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A liberdade é mais importante que o pão

liberdade

 

Em uma aula de literatura, há cerca de três anos, a professora falava a respeito de Nelson Rodrigues – um pequeno resumo biográfico, um pouco acerca das suas principais obras, seu gênero literário e estilística e, obviamente, algumas das suas citações mais emblemáticas. Entre devaneios e anotações, ouvi ela proferir: “A liberdade é mais importante que o pão.” Alguns colegas riram brevemente, outros olhavam-na com certo estranhamento e murmuravam sobre o verso. Sei que eu já estava com a mente em outro lugar – ao meu redor, as vozes não passavam de ecos e os rostos de borrões.

Naquele momento da minha vida – não que hoje seja muito diferente, contudo – o conceito de liberdade era-me muito vago e inconsistente, portanto, a comparação dele com algo tão concreto e rotineiro como o pão, causou um impacto significativo na minha cabeça. Era inconcebível na mesma medida que existe ao comparar um pesadelo a uma xícara: não havia como fazê-lo. Porém, logo ocorreu a mim que a poesia é uma ciência totalmente inexata e que a sua graça é exatamente a sua confusão. Basta que faça sentido a uma pessoa, mesmo que somente ao próprio autor, poesia é poesia da forma mais exótica e incrédula que pode existir e nem por isso será menos poesia que a considerada clássica. Eu só precisava montar o quebra-cabeça de forma a que aquela frase fizesse sentido.

Dados minutos, horas e, por fim, alguns dias, flagrei-me ainda tentando entender aquele bendito verso. Como faço com toda angústia, fui escrever a respeito dela e, quando o vazio que a incerteza a respeito dele fora preenchido com as minhas próprias palavras, tudo ficou claro. Eu não conhecia a liberdade, mas ela me conhecia bem: a minha liberdade aflora em mim quando eu escrevo. Eu não a reconhecia em mim quando desabrochava na sua forma mais plena. Eu não enxergava que pudesse ser meu ato libertário algo que a mim era tão corriqueiro quanto a escrita.

(Então, era isso!) No ordinário, no comum, na rotina, no nosso “pão”, que ocorrem os momentos em que desempenhamos o nosso melhor, aquilo que mais temos alegria em fazer e, pois, sentimo-nos libertados da forma mais bela e volátil possível: aí paira a liberdade. Ela é oriunda do privilégio em ser capaz de exercer aquilo que, em troca, concede-nos a mais plena e sincera felicidade. Afinal, o que seríamos nós sem que fizéssemos aquilo por que temos amor em fazer? Os quês que nos tornam maiores, mais nós, mais aquilo que somos, mais livres para ser. A nossa liberdade maior reflete ao nos permitirmos sentí-la e exercê-la fidedignamente, quando somos os mais verdadeiros possíveis à nossa essência e fazemos veemente com amor aquilo que nos concebe a mais verdadeira felicidade.

Carla Mereles

Morena de cidade alemã, tem na escrita a sua maior liberdade. Além disso, tem inquietação por tudo o que parece fora do lugar – ou num mesmo lugar há muito tempo. Crê na força das palavras, no poder catalisador da música (em especial a quem a faz) e, principalmente, na força sinérgica das pessoas. Gosta de ouvir e contar histórias, sempre que pode está na/pega a/bota o pé na estrada e deseja um dia ter a sabedoria em bem enxergar o mundo.

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