhou para mim e disse: “Carla, como você consegue estudar todos os dias?”, e eu comecei a rir. “Me faço a mesma pergunta”, respondi, “mas é questão de hábito, sabe? Não foi fácil criar essa rotina, mas com vontade e insistência eu consegui e acabei me acostumando”. De volta, ouvi: “Ah, é, mas eu… Eu já tentei, não consigo”, e voltei a cabeça ao caderno de Gramática.

Então na mesma noite, voltando para casa, fiquei pensando nessas falas e o como nós adotamos essa postura diversas vezes ao dizer: “não consigo”, “é esforço demais”, “é impossível”. Quantas vezes nos deixamos de realizar algo em nossa vida em função disso? É assustador a proporção em que privamos nós mesmos da realização de feitos, quiçá significativos, ao colocar barreiras imaginárias frente a nós em vez de buscar alguma forma de ultrapassá-las. Podamos as nossas próprias asas antes mesmo de tentar alçar vôo. Nenhum sonho é grande ou impossível demais e o que os difere dos sonhos “normais, comuns e ordinários” é exatamente a quantidade de trabalho, esforço, energia e determinação que haverá a fim de realizá-lo.

Sendo a minha geração a geração y, a época em que vivemos – em plena Era Digital -, as pessoas com quem vivemos – extremamente multifacetárias e que tendem a mustitask o tempo inteiro -, a nossa pluralidade e a vastidão do mundo que se apresenta a nós em uma tela de celular de 10x7cm, nos torna pessoas ridiculamente imediatistas. Não temos paciência para esperar na fila do banco, para esperar a comida no restaurante e sequer para esperar um filme carregar no Netflix; o tempo é algo tão imediato e certo para nós, que crescemos com a noção de que “longo período” é algo em torno de 2h. Mas sonhos, destes grandes e que carregam em si toda a nossa essência e toda a nossa visão da vida, esses sonhos levam tempo para se realizar. Aliás, podem levar meses e anos de esforço e dedicação. E então, como fica?

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Foto da autora.

Primeiramente que um sonho não é um milagre e muito menos cai do céu. Além do tempo que normalmente ele leva para tornar-se verdade e da paciência que devemos ter, uma parte crucial para alcançá-lo chama-se trabalho. Procure ser o melhor ser humano que consegue ser, independente de qual seja o seu sonho, é vital conhecer-se antes e melhor que tudo. E só então que se volta a mente ao objetivo e que se trabalha, estuda e aprende incessantemente. Deve-se então acreditar no seu potencial em tornar verdade este pensamento que, por enquanto, existe apenas dentro da sua cabeça. É apenas tirando a bunda da cadeira e correndo atrás da sua meta que se chegará lá. Olha, acreditem, haverá muita gente acreditando na sua falha e na sua falta de capacidade, e falando o tempo inteiro que nada daquilo poderá tornar-se realidade. (People’d call, say: “beware, doll! You’re bound to fall!”) Disse o poeta que nada somos que não os nossos sonhos, então, se não os temos, o que somos nós? Tratemos, pois, de sonhar, porque quem não tem nada, não tem nada a perder. Tampa os ouvidos àqueles que não acrescentam bulhufas de bom, põe Dylan pra tocar e segue em frente! – mais certo do que nunca de que a vida é repleta de oportunidades, inclusive de tornar-se tudo aquilo que se sonhava ser e ninguém botava fé que você se tornaria.

Minha mãe comprou para mim um colar do meu signo chinês que diz: “OX: headstrong, iron-willed, dedicated.” Não sou fã de horóscopos, mas de fato sou deveras teimosa, tenho vontades desproporcionais a mim mesma e aprendi a ser dedicada em prol de algo que chamo de objetivo. Então respondo, por fim, ao meu colega: mesmo sabendo das dificuldades pelo caminho, mesmo com a torcida e as chances contra, eu consigo “estudar o dia todo todos os dias” porque no meu foco há algo muito maior que isso. A condição para eu conseguir exatamente aquilo que eu quero é estudar algumas horas por dia, ficar cansada, ter olheiras do tamanho de Júpiter, momentos de exaustão e algumas dores de cabeça durante alguns meses. Se é essa a distância entre mim e meu futuro da forma que eu imaginei e, por conseguinte, uma vida ainda mais bela, so be it.

Tenho sede em poder dizer que consegui, mesmo sendo difícil, mesmo com as chances contra mim, mesmo com todos os empecilhos e as barreiras à minha frente. O caminho para chegar até lá não é nada simples, sei porque eu ainda estou nele, e tem sido uma baita jornada! É cansativo, os dias osiclam como um pêndulo e por vezes nada parece fazer sentido algum, e é exatamente nesses momentos que deve-se lembrar o por quê de se estar fazendo tudo aquilo que se faz e o por que dessa luta incessante. E, quando atingida a tão sonhada meta, que tenhamos a audácia em criar sonhos novinhos em folha e que façamos com que a corrida nunca termine.

O meu lema está escrito em um enorme post-it amarelo colado na minha escrivaninha, na altura dos meus olhos, para todo “dia daqueles” eu olhar e recriar a esperança e um pouco de fé em mim: ENERGY, DETERMINATION, COURAGE, ele diz. Para quando faltar energia, que haja determinação; e quando faltar todo o resto, que haja coragem para seguir em frente, com sonhos descabidos, transbordados, eloquentes e pulsantes, até a linha do nosso horizonte. Disse o mestre Leminski,

“A vocês, eu deixo o sono.
O sonho, não!
Este eu mesmo carrego!”

 

 

 

 

Carla Mereles

Morena de cidade alemã, tem na escrita a sua maior liberdade. Além disso, tem inquietação por tudo o que parece fora do lugar – ou num mesmo lugar há muito tempo. Crê na força das palavras, no poder catalisador da música (em especial a quem a faz) e, principalmente, na força sinérgica das pessoas. Gosta de ouvir e contar histórias, sempre que pode está na/pega a/bota o pé na estrada e deseja um dia ter a sabedoria em bem enxergar o mundo.

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Sem comentários

  • Jú Cortizo 05/08/2014   Reply →

    Que coisa linda, Carla! Parabéns pelo texto e pela determinação. O melhor de tudo isso, é quando a gente consegue realizar, depois de muita luta, o que sonhamos. Não tem preço que pague a realização de um sonho através do esforço. Fiquei mais empolgada ainda em continuar lutando pelos meus objetivos depois de ler este post. 🙂

    • Carla Mereles 05/08/2014   Reply →

      Obrigada! Fico feliz que esse texto tenha te inspirado um pouquinho, viu? Correr atrás dos nossos sonhos me parece ser a maneira mais certa de viver 🙂

  • luizaluna 07/08/2014   Reply →

    Bem, isso com certeza é inspirador. Acho que estou no caminho certo de conseguir realizar mais um sonho meu, e deixa eu te contar que a melhor coisa de realizar sonhos é: depois disso, para e pensar “e agora?”. Acho que esse pensamento move o mundo. Aliás, esses pensamentos. Muuuuuuuuuuito lindo seu texto (:
    Obrigada pela reflexão :*

    • Carla Mereles 07/08/2014   Reply →

      Quanto mais sonhos tirarmos da caixinha de pensamentos e levarmos pro mundão, melhor. Fico feliz que estejas num caminho de realização e a resposta pro “e agora?” é uma só: pra frente! Obrigada pelo carinho 🙂

  • Cristiane Peter Fuhrmann 12/08/2014   Reply →

    Uma dose de inspiração para dias cinzentos!

Degustando...