O piano do Tietê

Deixa eu contar uma verdade sobre como é tocar um instrumento.

Essa é para você que senta e assiste a um pianista, por exemplo, e se pergunta como ele consegue. Como ele junta as cadências, ritmos sincopados e combinações ágeis de notas. Aí está um grande mistério se você ainda não se aventurou a tentar tocar mesmo um violão.

Não quero soar convencido. Bem pelo contrário; há uma ironia bonita nisso, porque na verdade, a última coisa em que o pianista consegue pensar é nas notas.

Aliás, nas notas ou em qualquer outra coisa que pertença a este minúsculo mundo dentro da caixa acústica do piano. O pianista passa o dia todo pensando em como vai ser chegar em casa novamente para tirar melodias do teclado branco e preto e tentar apreciar a música, mas ao som dos primeiros compassos, ele já está em outro lugar.

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Fonte: Tumblr

***

Imagine o Terminal Rodoviário do Tietê, São Paulo, por exemplo. Lá, em frente ao Bob’s e próximo a alguma cafeteria, há um belo piano de cauda, preto e um pouco desafinado. Seus ocupantes – um misto de mendigos, senhores senis, mochileiros diletantes, e raros musicistas de verdade – fazem a trilha sonora do lugar, alternando porradas no teclado com músicas bonitas.

Eu estive lá, e vi isso: a última coisa em que o pianista consegue pensar é nas notas. Na minha última incursão a São Paulo, sentei-me com meu mochilão diante do tal piano do Tietê, e vi um velhinho bastante caduco tocar, não errando o suficiente para que alguém se incomodasse.

“Qual você quer ouvir agora?”, ele pergunta, ao terminar uma música, num misto de grito e balbucio, para a mocinha do meu lado.

“Oi? Eu? Não sei, acho que qualquer uma está boa”, ela diz, bastante constrangida. Há uma pequena plateia de estranhos, esperando o ônibus e o tempo passar, que a observa nesse momento.

“Não, mas qual?”, ele insiste.

Ela diz que qualquer uma está boa, e ele resolve tocar uma versão claudicante de “Eu Sei Que Vou Te Amar”. A música engole ele.

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Foto: João Vítor Krieger

Ainda que seus dedos não acompanhem todas as notas, a gente vê que a mocinha do meu lado era pretexto, e que sua musa verdadeira está bem longe dali, em distância e tempo. “Por toda minha vida”, “em cada despedida” e “desesperadamente”, a gente sabe pelo piano que ele sempre vai amá-la. Nos três minutos da música, ele se ausenta enquanto toca para revisitar memórias.

***

Três músicas depois, o velhinho tem que ir embora. Há outro senhor sentado na banquetinha ao lado do piano, e ele já pescou minha inquietude.

“Quer tocar?”, ele pergunta, tão logo o outro se levanta.

“Posso?”. Estou corado e anormalmente feliz. Foi uma longa semana de conferência em São Paulo, e uso minhas últimas energias para não dormir antes de perder o ônibus ali no Tietê. No entanto, se há um piano livre, ele deve ser tocado.

Mãos tremendo. O cafezinho do Tietê vira o Carnegie Hall, e não sei mais nada do meu repertório. Com exceção de “Clair de Lune”, que prontamente me ponho a tocar.

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Fonte: Tumblr

A última coisa em que o pianista consegue pensar é nas notas. Isso é um problema, porque a expectativa de agradar os ouvidos das pessoas que me ouviam agora me tira a capacidade de lembrar exatamente todas as notas, e tropeço a partir do vigésimo compasso.

“Que bonito”, diz uma senhora que sempre está no Tietê quando venho pra SP de ônibus. Acho que ela me reconhece.

Dá para ouvir outras pessoas conversando ao meu redor:

“Essa música não é trilha sonora de algum filme?”

“Sim, já ouvi em algum lugar, com certeza.

“Não sei por quê, mas ela me remete àquele Intocáveis, sabe? Filme francês, do cadeirante e o negro.”

“Sei, mas não lembro! Deve ser.”

No ápice da música, que trata justamente do clarão da lua, já me ausentei do lugar e fui revisitar céus de outrora.

Estou agora diante de constelações inventadas e a Charlotte divaga sobre a vida ao meu lado. Ela também me questiona qual trilha sonora tem “Clair de Lune”, e eu digo que não sei. À ocasião, em algum momento nos encontramos novamente em frente a um outro piano, e ela me pergunta como eu consigo olhar para uma partitura e transformar aquilo em música.

Formulo o pensamento para explicar a clave de sol, o pentagrama e o tempo das notas, mas queria mesmo é dizer que —surpresa! — a última coisa em que o pianista consegue pensar, para ser sincero, é nas notas. Ver cada bolinha preta daquelas na partitura é como olhar fundo nos seus olhos, porque de repente me torno um só com a melodia e quero ficar no eterno daqueles poucos segundos de música, tentando entender o momento e como fica tudo tão bonito quando a gente não consegue pensar em mais nada. (Não disse isso, mas espero ter subentendido.)

 

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Fonte: Tumblr

 

***

Terminal Rodoviário do Tietê. Ainda estamos aqui.

