Adoção, a paternidade originada pelo amor

 

– por Leonardo Silveira

 

Homenagem ao meu pai, Ronaldo Tornel da Silveira

Para escutar: https://www.youtube.com/watch?v=avGAe9EVkjc

Era quinta-feira. Ele acordou, vestiu seu jaleco e sua roupa branca. Tomou seu café e foi atender, como há décadas já faz na sua função de geriatra, idosos numa fundação da qual foi um grande apoiador desde que me entendo por gente. Almoçou e foi diretamente para a fundação que criara a partir da doação de seu próprio sítio, cuidando com afinco das plantas, voltou para casa feliz e radiante. Pegou carona e foi para o último compromisso do dia, num projeto social numa favela da cidade fundado por ele, onde completou a reunião e se aprontava para voltar para casa e ficar com sua família.

Exceto pelo fato de que naquele 14 de maio, ele não voltou. O coração levou meu pai aos 73 anos vividos do maior exemplo que eu já tive na vida. E essa é minha singela homenagem a ele.

Oi. Meu nome é Léo, eu tenho 25 anos, e eu sou adotado.

Você pode não me conhecer, mas já escutei todo o tipo de piada sobre adoção. Desde os que conheciam meus pais e acidentalmente diziam que era adotado pelas diferenças nas feições, até os que utilizavam isso como uma forma de me diminuir pela minha origem. Mas sabe, eu não tenho problemas em dizer nem de lutar por essa causa. Afinal de contas, existem tantos paradigmas sobre adoção e adotado que acho importante que o meu relato possa ajudar outras pessoas a pensarem sobre essa prática. E para isso, eu estou aqui para falar da minha história.

Nasci em Juiz de Fora, Minas Gerais, e fui direto do berço para minha família. Desde as minhas recordações mais longínquas da infância, soube da minha adoção; não houve cena de novela, não houve choradeira. Sabe o que houve? Amor. Sempre escutei dos meus pais que era “filho do coração”, e que nunca deveria ter vergonha disso, porque o amor que eles tinham por mim era incondicional e nossa família se unia pelos laços mais puros existentes no relacionamento humano.

E o que é reforçar a verdadeira paternidade senão recordar os laços de amor criados durante esses anos de vida?

A verdade é que durante a adolescência, principalmente, as perguntas principais sobre origem surgem na sua cabeça. Algumas perguntas simples, como se eu tenho alguma doença hereditária, são enigmas aos quais muitas pessoas não sabem responder. Você pensa que a adoção, as mães e pais solteiros ou fruto de casos extraconjugais são algo muito raro no mundo, mas você se surpreenderia com o número de pessoas que abrem temas como esses na mesa. Continuam sendo tabus, querendo ou não, que afetam os sentimentos desses filhos. Olhares atravessados, brincadeiras com quem ainda não tem maturidade para encarar o tema com naturalidade, as próprias cenas de novelas onde a pessoa descobre que é adotada contribuem para isso.

Por favor, me escutem: a maior incoerência da adoção, e talvez a mais traumática, é a mentira. Esse ato é admirável, é uma prova de amor por um ser humano inestimável; não há motivos para isso ser motivo de brincadeiras, para haver qualquer tipo de estigma quanto a isso. Não estamos na idade média, onde os filhos bastardos eram relegados da herança. E mesmo até hoje, nas maiores incoerências que cometo, cedo ou tarde a minha própria origem faz com que eu me sinta impelido a enfrentar as consequências da verdade, independente do quanto meus erros tenham sido impactantes.

Essa é a maior marca da minha origem. Por bem ou por mal, a origem que reside no amor encontra abrigo desde o início no acolhimento de aceitar sua imperfeição. Faz com que você se lembre da família, do que ela consiste de verdade, e do que é paternidade como a forma mais impactante de educação para o todo da sociedade.

A mitologia grega remonta a criação do homem através da lenda de Prometeu, o deus que roubou atributos divinos para dar ao homem uma capacidade de sobrevivência no ambiente, pois se não tem a força de um urso ou a agilidade de uma zebra, possui o dom da criação, como na arte, na tecnologia. Por isso, o homem seria o único animal que acredita nos deuses: pela centelha de criação que cada ser humano contém. A metáfora refere-se também ao dom que vai além de gerar descendentes, como todo animal, mas também na possibilidade de eternizar a existência do ser por meio da transmissão de valores e educação de pai para filho, geração a geração.

A minha homenagem depois de mais de 5 anos separado do meu pai é apenas uma amostra do que meu pai me ensinou, mas é sem dúvida o mais importante. Do cara que começou a faculdade com quase 30 anos, que passou a vida toda fazendo plantão no SUS, que criou instituições que apoiam quem precisa que perduram até hoje. E que para mim teve como símbolo de sua existência mesmo enquanto já em meio a seu enfarte, mesmo partindo, pedia desculpas aos enfermeiros pelo trabalho que estava dando.

Esse é o meu pai, que eu tenho muito orgulho de ter vivido 20 anos ao seu lado. E que me ensinou que como dizem por aí, a palavra convence, mas o exemplo arrasta.

 

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