5 coisas que eu aprendi sobre voltar

liberdade

 

– por Natalia Zampieri

 

Viajei! Perdi países!/ Fui outro completamente/ Por alma não ter raízes.

Eu fui, conheci vários lugares com os quais eu sempre sonhei e aprendi um novo conceito de liberdade. Descobri que a viagem em si não termina no desembarque no aeroporto, porque se readaptar à realidade também é parte do processo – um exercício assim também é muito libertador, é aprender a viver um hoje tão cheio de ontem.

Meus amigos me pedem dicas sobre como ir. Agora, eu queria dividir o que eu aprendi sobre como voltar.

1) Não foi só você que mudou

‘Aprendeu a beber / deixou o cabelo cresceu / e decidiu trabalhar- naããooo’, mas não foi só você que ficou irreconhecível.

A sua amiga agora é cordenadora da escola, aquela que estava começando no trabalho quando você viajou. O seu melhor amigo, que vivia com você, agora tem uma namorada. Sua amiga nerd agora é viciada em malhar. Sua prima pequena formou na faculdade. O seu restaurante/bar favorito já não tem a mesma graça – mas em compensação abriu um outro…  e eles servem hamburguer com shitake! Olha, que coisa bonita! Não dá nem para sentir saudades de Döner Kebap depois dessa.

As pessoas com quem você convivia aprenderam muitas coisas, têm outras rotinas e você já não é mais parte do dia a dia delas. Isso significa que elas te amam menos? Não! Mas, enquanto você explorava o mundo, elas se reinventavam por aqui mesmo. Agora cabe a você redescobrir aquele lugar que você se orgulhava de conhecer como a palma da sua mão e se encantar de novo como as pessoas que você já ama.  Mesmo porque, como você mudou, a sua interpretação da realidade também deve ter mudado e deve ter muito para redescobrir por aqui.

2) Você não é o único a se sentir assim

Não se adapta mais? Desaprendeu a viver em família? Ainda está procurando trabalho? Tudo está difícil para você? E, se não bastasse, já escutou várias vezes que seu português está esquisito?

Você chora as suas pitangas, porque você se aplica, se aplica, se aplica e nada de conseguir um trabalho, seus amigos começam a rir… Você olha incrédulo e eles te contam entre gargalhadas:  “‘aplicar para um trabalho’ é inglês! Você se candidatou a um trabalho!”. Mudaram o verbo, mas o problema ainda está lá.

Seu complexo de não-pertencimento, na verdade, é o que te inclui no grupo de pessoas que tiveram uma experiência fantástica em outro país. Isso acontece com todo mundo!  Quero dizer, não necessariamente usar um cognato do inglês em português, poderia facilmente ser portunhol: nunca saber se é “atardecer” ou  “entardecer” em português (eu ainda não me recuperei desta dúvida), ou seus muxoxos serem em turco “Allah Allah” ou ”uf yaaaa”. Eu digo que  acontece com todo mundo o de se sentir fora de lugar mesmo estando entre “as aves que gorjeiam como lá”.

Normalmente há uma vazio entre a foto no ponto mais clichê do país estrangeiro e a atualização do Linked In  ‘dê parabêns ao fulano pelo novo emprego’, mas também aconteceu com eles. E digo mais! Aconteceu com o ucraniano, a americana, a servia, o egípcio, o sulafricano e todos aqueles que estampam as suas fotos policromáticas dignas das campanhas antigas da Benetton.

Esse sentimento pós-viagem não é um privilégio seu. E ele vai passar…

3) Não vai ser a sua última viagem

Eu sei! Viajar vicia. Eu sei bem disso: fiz 5 intercâmbios – fora as viagens para conectar os destinos e as cidades do Brasil em que eu já morei. Parece que não vai ser possível viajar de novo. Vai faltar dinheiro, você vai querer ter filhos, vai ficar velho ou qualquer outra razão que o medo te fez acreditar que era totalmente plausível.

Sabe uma coisa que enche meu coração de esperanças? Aqueles grupos de velhinhos fazendo turismo, chegando de van na porta do monumento, enquanto uma guia muito animada sacode uma plaquinha colorida e pede para o grupo se juntar. Eles vão todos vagarosamente, cada um da maneira que é possível. Algumas vezes esses grupos já duplicaram a minha fila de espera – podia ser em Santiago do Chile ou Riga, na Letônia, eles sempre significaram esperança para mim. Fazendo umas contas rápidas: eu estou com 20 e algo e eles, com uns 70 e algo… dava uns 50 anos pela frente para poder viajar. Em 50 anos eu poderia viajar muitas vezes ou ter tempo suficiente para juntar dinheiro para realizar pelo menos mais uma viagem. Dá para deixar as crianças crescerem em 50 anos e ainda dá para se locomover bem em 50 anos.

Bom, depois de fazer tantos amigos, pelo menos a acomodação em algum canto do mundo está garantida.

4) A rotina está em qualquer lugar

Todas as pessoas têm rotina. Ainda que seja algo sem horários, é uma rotina. Um mochilão improvisado tem uma rotina: buscar novos destinos, visitar monumentos, provar novas comidas, conversar com desconhecidos no hostel, fechar a mala, visitar mais monumentos, provar novas comidas, repetir aquele sanduíche de 1 euro do Mc Donald’s, conhecer desconhecidos que são desconhecidos dos últimos desconhecidos que você conheceu.

Se vai ter mate, tchai, café, suco, chá, terere, starbucks para o café da manhã, vai depender de onde você vai estar, mas isso vai se repetir dia após dia.

Achar que mudar de cidade ou de país vai apagar a sua rotina é uma ilusão. Cuidado! Você que sempre viajou para buscar pode acabar se assustando com a volta e viajar para fugir. A rotina existe em qualquer lugar, cabe a você fazer o melhor do seu dia a dia.

5) Você trouxe a adrenalina na mala (e ainda teve que pagar excesso de bagagem por ela)

Antes tudo era um desafio: pegar ônibus sem falar uma palavra da língua local, mudar o sotaque, esconder a pinta de gringo, aprender as melhores baladas, fazer roteiros de viagens com os novos amigos. Você volta e, voilà!, a sua vida voltou a ser a mesma que era antes: faltam desafios, faltam coisas novas para serem feitas, tudo é aquela mesmice…

Sabe a famosa conversa que você tem na rua com os seus antigos colegas de colégio, as amigas da sua mãe ou com aquele seu primo de terceiro grau:

– Eu vi as fotos no Facebook! Que lindas! Como foi o _______________(complete aqui com a sua peripércia: intercâmbio, cidadão global, talento global, mochilão, ciência sem fronteiras, etc)? Conta para gente!

– Foi ótimo! Estou morrendo de saudades, aprendi um mundo de coisa lá. Não dá para contar assim tão rápido.

Use o tal “um mundo de coisas que você aprendeu lá”. Não foi valente o suficiente para se aventurar e fazer algo novo? Seja valente o suficiente para voltar, para fazer algo novo “no velho”, para construir algo diferente e deixar essa tristeza pós-viagem para trás.

—-

Resumindo:

Voltar para casa é o novo fora da zona de conforto.

Com carinho,

Alguém que deixou pedaços do coração pela Alemanha, Patagônia Chilena, Paraguay, Finlândia e Turquia e , agora, vive feliz no Brasil.

 

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