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Dépaysement

Dépaysement n.m. (frech): 1. change of scenery; 2. the feeling that comes from not being in one’s home country. 3. obsolete/exile.

 

I
cabeças introspectivas
mexendo-se como os trilhos
de lá pra cá
a direitas e esquerdas
do trem que corre sem o tempo parar
junto aos que andam com o mundo a rodar
dançam pelas ruas da cidade
sem que mágica alguma lhes possa tocar.

II
na cabine branca
o som dos metais a compor
uma melodia bonita
clarinetes e trompetes
e os copos de plástico baratos
passando e recolhendo
as moedas de piedade e compaixão

III
chegou à saint-lazare
salto na plataforma
na placa informa marie d’issy à esquerda
sigo por lá
ando pelas escadas que vão para mais longe da superfície
pelos labirintos subterrâneos
sente-se o ofegar dos que passam
aos passos apressados e os saltos-altos
uma avenida de mão dupla
dos que vêm e dos que vão

IV

entrei no trem à esquerda
e seu destino final será levallois
já o meu ficará
por aqui mesmo
tento deixar abertos os meus olhos,
mas o cansaço pesa sobre as pálpebras
os pés pulsam a fadiga
enquanto observo os borrões nas janelas
as pessoas despercebidas
os anonimatos confortáveis
as multidões separadas por estações
os rumos dispersos e as bifurcações
os encontros despercebidos
consecutivos
relevantes e esquecidos
deixados de lado,
entorpecidos

V
por agora só o que me ocorre
é o que passa lá fora
quero ver o sol do norte do mundo cair
atrás das árvores de galhos despidos
dos tijolos avermelhados das casas do subúrbio
e eu procurando em estranhos
algo que eu desconheça
procurando um olhar que seja
um único fio que reate a esperanças de um mundo novo.
em um novelo de pessoas
de trens, de ruas, cafés e casas
continuo nas ruas a caminhar,
andando e pensando
e sonhando acordada
em meio à beleza de tudo aquilo que desconheço
de idiomas estrangeiros
dos hábitos corriqueiros
e dos palpites que tento seguir
“living is easy with eyes closed”
diz a voz nos meus ouvidos
são quase vinte horas no relógio
e o sol começou a cair

 

 

Carla Mereles

Morena de cidade alemã, tem na escrita a sua maior liberdade. Além disso, tem inquietação por tudo o que parece fora do lugar – ou num mesmo lugar há muito tempo. Crê na força das palavras, no poder catalisador da música (em especial a quem a faz) e, principalmente, na força sinérgica das pessoas. Gosta de ouvir e contar histórias, sempre que pode está na/pega a/bota o pé na estrada e deseja um dia ter a sabedoria em bem enxergar o mundo.

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Sem comentários

  • Luiza Mahara Werner 19/08/2014   Reply →

    E dessa vez a minha frase preferida foi “Viver é fácil de olhos fechados”! Carlinha sempre surpreendendo, 5 movimentos que envolveram e completaram perfeitamente um concerto. Comentários de música a parte, parabéns, amiga!

Degustando...