Por que eu não acredito em liberdade

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Nasci em uma família um tanto curiosa. Meu pai, com raízes evangélicas, casou-se com minha mãe, vinda do catolicismo e desde muito cedo fui incentivada à acreditar em Deus, independente da religião. Mas, assim como os pais definem a devoção futebolística dos filhos, minha mãe tratou de escolher minha vocação religiosa e, tão logo aprendi a escrever, comecei a frequentar as escolas de catequese de Miracema.

 

Levava os estudos divinos a sério: estava sempre com os exercícios em dia e frequentava as aulas com vestidos abaixo do joelho, à moda antiga. Uma aluna exemplar, diriam. Só que, por trás da anágua rodada dos vestidos comportados, crescia em mim o mal da dúvida. Nunca acreditei em verdades universais – nem mesmo quando era pequena – e não havia evangelho que colocasse em mim certezas que não me pertenciam.

 

Em uma das aulas de catequese, já empanturrada de perguntas que me enchiam o coração e a alma, levantei o dedo o mais alto que consegui e perguntei: – Professora, como a gente sabe que o que tá escrito na Bíblia aconteceu de verdade? Ela foi escrita há tanto tempo e ninguém viu quem escreveu ela.

 

Depois de me dar uma resposta vazia e insuficiente (algo como “devemos acreditar na Bíblia porque Jesus mandou”), minha professora me puxou delicada e sorrateiramente pelo braço e me pediu, com veemência, para que eu não fizesse esse tipo de pergunta na frente dos outros coleguinhas, pois elas poderiam incitar dúvidas que não existiam neles.

 

Naquele dia, fui pra casa com muito mais perguntas e um peso enorme na consciência. Questionar, ao que me parecia, era um pecado universal e eu, ainda com tão pouca idade, achava que era uma pobre coitada já condenada para sempre à perdição e que, se os portões do paraíso existissem mesmo, não permitiram a minha entrada.

 

Eu tinha sete anos e essa foi a primeira das muitas vezes que me provaram que liberdade de pensamento, a mais importante e base para todas as outras formas de liberdade, não existia. Na época, não conhecia esse tipo de censura e, conforme fui crescendo, foi ficando cada vez mais claro que a liberdade era, na maior parte das vezes, uma falsa sensação que nos invadia de tempos em tempo. Todas as nossas escolhas, até mesmo as mais banais, passam por filtros de restrições. Filtros que não se limitam à um ou outro – por mais conscientes ou anarquistas ou inocentes que sejamos, estamos expostos e vulneráveis a eles.

 

Se escolhemos amarelo ou azul, ponderamos, ainda que de maneira inconsciente, se é uma escolha aceitável, e todos os nossos atos são mediados por leis – as constitucionais, garantidas pelo Estado; as sociais, garantidas pelo julgamento do próximo; as convencionadas, criadas por nós mesmos e pelos pequenos grupos de convívio que nos acolheram.

 

“Menino usa azul e menina brinca de boneca”, “Você tem que gostar de futebol”, “Não transe com qualquer um” ou, no caso da minha história de infância, “Não questione se o que está escrito na Bíblia é verdade”. Até os de espírito rebelde e os mais militantes caem na rede, pois os extremos se julgam da mesma forma como julgamos nós mesmos em frente ao espelho: o de direita julga o de esquerda, o de esquerda julga o de direita e ninguém escapa aos tentáculos crueis das restrições. Por fim, somos todos um bando de bundões condenamos à viver sem liberdade porque não respeitamos o pensamento do outro.

 

Às vezes, me pergunto se mesmo nossos pensamentos mais íntimos são livres. “Se o que pensamos é pautado pelo que vivemos e aprendemos, e se nossas vivências são repletas de represálias, será que o que eu penso é, de verdade, a minha opinião?”, são as dúvidas que me perturbam não as anáguas, mas as calças jeans dos 23.

 

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Foto: Pinterest

 

Me desculpem a escrita confusa, a retórica fraca, os pensamentos soltos e mal costurados. Definir liberdade é tão perigoso, arisco e complicado que, se me arrisco no assunto, reservo meus argumentos para as mesas de bar, onde gestos, braços, olhos e sobrancelhas falam junto comigo, na tentativa de explicar meu ponto.

 

Se ajuda, a liberdade, para mim, é como a utopia de Galeano – e que ele me permita parafrasear sua brilhante definição: a liberdade está lá longe, no horizonte. Nos aproximamos dois passos, ela se afasta dois passos. Caminhamos e o horizonte corre outros dez. Por mais que caminhemos, jamais a teremos em mãos. E para que serve a liberdade, no fim das contas? Serve para isso: para que não deixemos nunca de caminhar*.

 

Quem sabe um dia ela chega?

 

 

*Definição do Eduardo Galeano sobre o que é a utopia.

 

 

Bruna Estevanin

Bruna Estevanin

Bruna é uma jornalista inquieta que adora ouvir histórias e nunca recusa um convite para jogar baralho. Acredita mais em ações que em palavras e as pessoas que enrubescem quando estão envergonhadas são as suas favoritas. Nas horas vagas, ela inventa teorias sobre comportamento humano, rabisca uma ideia e outra e coleciona guardanapos.
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