Lá pelo sexagésimo compasso, a execução está quase no fim, mas me atrapalho e tropeço. Tenho que recomeçar essa última parte. Não consigo tirar os olhos do teclado, então não sei se está do agrado dos ouvintes (e também não consigo mais prestar atenção nas conversas ao redor).

Quando enfim termino minha execução meio hesitante, o tempo que dura a última nota realmente dura segundos quase eternos, num jeito meio Lewis Carroll. Enfim levanto a cabeça, e a meia dúzia de pessoas ali aplaude timidamente. Enquanto absorvo lentamente a situação, me pergunto como pode tanta coisa caber em três minutos de música.

Vou dizer de novo: a última coisa em que o pianista consegue pensar é nas notas. Ainda bem.

 

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João Vítor Krieger

João Vítor Krieger

Catarinense de sotaque meio vago e de 1992, gosto de cartões-postais, meios termos e de estar sempre com meu ukulele e uma gaita a tiracolo. Uso meu tempo tentando dar bom uso ao meu diploma de bacharel, voluntariando em alguma causa, e escrevendo histórias mais ou menos inventadas a cada duas terças-feiras aqui no Uma Boa Dose. Sonho em viver em um mundo onde as pessoas não achem o alemão um idioma tão feio assim, e onde Assunção esteja sempre a 15 minutos de casa.
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Sem comentários

  • Ramon Martins 07/08/2014   Reply →

    Belo texto do meu amigo João!

    Quem sabe, numa próxima conferência em São Paulo eu vá junto. E talvez haja alguma mesa de madeira no Tietê. Ou levo o Cajón? Não, não cabe na mala! Mas cabe a vontade musicalizar o cansaço e a alegria de uma conferência. Só não garanto os aplausos. Acho que seria algo mais próximo de uma “Stand Up Comedy Musical” para tirar a timidez de quem estiver nos arredores…

    Por falar em música, estamos demorando para tocar novamente aquele Blues, não?

    Abraços,

  • angiesantanna 07/08/2014   Reply →

    meu professor sempre diz, toque para você mesma, os outros q se fod@m! e é assim que eu penso antes de tocar a primeira nota…depois é só divagar, voar, sonhar até o último compasso!

  • Erica Hotts 28/11/2014   Reply →

    Que bonito! :)! Você escreve muito bem! E descreve muito bem também! Me identifiquei bastante. 🙂 !
    Foi interessante achar seu texto aqui. Eu estava na verdade procurando por uma foto do piano do tietê no google, porque estou com vontade de cantar em algum lugar. E essas suas palavras de alguma forma me nutriram a vontade. Foi a descrição do que eu precisava sentir! Obrigada por isso!

    • João Vítor Krieger

      Muitíssimo obrigado, Erica! Se você encontrar algum pianista pra te acompanhar, com certeza recomendo esse piano do Tietê. O número de passantes por ali e o ar casual só deixam a execução ainda mais bonita. Não deixa passar essa sua vontade de ir la´cantar!

      E claro, se você fizer isso mesmo, lembra de gravar e mandar pra gente ver, por favor! Meu e-mail é joao.vitor.krieger@umaboadose.com 🙂

  • Neia Mackievicz 07/10/2015   Reply →

    Nao gostei do seu post, e esta sim SOANDO CONVENCIDO, ora, ora, quem ‘e vc pra discriminar pianistas da rodoviaria do Tiete? eu sou uma pianista que sempre toca la, tenho 25 anos de estudos de piano classico, ok? so sabe tocar CLair de Lune? e com essa pose de convencido? que horror!!! imagine se soubesse tocar outras musicas!!
    seu texto foi sem duvida muito humilhante, e esse texto do seu blog nao combina nada com vc, “uma BOA dose”??? esta mais pra ” uma maRvada dose”! combina muito bem!!
    O piano da rodoviaria vivia mais fechado do que aberto, alguns pianistas se prontificaram em tocar por PRAZER e nao por OBRIGACAO ou GANHAR ALGUMA COISA EM TROCA, esta procurando PROFISSIONAIS? esta no lugar errado!!!
    #prontofalei

    • João Vítor Krieger

      Neia, eu agradeço o comentário! Tenho certeza que sua atuação como musicista com treinamento clássico no piano do Tietê deve ser incrível de ouvir, e fico feliz que você valorize pianistas, tanto os profissionais quanto os amadores! Gosto muito também de ouvir todos que sentam lá e aprecio a música feita por prazer, independentemente do tempo e formação musical de quem toca 🙂

      Minha intenção aqui realmente era descrever o prazer de tocar o piano e de poder compartilhar boas memórias com outras pessoas através da música, a exemplo do que acontece comigo quando toco essa peça em especial do Debussy. Espero que você consiga reler o texto com outra perspectiva. E se quiser conversar mais sobre e me contar porque você achou o texto convencido ou humilhante, estou sempre aberto para isso e vou agradecer os feedbacks! Só escrever para ‘joao.vitor.krieger@umaboadose.com’.

      Abraços, bom proveito ao piano, e volte sempre! 🙂

Degustando...