5 verdades que aprendi com meu pai

Pai é gente de outro mundo. O meu, por exemplo, me ajudou com as primeiras leituras, as primeiras palavras, os primeiros passos e com as primeiras pedaladas. Limpou meus machucados, brigou muitas vezes comigo quando eu aprontava (o que não era raro) e me ensinou a levantar sozinha todas as vezes que caí – mesmo não saindo do meu lado até que eu estivesse de pé. Me ensinou a brigar minhas próprias brigas e a não abaixar a cabeça para ninguém; deu-me meu primeiro violão e ouviu o primeiro “dó” que resoou nele. Ele esteve em todos os desfiles de XV de novembro, nas lutas de judô, nos jogos de futsal, jogos de tênis, apresentações de dança, recitais e oratórias. Quando terminavam, ele vinha receber-me com o mais caloroso e orgulhoso dos abraços: “Parabéns, filhota”.

Aprendi muito e ainda tenho muito a aprender nesta vida, e grande parte desses aprendizados devo a essa pessoa que doou-se por inteiro a uma vida a dois nada utópica e, desde então caminhamos juntos por esse mundão: eu e meu pai, meu pai e eu.

1. Pai não é um super-herói

Pode ser difícil de acreditar, mas ele se machuca, sangra, erra e – pasme! – também chora. Vivendo bons anos apenas com ele, eu aprendi muito sobre o que é ter um pai de verdade, por inteiro e integralmente, e aprendi que ele é ser humano igual a gente: que vai se emocionar vendo “À procura da felicidade”, que vai xingar no trânsito e ter medo de pular de pára-quedas – o que, logicamente, vai fazer com que ele impeça você de pular quando quiser. E, infelizmente, ao ver meu pai perder o pai dele, uma verdade caiu sobre meus ombros: apesar dos super-poderes que só eles têm, eles não são super-heróis.

2. Ele fará tudo o que puder por você

Ter um pai solteiro, que é pai e mãe, pode ser bastante desafiador e, ao mesmo tempo, muito divertido. Enquanto minhas coleguinhas de escola levavam lanche feito pelas mães, um pãozinho enrolado num guardanapo e algum mimo bem-elaborado, eu levava alguma bolacha e uma fruta, às vezes um toddynho de caixinha ou suco de laranja na térmica de água – que fica com um gosto terrível depois e não dava pra reutilizar. Além disso, o dia anterior aos eventos na escola era bastante emocionante porque, é claro, ele não tinha provideciado a fantasia, nem a maquete, a camiseta, ou qualquer coisa que tivesse sido avisada por bilhete um mês antes. Mas – ufa! – sempre deu tudo certo.

Por essas e outras, percebo que a nossa vida sempre foi tão alegre porque as coisas davam certo e, se por ventura não dessem, a gente ou dava um jeito ou dava risada. Meu pai, apesar do constante esforço, nunca teve um tato tão apurado quanto o materno, mas vê-lo tentando superar suas imperfeições e se melhorar, dia após dia, supre todo e qualquer lanche “pronto” que eu já levei ao jardim de infância.

3. Ele vai lhe ensinar a ser o melhor que você pode ser

Se tem uma coisa que meu pai lapidou em mim foi a importância de ser feliz. Ele diz, até hoje, que o maior erro das pessoas é tentar buscar a felicidade em alguém, que não dá pra depositar esse tipo de coisa em um ser humano, que esse é um equívoco gigantesco e que é exatamente por isso que tantos relacionamentos não dão certo. “Filha, a gente tem que buscar a felicidade na gente mesmo antes de qualquer coisa.”

E, dessa forma, fui encontrar a minha felicidade na música, nas palavras e nas fotografias – no meu jeito de enxergar a vida e de desvendar o meu olhar sobre mim mesma. Descubro-me através das minhas vivências e dos meus erros, das tentativas e acertos. Porque não há o que supere a liberdade em exercer-se por inteiro e ser tudo aquilo que se é, principalmente quando se tem o apoio de quem se ama durante a jornada.

4. Somos muito mais parecidos com nossos pais do que podemos imaginar

A parceria e cumplicidade desta relação é perene e sublime – e diria até que é inquebrável. Dividir um café preto no café-da-manhã, depois do almoço e provavelmente em algum horário da tarde não é apenas um ritual, assim como começar a cantar junto quando toca Beatles no rádio não é mera coincidência. Esses pormenores e hábitos corriqueiros que temos e levamos a sério como uma espécie de religião é o que faz de nós, nós.

Poder ter dividido os melhores e mais importantes momentos da minha vida com ele é uma bênção, e as memórias que criamos ao longo caminho estão guardadas dentro do coração com o maior zelo. Sou tão parecida com meu pai porque ele foi e sempre será o meu exemplo, espelho e referência, e somos prova de que é melhor que vivamos a vida sem amarras, sem medo, sem nos conter e, principalmente, com muito amor – traga a vida o que ela trouxer. Por nunca ter me deixado na mão e por ter o colo para curar minhas tristezas, ele mostra ser o melhor pai que eu poderia ter tido. E, sabe, creio que isso de nós sermos comparados “fotocópia e xerox” um do outro é uma particularidade que não se esvairá tão cedo – e, de certa forma, nem quero que vá.

5. O amor de pai se constrói, se conquista e se renova; e, exatamente por isso, é indelével

Considerando tudo o que ele significa pra mim, o seu papel na minha vida e história e a pessoa maravilhosa que ele é, só tenho a dizer que meu pai é o cara; e, embora seja clara a volatilidade da vida, é muito árduo e quase inimaginável um mundo sem a sua presença. A imensidão desse amor é indetectável, indescritível e, muito provavelmente, inexistente – matematicamente falando. Apesar disso, existe um livro que ele costumava ler antes de eu dormir que quiçá consiga esboçar, a meias palavras, um pouco deste sentimento:

(…) O Coelhinho olhou para além das copas das árvores, para a imensa escuridão da noite e concluiu: nada podia ser maior que o céu.

“Eu te amo até a Lua!” – disse ele, e fechou os olhos.

“Puxa, isso é longe” – falou o papai coelho – “longe mesmo!”

O Coelho Pai deixou o Coelhinho na sua caminha de folhas, inclinou-se e lhe deu um beijo de boa noite. Depois, deitou-se ao lado do filho e sussurrou sorrindo:

“Eu te amo até a Lua… Ida e volta.”

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Foto da autora.

Papito,

que tenhas um esplêndido dia dos pais!

Com amor,

Da sua sempre “filhota”.

 

Carla Mereles

Morena de cidade alemã, tem na escrita a sua maior liberdade. Além disso, tem inquietação por tudo o que parece fora do lugar – ou num mesmo lugar há muito tempo. Crê na força das palavras, no poder catalisador da música (em especial a quem a faz) e, principalmente, na força sinérgica das pessoas. Gosta de ouvir e contar histórias, sempre que pode está na/pega a/bota o pé na estrada e deseja um dia ter a sabedoria em bem enxergar o mundo.

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Sem comentários

  • Nicolle Ramos 28/08/2014   Reply →

    Texto simplismente magnífico! E uma homenagem digna desse pai exemplar. Parabéns pelo dia dois pais e das mães tambem. Que essa amizade sirva de exemplos para outros pais e filhos. 😊👏

  • Luiza Mahara Werner 28/08/2014   Reply →

    Ai meu Deus, eu tô chorando! A minha frase preferida pode ser o texto inteiro???

  • Desde a primeira vez que li um texto seu, notei o grande talento que você tem de se expressar através das palavras. Seu texto sobre o seu pai é maravilhoso. Confesso que me encontrei um pouco nele ao pensar em minhas filhas. Parabéns, saiba que tenho muito orgulho em ser seu professor.

  • veerinha 29/08/2014   Reply →

    Lindo texto <3
    Tenho muita afinidade com meu pai também. Adorei!
    beijos

  • Anna Giulia Simas 31/10/2014   Reply →

    Que texto lindo!!!! não tem como não chorar…
    expressou o sentimento de muitos extremamente bem..

Degustando...